“Melhor agora do que nunca”

Passados 55 anos, o casal de arqueólogos britânicos, Brian e Edna Philp, resgatam a memória de cinco vítimas da tragédia do navio ‘Lakonia’. Michael Blandy foi um dos sobreviventes

12 Mar 2018 / 02:00 H.

“Ao princípio da madrugada estava a afundar-se nos mares da Madeira o paquete ‘Lakonia’, a bordo do qual se manifestou violento incêndio”. Há 55 anos, era este o parágrafo que fazia a manchete da edição n.º 28995 do nosso DIÁRIO.

A bordo do ‘Lakonia’ partiram, de Southampton (Reino Unido), a 19 de Dezembro de 1963, 1023 pessoas num cruzeiro de 11 dias rumo às ilhas Canárias. O Funchal era o primeiro porto de escala do navio grego e o destino final de 170 passageiros que esperavam passar as férias de Natal na Madeira.

De acordo com os registos da época, o ‘Lakonia’, de 23283 toneladas, dispunha de piscinas, salões e bares, bem como de sala especial para recreio de crianças. Todas as noites havia dança, cinema e festas de gala. Na noite de 22 para 23 de Dezembro, decorria um animado baile trapalhão, quando o som da música deu lugar às sirenes de incêndio.

O fogo, que deflagrou por volta das 23 horas, terá começado no barbeiro (cerca de três decks acima da ponte de comando) e rapidamente se alastraria a todo o navio, destruindo a ponte de comando e a estação de rádio. As contraditórias e pouco audíveis instruções de segurança encontrariam também muitos passageiros já a dormir.

O fumo e as chamas impediriam, ainda, que as lanchas salva-vidas que se encontravam à proa da ponte de comando fossem lançadas. Estava instalado o caos e a tragédia.

Mais tarde, as causas do incidente seriam atribuídas a um curto-circuito na instalação eléctrica.

Os oficiais, incluindo o comandante do navio, o Capitão Mateoes Zarbis (53 anos), foram acusados de negligência. Até à viagem, a tripulação nunca tinha feito qualquer exercício de simulacro de incêndio.

Às 0h22 do dia 23 de Dezembro foi realizada a última chamada via rádio desde o ‘Lakonia’: “SOS. Última mensagem. Não posso ficar mais tempo na cabine de telegrafia. Estamos a abandonar o navio. Por favor, enviem assistência imediata. Por favor, enviem auxílio”.

Vários navios acorreram ao apelo do ‘Lakonia’, que se encontrava a menos de 180 milhas da costa madeirense. Entre estes, o argentino ‘Salta’ e o britânico ‘Montcalm’, que participaram activamente nas operações de salvamento.

Não voltaram a ser captadas outras mensagens de bordo do navio, que era esperado às 8 horas da manhã no Funchal, aonde nunca chegou a aportar.

Do desastre, resultaram 128 mortos (95 passageiros e 33 membros da tripulação), de várias nacionalidades. Destes, 55 sucumbiram às chamas e os restantes faleceram por afogamento, hipotermia ou ferimentos ao atirarem-se para o mar. A maioria das vítimas tinha mais de 65 anos de idade.

Da tragédia do ‘Lakonia’ escaparam com vida 895 passageiros. Entre estes, o actual presidente do conselho de gerência do DIÁRIO, Michael Blandy.

Michael Blandy, o náufrago do ‘Lakonia’

Michael Blandy é, nas suas próprias palavras, um homem que vive “no presente”, com um pensamento mais voltado para os desafios do futuro e para as responsabilidades que advêm de ser presidente do secular Grupo Blandy do que propriamente para o passado.

Por este motivo, e também devido ao facto de ter apenas 11 anos na altura, relembra o incidente do ‘Lakonia’ como um episódio marcante da sua juventude, mas “não como um trauma”.

Tudo aconteceu quando, cumprindo a tradição de muitas famílias inglesas de estudar no Reino Unido, Michael e os seus dois irmãos mais velhos – os entretanto já falecidos Richard e Edward Blandy, na altura com 16 e 14 anos – viajavam de regresso a casa a bordo do ‘Lakonia’, onde partilhavam uma cabine com Malcolm Flux (filho de um ex-director da agência de viagens Blandy, na Madeira).

Da entrevista que nos concedeu, na qualidade de náufrago do ‘Lakonia’, sobressaem dois momentos: o primeiro, em que recorda com emoção o irmão mais velho (Richard Blandy), que lhe salvou a vida naquela fatídica noite de Dezembro; o segundo, onde revela uma enorme gratidão quer pela tripulação do navio ‘Montcalm’, que o resgatou do mar, quer pela família de Frank Barber, que o acolheu em Casablanca na sequência do naufrágio.

A fuga ‘em pijama’ e o navio em chamas

“Na noite de 22 de Dezembro, eu tinha onze anos, fui para a cama cedo e os meus dois irmãos, ambos já falecidos, estavam a assistir a um filme muito bom, ‘Call Me Bwana’, com o Bob Hope, quando um sino começou a tocar. Eu já estava a dormir e o Malcolm também, quando o primeiro alarme foi dado. O Edward e o Richard aperceberam-se de que o som não fazia parte do filme e saíram do cinema para vir buscar-nos (...) Quando chegaram à cabine encontraram-me a mim e ao Malcolm a dormir profundamente. Lembro-me de me abanarem e de ouvir a voz do Richard: ‘Michael acorda, levanta-te, temos de fugir depressa e não há tempo para te vestires’”, relata Michael Blandy.

E, visivelmente emocionado, sublinha: “Para mim está claro que eu e o Malcolm hoje estamos vivos porque o Richard salvou as nossas vidas. O facto é que, essa noite, para chegar à cabine ele teve de passar uma porta que já estava fechada e onde havia um membro da tripulação a barrar a passagem de pessoas (...). Como muitas vezes acontecia, o Richard não pensou em si mesmo, pensou em mim”.

O empresário prossegue: “Sem perder tempo a vestir-nos, [o Richard e o Edward] colocaram-nos os coletes salva-vidas e fomos para a sala de jantar, na popa, onde aos poucos todos os passageiros acabaram por juntar-se a nós”.

“Depois de algum tempo na sala de jantar, disseram-nos para irmos para o tombadilho, onde formámos uma fila para entrar num barco salva-vidas. Nós recusámo-nos a entrar na primeira embarcação, porque não queríamos ser separados, e acabámos por embarcar no segundo salva-vidas, que rapidamente encheu. O barco, a remos, tinha capacidade para cerca de 60 passageiros e havia mais de 90 pessoas a bordo”, conta Michael Blandy. E ressalva: “Tivemos imensa sorte”.

“Em primeiro lugar, descemos sem qualquer problema, o ‘Lakonia’ ainda estava em andamento e o mar estava completamente calmo, apesar de estarmos a 23 de Dezembro no meio do Atlântico. E esta coisa de haver mais pessoas a bordo do que era devido, em parte, foi bom, porque ajudou-nos a mantermo-nos quentes”, acrescenta.

As horas que se seguiram seriam as mais marcantes. “Ao princípio não remámos, já que não estávamos em perigo. Várias lanchas salva-vidas passaram por nós e não fizemos nada, até que alguém se apercebeu de que a corrente nos tinha levado para trás e, como o ‘Lakonia’ se tinha virado um pouco, corríamos perigo de ser abalroados pelo navio a arder. Tivemos de remar. Claro que eu e o Malcolm não remámos, sentamo-nos no fundo do barco para não atrapalhar, mas tanto o Richard como o Edward tiveram de remar, durante quase duas horas, até conseguirmos passar pela ré e chegar ao outro lado do navio, longe do perigo”.

Apesar de confessar que na altura, com 11 anos, “ainda não tinha bem noção do perigo”, o presidente do Grupo Blandy não esquece a imagem do navio a arder: “O fogo alastrou rapidamente e, de onde estávamos, podíamos ver perfeitamente as chamas elevando-se no céu e pessoas a saltar do barco (...) É provavelmente a imagem mais forte que guardo. Lembro-me também perfeitamente de perguntar ao meu irmão Edward se estávamos em perigo”.

Rumo a Casablanca no ‘Montcalm’

Por volta das quatro da madrugada, os náufragos foram resgatados pelo navio cargueiro ‘Montcalm’. “Começámos a ver as luzes de um navio de resgate que se aproximava (...) O mar estava agitado e havia uma ondulação alta, de modo que era impossível usar a escada de corda. Em vez disso, lançaram uma corda com um laço na extremidade, que era passado por debaixo dos braços para depois cada um de nós ser içado”, narra Michael Blandy.

O próprio ‘Montcalm’ vinha de uma viagem difícil. Tinha sido o último navio a sair do gelo pelos Grandes Lagos, no Canadá, tendo depois encalhado e perdido duas das suas âncoras ao tentar flutuar novamente. Era um cargueiro de uma só hélice, com trinta e seis tripulantes ao todo e o comandante tinha apenas 29 anos de idade. Apesar disto, Michael Blandy não deixa de sublinhar o “extraordinário” trabalho da tripulação.

“A bordo de um navio cargueiro não há meios, nem pessoas para tanta gente, mas todos os seus tripulantes foram magníficos, entregando as suas roupas, alimentos e camarotes aos sobreviventes. A tripulação fez tudo por nós, em termos de comida e de conforto”.

O ‘Montcalm’ passou o dia 23 de Dezembro a recolher passageiros a bordo. Duas embarcações salva-vidas estiveram fora todo o dia até cerca das três e meia, quando já não havia sobreviventes na água.

“O Richard encontrou um beliche para mim e para o Malcolm, numa das cabines, onde adormecemos de imediato. Enquanto dormíamos, o Richard começou a cuidar dos sobreviventes que tinham ficado feridos e o Edward serviu de mensageiro e colaborou na cozinha”, recorda o empresário.

Uma vez que se tratava de um navio de transporte de carga, o ‘Montcalm’ decidiu manter a sua rota, levando os sobreviventes para o seu destino final, em Casablanca, ao invés de fazer um desvio até à Madeira. Na cidade marroquina Michael, Edward e Richard Blandy foram recebidos por Frank Barber e a sua família.

“Eu e os meus irmãos ficámos muito gratos pelo tratamento que esta família nos proporcionou. Foi espantoso! Eles tinham vários filhos, todos vindos de colégios internos em Inglaterra numa situação semelhante à nossa, que partilharam os presentes de Natal connosco. Foi um dia de Natal muito diferente”, revive o sobrevivente.

Recordações no regresso a casa

Os jovens Blandy só voltariam à Madeira muito depois do Natal. Após a obtenção de novos passaportes temporários, foram encaminhados primeiro para Lisboa e, só a seguir, para o Funchal. A 30 de Dezembro de 1963 aportaram, finalmente, no cais da Pontinha.

Michael Blandy falou-nos também da natural preocupação dos seus pais e de como encontrou na escrita uma forma de lidar com as más recordações.

“Os meus pais passaram um dia e meio numa extrema ansiedade até receberem a notícia de que todos estávamos a salvo. [Mais tarde] o meu pai escreveu uma carta aos proprietários do ‘Montcalm’ a agradecer e recebeu uma bandeja com o navio, que eu guardo até hoje na minha casa no Santo da Serra como recordação de uma aventura”, menciona.

O empresário explica que nunca encarou o assunto como “um trauma” porque, além de ter sido bem acolhido ao longo de todo o percurso, nem ele nem os seus irmãos sofreram fisicamente.

“Nessa altura ninguém recebia ajuda psicológica. O que aconteceu é que, quando cheguei ao colégio, fui convidado a escrever o que me tinha sucedido durante as férias e a lê-lo em voz alta. É das primeiras coisas que me lembro logo a seguir ao incidente e é uma forma de ajuda psicológica enorme, porque obriga pessoa a deitar cá para fora as preocupações”, realça.

“Perguntaram-me no outro dia se eu ainda sonho com o naufrágio. Não, já há muitos anos que não sonho com isso”, termina Michael Blandy.

Até hoje, 58 corpos continuam desaparecidos

Dez dos náufragos do ‘Lakonia’ encontram-se sepultados no Cemitério Britânico, no Funchal. Sabe-se que outros 58 foram sepultados em Gibraltar e que há ainda duas vítimas mortais cujo paradeiro os arqueólogos supõem conhecer. Mas, até hoje, estima-se que 58 corpos continuem desaparecidos.

É este o mistério que move o casal de arqueólogos britânicos, Brian e Edna Philp, que, durante os últimos quatro anos, tem desenvolvido a sua investigação na Madeira. Mais concretamente, procederam ao registo arqueológico de 450 lápides no Cemitério Britânico, cobrindo 250 anos da História madeirense.

Das dez vítimas do ‘Lakonia’ que encontraram neste lugar o seu eterno descanso, até agora, apenas cinco dos túmulos estavam identificados. Através das suas pesquisas, Brian e Edna Philp procederam à identificação dos restantes cinco, tendo então decido criar um memorial para que estes não fossem esquecidos.

“Acabámos de criar o novo memorial para assinalar as cinco vítimas ‘sem nome’, após uma lacuna de 55 anos. Esta é a extensão do nosso trabalho de quatro anos de registo do cemitério”, explica Brian Philp.

De salientar que os custos do mesmo foram inteiramente suportados pelo casal de arqueólogos, com a colaboração de Martin Mears (familiar de uma das vítimas), sem qualquer recurso a apoios de entidades externas.

Arqueólogos querem contactar famílias das vítimas

Assim, Guenter Mall (Augsburg, Alemanha), Werner Bötch, o cozinheiro (Áustria), Stewart Brame (Norfolk, Inglaterra), Etnst Schmedding (Münster, Alemanha) e Irene Hooper (Jersey), são os cinco nomes que constam do memorial recém-colocado no Cemitério Britânico.

Para Brian e Edna, a investigação prossegue agora com um novo objectivo: entrar em contacto com as famílias destas vítimas.

“Ficámos angustiados com a possibilidade das famílias não saberem onde os corpos foram enterrados. Foi por isso que criamos o memorial”, sublinha.

Os estudiosos procurarão então perceber (estabelecendo a ligação através dos consulados alemão e austríaco) se estas famílias tinham ou não conhecimento de que os seus entes queridos se encontravam sepultados na Madeira e se ficam contentes em saber que, 55 anos após a tragédia, as suas memórias foram finalmente resgatadas.

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