Madeira deve adaptar-se para não perder dianteira

Ricardo Ferreira, Director do Lisbon Cruise Terminal

06 Out 2018 / 02:00 H.

O novo terminal de cruzeiros por Porto de Lisboa ficou operacional em Setembro de 2017. A obra incluiu a recuperação/construção de um cais de 1 490 metros, a cargo da administração portuária, e posteriormente a construção da nova gare de passageiros, que constituiu um investimento de 23 milhões de euros suportado pela concessionária LCT – Lisbon Cruise Terminals, que junta a Global Liman Isletmeleri A.S., o Grupo Sousa, Investimentos, SGPS, Ld.ª, a Royal Caribbean Cruises Ltd., e a Creuers del Port de Barcelona, SA.

O Lisbon Cruise Terminal (LCT) é dirigido por Ricardo Ferreira, um dos oradores da XII Conferência Anual do Turismo, evento marcada para 12 de Outubro. Integrando o segundo painel abordará o tema ‘Infraestruturas e Transportes’, espaço moderado por André Barreto, antigo presidente da Delegação Regional da Ordem dos Economista e contará ainda com a presença de Ruan Ramsden (Binter Canárias) e de Martinho Fortunato (Marina de Lagos).

O LCT dotou Lisboa da capacidade para acolher até cerca de 2 milhões de passageiros/ano. Nesta fase de 2018, os 617 mil passageiros inicialmente estimados para este ano serão alcançados? Para o ano de 2018 temos uma expectativa de crescimento substancial que rondará os 16% face a 2017, muito acima do crescimento médio para os portos europeus. No entanto, não vamos atingir a estimativa inicial dos 617 mil passageiros. O facto de os navios actuais terem elevadas capacidades de transporte de passageiros, alguns cancelamentos por questões incontroláveis, como o mau tempo, acabaram por afectar a previsão inicial.

O LCT representou um investimento de cerca de 24 milhões de euros, todo ele privado e com accionistas ligados ao sector. Acredita que o resultado final alcançado seria possível se fosse realizado e gerido pelo Estado? Não creio que possamos fazer essa comparação. Pela sua natureza o sector público tem bastantes limitações na sua forma de actuar, contratar e gerir projectos desta natureza, o que por sua vez limita o resultado. No sector privado existe uma exigência maior na estratégia a médio/longo prazo e uma maior flexibilidade na tomada de decisão, de forma a garantir a sustentabilidade e optimização da rentabilidade do investimento. Por sua vez, e em particular nesta concessão, conta com a experiência na actividade dos seus accionistas e onde a partilha de conhecimento se transforma numa ferramenta fundamental para o seu sucesso.

Sente a pressão dos seus accionistas na obtenção de resultados e cumprimento de objectivos? Todo o investimento tem obrigatoriamente de ser analisado no âmbito do risco e retorno, mesmo que em determinadas situações de serviço público não tenha um objectivo económico. No caso do LCT, e tratando-se de um investimento privado, as preocupações económicas são efectivas e a ‘pressão’ accionista irá sempre existir em prol de melhores resultados. Essa é a função da equipa de gestão, garantir a optimização dos recursos disponíveis e maximizar a venda dos seus produtos/serviços de forma sustentada e com perspectiva de curto, médio e longo prazo.

O mercado de cruzeiros está em expansão por todo o mundo. Acredita que o sucesso do destino Lisboa advém mais da qualidade e esforço por parte da oferta ou beneficia oportunisticamente do forte crescimento da procura? Lisboa beneficia e vai continuar a beneficiar dos dois factores. O crescimento orgânico da indústria de cruzeiros é inevitável, considerando o número de navios que entram e que vão continuar a entrar no mercado (até 2026, cerca de 100). No entanto, temos um claro objectivo de transformar o Porto de Cruzeiros de Lisboa num dos melhores do mundo no que respeita à qualidade do serviço prestado aos navios, aos passageiros e aos tripulantes. Em paralelo, temos um destino vibrante com elevada reputação no estrangeiro, que completa o círculo das necessidades de quem nos visita por mar e por terra.

Toda a economia de Lisboa beneficia do sucesso e crescimento do LCT. A cidade e restantes sectores têm noção dessa importância e impacto na economia? Creio que ainda não. Existe um preconceito de alguma dificuldade de interação com a comunidade de cruzeiros, desde o passageiro à própria companhia. É ainda necessário desmistificar esse princípio, de forma a podermos envolver mais serviços e empresas no sector. Actualmente, o contributo directo do sector em Portugal ronda os 260 milhões de euros, mas acredito que este valor possa crescer, não só proporcionalmente ao crescimento do número de passageiros, mas também na oferta de novos serviços.

O destino Madeira não tem conseguido acompanhar o crescimento mundial do mercado dos cruzeiros. Na sua opinião, é uma inevitabilidade face à crescente concorrência e aos desafios que o Atlântico apresenta no que à qualidade da viagem diz respeito? A indústria de cruzeiros está a impor novas dinâmicas na actividade. Nos últimos 5 anos as diferenças já são enormes comparadas com os últimos 15. As expectativas e exigências dos passageiros e das companhias serão cada vez maiores e é necessário promover a inovação e acompanhar as mudanças, seja no âmbito da segurança e protecção como no serviço ao cliente. Não podemos nunca esquecer que os portos de cruzeiros também fazem parte da experiência do passageiro durante as suas férias. No caso da Madeira, o princípio é o mesmo, adaptar-se às novas exigências de forma a não perder a dianteira.

Lisboa é uma capital europeia em crescimento. Acredita que o modelo de investimento e gestão adoptado para o LCT, obviamente adaptado à dimensão local, poderia ser uma boa solução para a Madeira? Cada porto é um porto, qualquer medida de gestão terá que ser adaptada à realidade local e às características que o definem. No caso da Madeira, o modelo adoptado em Lisboa traria significativas melhorias operacionais na prestação de serviços, bem como a flexibilidade comercial necessária para se manter na linha da frente dos portos do Atlântico. O mundo ficará cada vez mais competitivo e o futuro obriga a uma nova dinâmica de apresentação na indústria. O obrigatório é de pelo menos acompanhar a evolução tecnológica dos navios de nova geração e as exigências dos passageiros, o óptimo é reposicionar os portos numa versão 2.0.

Temos tido uma inversão do sentimento de optimismo generalizado e global. Acredita na resiliência da indústria de cruzeiros e do destino Lisboa/Portugal aquando da concretização de algumas das ameaças que pairam no ar? Esta é provavelmente a indústria mais resiliente que encontrei. Os desafios pela qual a indústria tem passado e vai continuar a passar são o motivo pela qual é tão resiliente. Na grande maioria dos casos a indústria sofre por excesso de zelo ou por um princípio de perceção que não se conseguiu explicar corretamente às populações e outros intervenientes. O desafio de procurar contrariar algum tipo de ameaças e perceções pessimistas da atividade é um autêntico catalisador de melhoria contínua. Num curto espaço de tempo poderemos ter transformações muito positivas no que respeita às actuais preocupações. A título de exemplo, a maioria dos navios de nova geração vão utilizar combustíveis mais limpos como o LNG. Mas a indústria não é estática e existem já protótipos de navios com meios alternativos de produção de energia por via de painéis solares e hidrogénio liquido.

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