“O MLA combate o preconceito de alguém viajar muito tempo”

Catarina Holstein, oradora no Madeira Startup Retreat

06 Fev 2019 / 02:00 H.

Catarina Holstein trabalhava numa multinacional que seria o sonho de muitos. Mas faltava sempre qualquer coisa. À procura de matar essa insatisfação, pediu transferência de Lisboa para Roterdão (Holanda), e mais tarde para Londres (Inglaterra). Foi promovida na cidade inglesa e “nada mudou”. Percebeu que quem tinha de mudar era ela e acabou por criar aquilo a que chamou MLA, Master in Life Adventures, um programa de viagem que desenhou pensado para si, mas que pode ser delineado para outros. E até já o registou na Europa. Depois de um ano em viagem para desenvolver competências e talentos, voltou para Portugal. E esteve no Funchal como oradora principal da abertura do Madeira Startup Retreat - iniciativa da Startup Madeira, Turismo de Portugal e da NOVA School of Business and Economics.

Foi depois de trabalhar em Roterdão e em Londres que descobriu a paixão pelas viagens?

Sempre fui muito apaixonada por viajar. Estudei na [Universidade] Católica e um ano e meio antes de acabar o mestrado, assinei contrato com a Unilever. Não estava à procura de trabalho mas marketing era a minha área de especialização e de repente tinha um contrato com uma empresa incrível. Não pensei duas vezes.

Mas não estava feliz apesar de trabalhar na área em que se especializou.

Não pensei verdadeiramente naquilo que queria fazer, de que é que gostava. Na altura dava aulas de marketing na Católica, e comecei a trabalhar na Unilever. Em Portugal, dois anos, um ano e meio na Holanda, e mais dois anos em Londres. A saltitar e à procura de me encaixar e de encontrar realização. Acabei por ser promovida em Londres e quando isso aconteceu, nada mudou. Achei que tinha mesmo de fazer alguma coisa.

O que fez?

Considerei mudar de empresa; fazer um doutoramento para dar aulas porque gostei tanto; fazer um MBA porque é óptimo para mudar de carreira. Ou viajar durante um longo período. Percebi que as três primeiras hipóteses não me traziam as respostas que procurava. Queria encontrar alguma coisa que me realizasse e onde pudesse explorar e alavancar aquilo que acho que são os meus talentos. Fiquei com viajar pelo mundo durante um tempo.

Uma espécie de férias prolongadas.

Não queria só viajar só. Um dia estava quase a adormecer e pensei: ‘Não vou fazer um MBA, mas um MLA - Master in Life Adventures’. Viajar pelo mundo à medida que desenvolvo competências e exploro e alavanco as minhas paixões e talentos. Como a ideia me surgiu até parece que já existia (risos). Acabei por registar na Europa, neste momento é um projecto em desenvolvimento. O objectivo é dar-lhe vida.

Tornar o MLA um produto?

Não está totalmente definido. Muitas pessoas aconselham-me a criar um negócio porque vêem o potencial. Mas sempre quis que fosse um presente para as pessoas usarem. Serviu-me, hoje sinto-me realizada e estou feliz. E gostava que isto pudesse servir a outras pessoas, mais do que fazer um negócio. Não sei muito bem, estou a tentar perceber de que forma é que se pode materializar.

Descobriu a sua vocação nesse processo?

É trabalhar com pessoas. Acredito que a minha vocação é capacitar o outro a atingir o seu máximo potencial.

E faz isso de que forma?

Através das aulas que dou na universidade, e também faço ‘coaching’. Uso ferramentas que aprendi durante a viagem: o movimento do corpo através do yoga, da meditação... E continuo de certa maneira a fazer o meu MLA. Estou a fazer um curso de apresentadora de televisão e rádio na ETIC, em Lisboa, porque trabalho muito com comunicação.

O MLA é adequado a pessoas de quaisquer áreas?

Sim. A verdade é que já há pessoas a levar este estilo de viagem, a viajar com um propósito. Não existia era uma estrutura que lhe desse nome e senti um bocadinho de necessidade. As pessoas perguntavam: ‘Vais de férias durante um ano? E a tua carreira?’ Como se eu tivesse a deitar tudo pela janela. Mas isto é um investimento brutal que estou a fazer na minha vida, pessoal e profissional. O MLA é, na verdade, um programa de desenvolvimento pessoal desenhado para cada pessoa: tendo em conta as áreas de interesse, as competências que quer desenvolver, as paixões, talentos. E envolve também um processo de instrospecção e de auto-conhecimento. Sem tirar o valor da universidade, uma pessoa quando vai, tem de se encaixar. O programa [MLA] está desenhado a atender pessoas diferentes. Neste caso o programa é desenhado para uma pessoa. Ainda não sei como é que se vai materializar, mas quando criei o conceito queria alguma coisa que servisse cada pessoa como lhe desse mais jeito. A mim serviu dois anos: um a viajar e outro a estabelecer-me.

Como vai funcionar na prática?

São detalhes que tenho de pensar quando levar o projecto avante. Juntei dinheiro e planeei para estar dois anos a fazer este MLA. Durante o ano em que viajei nunca trabalhei a troco de dinheiro, mas podia. Foi uma opção. Este segundo ano em que já estou em Portugal, voltei a dar aulas na Católica, e tenho feito outros trabalhos em que, sim, já começo a receber.

Trabalhos fruto desta viagem.

Sim, uma das decisões que tomei é só fazer coisas que verdadeiramente me apaixonam. E que têm a ver com aquilo que é o meu propósito. Acredito que todos nós temos uma capacidade de criar uma vida que nos preencha.

Disse que fazia ‘coaching’. Como funciona?

É muito virado para o propósito: a pessoa perceber quem é e, descobrindo, o que pode fazer. Que vida pode criar para se realizar? Muitas vezes envolve mudanças de carreira. E tenho trabalhado com pessoas na preparação de processos de recrutamento. O ‘coaching’ parte do princípio que a pessoa tem as respostas e o ‘coach’ ajuda o cliente a ganhar clareza e força e estrutura. Complemento com a meditação, respiração, através do yoga. Também uso taças tibetanas, uma das coisas que aprendi na viagem. Vim com sete taças tibetanas da Índia (risos).

Não praticava yoga antes desta viagem. Foi outra das descobertas.

Tinha uma ideia erradíssima do yoga. Achava que era um desporto lento e sempre fui fã de desportos radicais [Catarina chegou a participar em campeonatos de surf, desporto que ainda pratica]. Mas como comecei a viagem na Índia, queria ter um momento de reflexão, tirar o barulho todo à minha volta. Fazia yoga todos os dias. Foi uma revelação brutal que acabou por determinar o que iria acontecer no resto das minhas viagens.

Como?

Ia dar a volta ao mundo mas cheguei à Austrália e quis ir fazer o curso de professora de yoga e, por isso, voltei para trás para a Ásia É engraçado, o MLA é também dar tempo e espaço para explorarmos. É quase como se voltássemos a ser crianças e pudéssemos brincar às profissões. De repente eu podia fazer o que quisesse com o tempo. E acho que o MLA traz um selo de qualidade para combater o preconceito de alguém estar a viajar tanto tempo. Na verdade, mostra aos outros - família, amigos, empresas, instituições - o valor inacreditável de viajar. E o investimento que é no nosso desenvolvimento pessoal e profissional.

Entretanto voltou para Portugal, mas já não vivia cá antes de partir. Como foi a chegada?

Foi durante as minhas viagens que percebi que queria voltar. Questionei o que de facto era mais importante e é estar perto da minha família, amigos. Percebi que queria estar em Portugal. A chegada... é muito difícil as pessoas que estão cá perceberem... Vemos tantas coisas diferentes, temos tantas experiências, que muitas vezes nem toda a gente consegue... É difícil de explicar, as pessoas não vivenciaram.

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