O transporte público para uns e para outros

12 Out 2018 / 17:04 H.

    O intenso debate sobre a mobilidade aérea e marítima na região atenuou a importância de discutir a mobilidade terreste, concretamente o transporte público, como eixo fundamental para um desenvolvimento regional equilibrado.

    Os desígnios que se impõem a uma ilha dependente de combustíveis fósseis, forçam a novos hábitos de deslocação que acarretem menos custos ambientais e económicos, com melhorias evidentes na qualidade de vida dos cidadãos. A mobilidade é um direito e deve estar ajustada às necessidades da população, através de uma estratégia de mobilidade urbana o mais sustentável possível, que promova um sistema de transporte coletivo, conveniente, eficiente, ecológico, económico e inclusivo.

    Nas últimas décadas, a melhoria das acessibilidades proporcionou a expansão urbana para a periferia do Funchal, para onde população deslocou-se à procura de habitações maiores, mais cómodas e económicas, trocando quilómetros por metros quadrados. Este movimento incrementou a dependência do automóvel particular, e consequentemente alguns problemas, como elevados níveis de congestionamento, poluição, sinistralidade e uma elevada fatura em transportes para as famílias.

    Apesar deste movimento populacional, o sistema de transporte público não correspondeu às necessidades da população, facto que se evidencia na proporção de utilizadores de transporte público, sobretudo no concelho de Santa Cruz. Um custo mensal do passe pouco atrativo, a que se junta uma frequência de carreiras diminuta e tempos de espera exagerados entre as carreiras, explicam a fraca adesão ao transporte público neste concelho, onde aproximadamente 74% dos residentes utilizam o transporte individual nos seus movimentos pendulares, o valor mais elevado da ilha.

    Um utilizador que se desloque das freguesias do Caniço ou Camacha para o Funchal, por enquadrar-se num modo de transporte interurbano, pagará um bilhete de ida e volta de 4,40€, enquanto o passe terá um custo mensal de 57,70€. Se considerarmos um automóvel particular com dois ocupantes, a despesa por pessoa em combustível e estacionamento fica substancialmente inferior à de um passe mensal.

    Recentemente foi apresentada uma proposta para a definição de dois tarifários, nomeadamente um passe mensal de 30€ para o concelho do Funchal e de 50€ para os restantes concelhos. No entanto, esta temática não deve ser discutida somente com base em critérios administrativos, numa abordagem fragmentada do território, incorrendo em propostas desprovidas de fundamento funcional, sem conhecimento da realidade das pessoas, que não contribuirão para a melhoria das condições de mobilidade dos cidadãos.

    Um passe mensal de 50€ para um residente no Caniço, uma das três freguesias mais habitadas da Madeira, a 7km do Funchal, para um trajeto de 15 minutos, não mudará o paradigma atual. A tarifa para as freguesias limítrofes do Funchal deveria estar enquadrada num modo de transporte suburbano, com um tarifário ligeiramente diferenciado do praticado no concelho do Funchal, mas nunca aos preços atuais (57,70€) ou propostos (50€), com um custo por quilómetro demasiado penalizador para o passageiro. Apesar do exemplo dado desta freguesia, atendendo

    à dimensão populacional e ao crescimento exponencial registado nos últimos anos, a mesma lógica aplica-se a outros municípios vizinhos.

    As entidades responsáveis têm uma oportunidade para revolucionar o paradigma do transporte público na RAM, para que efetivamente se torne uma alternativa prática ao veículo particular. Sem uma ação eficaz, continuaremos com os mesmos problemas que se têm acentuado nos últimos anos.

    O transporte público não deve ser visto como “o de uns e o dos outros”. Nessas condições, dificilmente se conquistará a população para uma nova cultura de mobilidade.

    Ricardo Gonçalves

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