Entrevista com o Paulo David – arquitecto madeirense distinguido pela Comissão Medalha Alvar Aalto

11 Fev 2012 / 11:00 H.
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À publicação da presente entrevista em vídeo com o vencedor da galardão - Alvar Aalto medalist 2012 – atribuído pela Comissão Alvar Aalto, que representa a Fundação Alvar Aalto, a Associação Finlandesa de Arquitectos/ SAFA, a Fundação para o Museu de Arquitectura da Finlândia, a Sociedade Finlandesa de Arquitectura e da Cidade de Helsínquia, o DIÁRIO junta a argumentação elaborada pelo painel de jurados sustentando a atribuição do prémio ao arquitecto madeirense.

Segue-se a argumentação do Júri do prémio finlandês.

“O Júri da Alvar Aalto Medal decidiu atribuir a 'Alvar Aalto Medal' ao arquitecto português Paulo David pela sua contribuição para uma arquitectura contemporânea e eterna.
Numa era onde a profissão está obcecada com padrões gerados por computador, o 'design' em muitos ateliers tem-se tornado grandemente interessado na manipulação de formas em vez de construir lugar e arquitectura.
Muitos edifícios agora falham na adesão à lógica estrutural por nenhuma razão além da qual "eles podem, conseguem"; estes edifícios são desenhados para inclinar, sobrevoar, pendurar-se e visualmente desafiar a gravidade. O trabalho tem como intenção estimular os sentidos visuais mas torna-se rapidamente cansativo. Este é um tempo de arquitecturas "desesperadamente interessantes".
A Madeira é uma ilha vulcânica completamente isolada de Portugal Continental. Um vulcão adormecido conforma cones inclinados e uma linha de costa recortada. Vastos oceanos desenham uma paisagem marítima em todo o redor da ilha. A ilha está sujeita a um ambiente costeiro tropical poderoso, duro, exposto, quente, ventoso e rude.
O basalto tem sido um recurso abundante nas históricas paisagens construídas; a pedra tem sido extensivamente usada em muros de retenção, formando patamares para as vinhas e árvores de fruto. Poços, cisternas e canais foram talhados na rocha para armazenamento e transporte de água para irrigação ao longo da ilha. Torres avista navios foram construídas, mirando os vastos oceanos circundantes onde "o horizonte é o limite e motor para sonhar" ... é uma actividade plena de alma do habitante da ilha" - que tem tendência para viver uma vida de solidão. Estas influências formam o poder que está na base da obra de Paulo David.
Paulo David trabalha na Madeira desde 2003. Nesse período adquiriu um corpo de trabalho que reflecte o poder do duro espaço físico da Madeira, onde a sua diversidade de edifícios varia em escala desde as moradias unifamiliares até edifícios de apartamentos, galerias de arte, museus, piscinas e mais, cada um concebido para ser lido como parte de uma paisagem como peças de arquitectura. A obra adiciona novas camadas sobre. centenas de anos de paisagem e arquitectura na ilha.
O trabalho é fundamentado, respeitando a paisagem da ilha e a envolvente histórica construída. É uma síntese entre modernidade e elementos da tradição rural e costeira, materializada em novas e contemporâneas paredes em basalto de grandes dimensões e as suas plataformas, que proporcionam suporte e segurança às rampas e caminhos projectados por forma a evidenciar a rugosidade da linha de costa. Novas passagens permitem aceder às piscinas costeiras e a prolongamentos de percursos existentes, mantendo e alongando conexões sociais. Os percursos continuam por entre paisagens cultivadas e jardins. A obra é uma resposta poética e rigorosa à cultura da ilha.
As coberturas foram desenhadas como paisagens onde as rampas de acesso passam adjacentes a corpos de água parados que recebem variações diariamente em padrões climáticos. Plantas comuns foram introduzidas nos novos edifícios através de canais entre basalto e coberturas forradas a aço que se intersectam com arquitecturas vizinhas. A forte luz natural nas galerias é modificada através de profundas perfurações na cobertura e reflectores internos, onde a luz natural que ilumina o interior recebe permanentes mutações de acordo com as variações do céu.
No que poderia ser uma dura paisagem e envolvente externa, Paulo David cria obras que prolongam as falésias vulcânicas e recortadas da paisagem imediata em simples formas geométricas que estão revestidas em basalto ou aço cor-ten, unificando a arquitectura com a paisagem; os edifícios silenciosamente ocupam o terreno.
Os espaços interiores são projectados com ausência de formas para revelar a vastidão da paisagem marítima, permitindo uma experiência de calma, serenidade, muito à semelhança do arquitecto mexicano Luis Barragan.
Ironicamente, ao entender limitações impostas ou auto-impostas, a riqueza e oportunidades de uma obra irão frequentemente aumentar.
A obra de Paulo David é enraizada localmente, mas ao mesmo tempo é universal. É um lembrete que a arquitectura pode ser calma, serena, lírica, poderosa e distante do espectáculo. Continua a procura de uma arquitectura apropriada, relevante e autêntica que se funde com a paisagem. Respeita e responde à "história, tempo, lugar, cultura e tecnologia" - a sua obra é arquitectura de resposta em vez de imposição".

Raquel Gonçalves
Nicolau Fernandez

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