O Doutor Geógrafo

31 Ago 2010 / 02:00 H.

    Bernardo Jardim Fernandes

    Estou farto. Já não consigo digerir o que ele diz. Já não bastava o aluvião de 20 de Fevereiro, o incêndio de 13 de Agosto, e a trágica palmeira do Porto Santo, como ainda temos de levar sempre com as certezas científicas do Doutor Geógrafo.

    Se a licenciatura em geografia não fosse um mero curso de Letras diríamos que estávamos perante o maior cientista madeirense de todos os tempos. Ele sabe tudo. Ele é biólogo. Ele é geofísico. Ele é geólogo. Ele é engenheiro. Ele é jurista. Ele é arquitecto. E por isso não me surpreenderia nada um dia destes ouvi-lo a dissertar sobre 
    alguma nova bactéria hospitalar.

    A curiosidade sobre o conhecimento multidisciplinar do ilustre senhor levou-me a consultar o plano de estudos da licenciatura em Geografia em diversas universidades portuguesas. Numa licenciatura de 30 cadeiras semestrais, encontrei uma disciplina opcional de "Climatologia", outra de "Hidrologia", duas de "Geomorfologia" e  apenas uma - que me pareceu a mais interessante - de "Erosão e Conservação dos Solos". Isto é, cinco cadeiras de índole pseudo técnica, e 25 da área Social e Humana que não interessam para nada. Por isso perdoem-me, mas é com alguma dificuldade, que vejo um geógrafo como um especialista em qualquer coisa.
    E nem é preciso sequer parar para pensar, para concluir logo que o tal senhor não teria a importância que lhe dão senão fosse a sua capacidade nata para discursar e intervir na Comunicação Social. Falar é sim a sua verdadeira e reconhecida especialidade.

    E se tivesse caído uma daquelas enormes palmeiras no Jardim Municipal do Funchal no tempo em que tinha responsabilidades políticas? Será que ele iria ao Google procurar uma justificação científica plausível, ou acusava logo os pobres patos de negligência?

    Como madeirense temo os aluviões, condeno os incendiários, e renego a tragédia da palmeira do Porto Santo, mas essencialmente desprezo os oportunistas que opinam sobre tudo e todos  sempre que acontece uma desgraça.

    Não é preciso ser nenhum Doutor para saber que as catástrofes são cíclicas, e que vão se repetir, seja daqui a 5, 10 ou 200 anos. Infelizmente é uma questão de tempo e estatística, e para sermos realmente honestos é preciso que se tenha a coragem de dizer publicamente que podemos tentar minorar, mas não podemos evitar.

    Não é estranho  o ensurdecedor silêncio das dezenas de investigadores da Universidade da Madeira e das centenas de técnicos da Administração Pública Regional sobre estes assuntos? Será que são todos uns míseros incompetentes? Porque é que o Governo Regional não os despede todos e contrata o Sábio Geógrafo?

    Pelo menos suspeito que ele ficaria calado por uns tempos.


     

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