O modelo económico

25 Fev 2020 / 02:00 H.

    Não é preciso estar de posse de dados oficiais para constatar que a economia da nossa região assenta basicamente em dois pilares: o turismo e a construção, sobretudo de obras públicas. A primeira questão que se coloca é se estas duas atividades se complementam ou se uma prejudica a outra. Por aquilo que se observa também não é preciso ser muito erudito, nestas matérias, para concluir que o turismo é claramente prejudicado pelo sector das obras visto que a principal vantagem competitiva turística da nossa região reside na natureza a qual tem sido agredida por aquele sector ao longo de quarenta anos, nalguns casos de forma irreversível. O caso da Ribeira do Faial é bem o exemplo dessa agressão que descaracteriza aquele local, de forma tão brutal, que prejudica claramente a nossa imagem como destino turístico, assente na natureza. Tem sido a sofreguidão pelos fundos comunitários a justificação para este tipo de política que numa fase inicial talvez se justificava devido à falta de infraestruturas, sobretudo de vias de comunicação, mas que depois passou a ser regra sempre que se fala em resolver qualquer problema. Melhorar implica sempre construção de edifícios: no ensino (edifícios escolares), na saúde (hospital), na segurança (esquadras), na agricultura (fábrica de cidra), na justiça (tribunais) etc, que depois se vem a constatar ter sido um erro crasso e na maior parte dos casos nada resolver. E até as novas vias de comunicação estão a prejudicar o turismo por que as estradas antigas mostravam melhor as nossas maravilhas naturais. Casos de investimentos falhados abundam por aí como o da fábrica das moscas e tantos outros do domínio público. Investimento nas pessoas pouco. No caso do ensino é gritante. Estive lá como professor durante 43 anos e no máximo duas ou três vezes tive formação dada pelo Estado. E mesmo essa sem qualquer interesse porque virada basicamente para a pedagogia quando o professor o que precisa é de ser competente na vertente científica e de comunicação desses conhecimentos. Quem dirige não percebe nada de ensino porque não dá aulas. A pedagogia obtém-se com a prática e não com cursos. A maior parte da formação que obtive foi à minha custa. Basta ver o meu registo biográfico. As pessoas têm sido esquecidas neste frenesim de obras mas a prova do falhanço deste tipo de economia é que nunca se verificou uma emigração de pessoas tão elevada quanto após o 25/Abril. O despovoamento está aí para provar à saciedade. E o despovoamento significa menos atividade agrícola e por arrastamento a deterioração da paisagem. Afinal a quem serve todo este tipo de economia? Também está à vista de todos. Não é preciso pôr óculos especiais. O turismo é altamente dependente de fatores externos que não dominamos (a insegurança no Médio Oriente e no Centro da Europa que provocou o pico de turismo que agora se está a esbater porque o movimento terrorista islamita foi derrotado), que estragar o destino naquilo que ele tem de mais valor para o turista constitui uma má política por parte de quem dirige a nossa economia. Os Açores são um exemplo a seguir pois recentemente foram premiados internacionalmente com o prémio de “ melhor destino turístico com desenvolvimento sustentável” e desta forma não é difícil de adivinhar que a médio prazo ultrapassarão a nossa região em número de turistas. A agricultura, a pecuária e a pesca conservam o que os Açores têm de melhor que é a sua beleza natural. A sustentabilidade turística dos Açores assenta portanto na exploração dos seus setores básicos da economia que favorecem a natureza e não no sector da construção que não beneficia e muitas vezes até prejudica. Nós seguimos outro caminho e o resultado está à vista. Fraca sustentabilidade turística e emigração.

    Manuel João Baptista Rosa