As Ilhas do Ouro Branco

09 Nov 2017 / 02:00 H.

    No Diário de Notícias da Madeira do passado dia 2, em entrevista ao Dr. António Filipe Pimentel, diretor do Museu de Arte Antiga de Lisboa, a propósito da exposição “As Ilhas do Ouro Branco” que estará patente nesse Museu a partir do próximo dia 15, foi dito que uma das peças mais importantes dessa exposição era o conjunto de pinturas do Flamengo Michael de Coxcie, do final do século XVI, expressamente restauradas para a exposição.

    Para os menos esclarecidos e para os mais esquecidos, esclareço e relembro, que em 1996/97, foi o extinto atelier da Zona Velha do Funchal que procedeu à conservação e restauro de todo esse conjunto e, foi no decurso desse trabalho que se deu a conhecer ao público a autoria dessas pinturas que, até à data, era completamente desconhecida devido ao seu mau estado de conservação, próprios da idade mas também, porque a sua identificação, estava escondida pela moldura que ornava a pintura. Trabalho que foi acompanhado e noticiado.

    Esclareço ainda que, os dados que revelam a sua autoria foram encontrados na tábua da Fuga para o Egipto. Dados que haviam sido colocada sobre a matéria cromática, onde foi possível se ler, numa primeira linha, Michael de Coxcuo; numa linha seguinte, pictor Regius Philippi e, logo depois, a indicação da data de execução, Anºde m d L xxx I (1581).

    Miguel de Coxie era natural de Malines, nasceu em 1499, foi pintor régio de Filipe II depois de 1559 e veio a falecer em 1592.

    O conjunto dos referidos painéis, do altar do Senhor Bom Jesus da Sé do Funchal, são constituídos por quatro tábuas que se podem agrupar-se em dois conjuntos distintos, um devido às dimensões e outro à diferenciação do tratamento. As duas tábuas mais pequenos, a Circuncisão e a Adoração dos Reis Magos (90x90 cm), são de fina execução e composição mais intimista e, as duas maiores tábuas, o Encontro de São Joaquim com Santa Ana junto à Porta Dourada e a Fuga para o Egipto (180x90 cm), são de execução mais livre, com correções de pintor e com fundos de paisagem ao gosto flamengo.

    Sabendo que estava em voga, nessa data, as encomendas à oficina de Miguel de Coxcie e, que essa oficina funcionou com os seus dois filhos, o mais velho com o mesmo nome e que, à data, o pai Coxcie teria 82 anos de idade, parece evidente que estamos na presença de um trabalho conjunto. Daí as diferenças de tratamento.

    A colocação de uma identificação de autoria, tão detalhada, não era muito comum, mesmo em relação a Miguel de Coxcie, porque as assinaturas mais comuns deste pintor são as siglas MC.

    Salienta-se no entanto, que nada disto invalida a qualidade excecional e raridade deste belíssimo conjunto dos finais do século XVI.

    Não compreendo porem a necessidade consecutiva de montagem e desmontagem destas tábuas. Se considerarmos que o conjunto tem 436 anos e que, durante 415 anos, foi montado e desmontado duas vezes na Sé do Funchal, porque o seu atual suporte de talha não é o original; depois foi desmontado e montado para o seu tratamento em 1996/97 e gora, em apenas 20 anos, já viajou para Lisboa duas vezes, uma em 1998 a cargo das entidades locais que colaboraram com o Pavilhão de Espanha na Expo 98 e recentemente para o MNAA. É dito que o manuseamento é o pior inimigo das obras de arte, por muito competente e cuidadosa que seja a equipa, não seria melhor e mais rentável para a região, e para a nossa herança, enquadrar estas obras numa exposição local e, a região, se fazer representar de uma outra forma no MNAA?

    Georgina Garrido