As praxes académicas

04 Out 2018 / 02:00 H.

    Tradicionalmente, as praxes académicas aconteciam em Coimbra. Conheço muita gente que estudou noutras academias e nunca viveram essas praxes. Entretanto, as praxes alastraram, até nas universidades privadas, com o pretexto de os novos alunos, os caloiros, se integraram melhor naquele meio.

    Vamos lá raciocinar: se as criancinhas de tenra idade se integram nas escolas sem essas macaquices, então alunos universitários, praticamente maiores de idade, precisam de praxes para frequentarem uma nova escola? Sim, porque a universidade é uma escola, um lugar de estudo.

    E o que são as praxes? Alunos que já frequentaram a universidade em anos anteriores, colocam-se acima dos caloiros, os que acabam de chegar, obrigam-nos a obedecer aos seus mandos e desmandos, porque são inferiores aos mais velhos. O que manda num grupo de caloiros é chamado o Duce, cujo nome é igual ao título que o Mussolini, o chefe do regime fascista italiano atribuía a si próprio. Por aqui se vê que começam bem. Ainda são estudantes e já se colocam acima dos outros, considerados subalternos, para os humilhar e imporem a sua autoridade.

    Gabriel Garcia Marquez, escritor, pensador e humanista, deixou-nos o seguinte pensamento: “Ninguém tem o direito de olhar outra pessoa do alto, a não ser para lhe estender a mão e ajudá-la a levantar-se.”

    Como é que as universidades, que são escolas para jovens em formação, podem consentir que os seus alunos comecem a vida universitária desta maneira?

    Há alguns anos, um grupo de estudantes foi para uma praia num contexto de praxe, e aí morreram quase todos e todas. Só escapou o “Duce” que dava as ordens aos outros e aconteceu o pior. Nunca soubemos ao certo que tipo de praxe esse duce obrigou os colegas a fazerem. Muita gente levantou a voz contra as praxes académicas, mas as forças conservadoras defenderam essas práticas, porque querem os jovens, desde cedo, a aprenderem a dominar ou serem dominados pelos mais fortes.

    Nalgumas academias já substituíram as praxes por outras tarefas mais interessantes e mais úteis. No entanto, como não é proibido, elas subsistem aqui e ali, para satisfação de certa gente que gosta de se sentir importante e superior.

    E viemos a saber que este ano, uns tantos malvados levaram um grupo de caloiros para a Serra da Estrela, de noite, obrigaram-nos a despir-se ao relento e ainda os maltrataram. Estes caloiros poderiam ter morrido de frio e de maus tratos. De Évora, chegou-nos uma foto, através das redes sociais, de um jovem ajoelhado em cima das mãos e obrigado a meter a boca num monte de qualquer coisa, como se fosse um porco a mexer no estrume.

    Isto é aceitável?

    Alguns jovens afirmam que as praxes são interessantes, que os/as fazem mais felizes e aqueles casos horríveis não são praxes. Eu tomo a liberdade de afirmar que, enquanto as praxes forem permitidas, haverá sempre malvados a cometerem crimes horríveis. Rapazes e raparigas de 17, 18 e mais anos que precisam destas porcarias para se sentirem felizes, têm pouco de válido no seu interior como seres humanos. Ninguém é superior a ninguém., As praxes devem ser proibidas. Sejamos racionais, humanos e respeitadores.

    Conceição Pereira

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