Tristeza de Cavaco

12 Out 2019 / 02:00 H.

    Passadas 48 horas após terem sido conhecidos os resultados eleitorais para a Assembleia da República, o antigo presidente emitia um comunicado, muitos ao seu género, em que, por entre conselhos e lamentos, manifestava a sua tristeza, como social-democrata que é, (tenho muitas dúvidas) pelo resultado obtido pelo seu partido.

    Com esta sua atitude contribuiu para a instabilidade no PSD (ele que tanto apregoava o valor da estabilidade em política) atribuindo subliminarmente as culpas ao atual líder, como se Rui Rio, ou outro qualquer, fosse capaz de ganhar as legislativas nacionais, na atual situação política. Seria como exigir que o PS/M ganhasse as regionais ao PSD/M. A esta sua atitude, a meu ver, não é indiferente ao facto de Rui Rio nunca lhe ter prestado grande vassalagem, nem integrado a corte que o rodeou durante muitos anos.

    De facto, nunca o vi à volta do professor juntamente com Oliveira e Costa, Catroga, Arlindo Cunha, Duarte Lima, Dias Loureiro, Passos Coelho, entre tantos outros, muitos dos quais acabariam por integrar os governos por ele presididos ficando depois, alguns deles, sob a alçada da justiça. Rui Rio não fez parte desse grupo.

    Cavaco entrou na política pela mão de Sá Carneiro, o que terá sido, porventura, o maior erro deste estadista, tendo desempenhado o cargo de Ministro das Finanças do seu governo. Com o trágico desaparecimento de Sá carneiro, o professor recusou integrar o governo seguinte, chefiado por Pinto Balsemão, mas guardou como uma mais valia do seu curriculo a função que desempenhara no anterior governo. A partir daí, seria uma questão de paciência e calculismo para utilizar esse trunfo quando fosse oportuno. Esse momento chegou por ocasião do celebre congresso realizado na Figueira da Foz , onde esteve presente, aproveitando a viagem àquela cidade para, como então afirmou, fazer a rodagem do seu carro novo. Regressou a Lisboa com a rodagem feita, como novo líder do partido e, imagine-se, tentando fazer crer que estas coisas acontecem assim, duma forma simples, sem qualquer trabalho sub-reptício, persistente, no sentido de as preparar.

    À frente do PSD, ganhou as eleições legislativas, inicialmente com maioria relativa e depois com maioria absoluta. É nesse altura que começaram a chegar os dinheiros da União Europeia que lhe permitiram uma governação folgada a realização de várias obras (algumas em parcerias público-privadas, depois muito criticadas). Reformas, a mais importante foi a reforma fiscal pela mão de Miguel Cadilhe que, curiosamente, desapareceu da cena política. Muitas outras ficaram por fazer, apesar de governar com maioria absoluta, durante dois mandatos.

    Foi, anos depois, Presidente da República, coabitando com José Sócrates como Primeiro Ministro. Escreveria, depois, que foram tomadas medidas erradas na governação, mas nessa altura, não teve coragem nem força para enfrentar Sócrates mesmo que para isso tivesse de desencadear uma crise política que o levasse, eventualmente, a demitir o governo. Dizia que o papel do Presidente da República era cooperar com o governo mas, com certeza, tinha também presente a possibilidade de um segundo mandato presidencial, e os prejuizos que uma crise poderia acarretar a essa pretenção. Desta cooperação entre PR e PM resultariam prejuízos enormes para o país, de que ainda não recuperámos, pelos quais Cavaco Silva é também responsável, como o foi, concretamente, pelos danos causados aquando da falência do BES ao afirmar, dias antes, que o banco estava seguro e que as pessoas podiam confiar as suas economias a esta instituição. Depois, foi o que se viu.

    Fico-me por aqui, deixando um conselho ao professor. Faça como eu, que também já não sou novo : leia, ouça música e cuide dos netos. Goze a vida e os rendimentos, como os seus amigos.

    António Macedo

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