‘Caça’ ao pombo

A CMF já gastou quase 19.000 euros com o plano de acção ‘O Funchal não é um Pombal’, desde 2017.
Ainda assim as queixas multiplicam-se na ‘Baixa’ da cidade, onde se reclamam soluções para o controle desta ‘praga urbana’

13 Jul 2019 / 18:52 H.

    - “São ratos voadores eu até gosto de pássaros mas isto é nojento!”

    - “O pior é que as entidades competentes não fazem nada”.

    Esta é a típica conversa de café que se escuta numa esplanada na Rua Dr. Fernão de Ornelas, à hora de almoço, enquanto os pombos (indiferentes às pessoas que tentam enxotá-los) fazem voos sobre as nossas cabeças. O cenário é semelhante em vários pontos da ‘Baixa’ da cidade.

    A zona junto ao Pestana CR7, a Praça do Povo, as imediações da Sé, o Mercado dos Lavradores e o Largo do Pelourinho são algumas das zonas identificadas como ‘problemáticas’.

    Se é certo que o pombo-comum ou pombo citadino é um elemento característico da paisagem urbana, a verdade é que a sua multiplicação descontrolada pode gerar problemas ao nível do bem-estar e saúde das populações e da conservação do património edificado, merecendo por isso a classificação de ‘praga’.

    A questão não é nova e a Câmara Municipal do Funchal (CMF), através da vereadora com o pelouro do Ambiente, Idalina Perestrelo, diz estar “atenta e sensível”.

    Com efeito, desde 2017, a CMF está a implementar o plano de acção ‘O Funchal não é um Pombal’. O objectivo é “uma redução do número de efectivos de algumas das colónias de pombos, através da alimentação das mesmas com grãos de milho impregnados com um contraceptivo oral do tipo avisteril”.

    Este plano desenrola-se em duas fases e combina a alimentação dos pombos com avisteril na via pública, nos locais do centro da cidade, com a disponibilização de dois pombais contraceptivos (medida também defendida pelo PAN), nas instalações das Hortas Urbanas S. João e nas instalações do Departamento de Ambiente municipal.

    Todavia, Idalina Perestrelo sublinha: “não é um trabalho que dê resultados imediatos”. Apesar das queixas, a autarca garante que “o número de pombos não está a aumentar”. “Terá até diminuído”, sustenta.

    “A redução efectiva dos pombos urbanos existentes só terá resultados a longo prazo, entre 7 a 10 anos”, precisa o plano da autarquia.

    Tiago Cardoso, da TFalcon Madeira (à qual iremos referir-nos mais adiante), avança com uma explicação para este fenómeno aparente da ‘multiplicação dos pombos’. “Não existem mais pombos do que existiam, mas a verdade é que antes do 20 de Fevereiro não se viam tantos pombos. Porquê? Quando as ribeiras foram intervencionadas destruiu-se os abrigos dos pombos [nas cavidades dos muros]. Por falta de habitat as aves foram forçadas a mudar-se para os beirais dos edifícios”, clarifica.

    A isto soma-se outro fenómeno comum nas cidades, onde muitas pessoas têm o hábito de alimentar os pombos com sacos de milho, pão ou até restos de refeições. Algo aparentemente inofensivo mas que contribui para um aumento desregulado desta e de outras populações (como é o caso dos ratos), além de sujar a cidade. Para esta mesma situação adverte Idalina Perestrelo, relembrando que alimentar pombos é proibido e sancionável com coima.

    É neste sentido que, paralelamente à distribuição de milho contraceptivo, a autarquia tem levado a efeito uma campanha de sensibilização à não alimentação dos pombos.

    Até à data já foram despendidos 18.571,86 euros no controlo desta praga urbana (em avesteril, placas e autocolantes de aviso).

    “É todo um plano de trabalhos, que compreende para já estas duas vertentes [a alimentação com milho contraceptivo e a colocação de placas de sensibilização] ”, estando também a ser equacionado o recurso à falcoaria como método de afugentar de pragas, confirma a vereadora do ambiente.

    Tfalcon apresenta solução “natural” de predador/presa

    Com a preocupação de adoptar práticas naturais para afugentar os pombos, a autarquia solicitou um esclarecimento à TFalcon Madeira.

    A empresa exerce a sua actividade de controlo de pragas com recurso a aves de rapina em 35 unidades hoteleiras da Região (Grupo Pestana, Grupo Cliff, Grupo Savoy, Meliã, Roca Mar, Enotel), bem como no Centro Comercial Fórum Madeira, nos Portos do Funchal e, desde há dois anos, no Aeroporto Internacional da Madeira. A falcoaria apresenta-se agora como uma possível solução complementar para resolver o problema do município.

    Tiago Cardoso explica que o método utilizado pela Tfalcon baseia-se numa “conduta de predador/presa”, que faz com que “as aves invasoras [pombos] comecem de forma natural a abandonar o local devido à presença de um predador [falcões/águias]”.

    “Prevenimos e não as exterminamos”, realça, referindo que o objectivo da proposta já apresentada à CMF seria intervencionar toda a área da ‘Baixa’ do Funchal – compreendida entre a zona do Cais Norte e o final da Zona Velha da cidade – com profundidade aproximada até à cota 40, local onde seriam implantados pontos de alimentação, com o intuito de ‘forçar’ o pombo-comum a ‘migrar’ do centro para zonas menos povoadas de cota superior.

    Numa primeira fase, esta intervenção seria concretizada com várias aves de presa (nomeadamente dois falcões e seis águias de Harris) de forma exaustiva, com sete falcoeiros, coadjuvados por duas viaturas de intervenção rápida. Numa segunda fase o número desceria para cinco águias com cinco falcoeiros, coadjuvados por duas viaturas. Todos os falcoeiros teriam forma de comunicar entre si, para melhor controlo e de forma a detectar possíveis pragas em zonas não sinalizadas.

    PAN defende pombais contraceptivos

    O PAN Madeira, partido associado às causas dos animais e da Natureza, é “frontalmente contra o abate dos pombo-citadino/ pombo-comum”, propondo uma alternativa para controlar a sua população através da “criação de uma rede de pombais contraceptivos”, na mesma linha do previsto no plano de acção da CMF.

    Conforme o disposto no dito plano, a medida “consiste em atrair os pombos em questão com a disponibilização de água, alimento e sombra em liberdade permitindo que seja possível a retirada dos ovos dos mesmos, dois dias após a postura, antes de haver formação do embrião com o objectivo de antecipar os nascimentos e evitando a propagação”.

    “O objectivo destes pombais é de controlar de forma ética, eficaz, sustentável, ecológica e económica, sem necessidade de recorrer a técnicas letais”, reitera João Freitas.

    Porém ressalva que é “imperativo manter-se pelo menos uma ninhada por ano, no pombal, com prejuízo dos progenitores abandonarem o local para nidificar noutros espaços”.

    “Com esta medida, para além do controlo populacional dos pombos em si mesmo considerado, circunscreve-se a sujidade associada aos dejectos num único lugar, reduzindo-os, desta forma, nos edifícios, carros, passeios e monumentos, e fideliza-se a nidificação destas aves aos pombais, que o deixam de o fazer em telhados, varandas ou outros locais indesejados”, acrescenta.

    Antes da implementação desta rede de pombais contraceptivos, João Freitas defende “como medida transitória”, a distribuição a estas aves de milho contraceptivo, tal como vem fazendo a autarquia.

    O representante do PAN sublinha que, ao contrário do que possam argumentar alguns críticos, a proposta está devidamente fundamentada e encontra-se já em prática em várias cidades europeias (em países como a Alemanha, França, Suíça e Holanda).

    Extermínio oferece ‘sistemas anti-pousio’

    Por seu turno, Manuel Pereira, director técnico da Extermínio, nota que “as empresas privadas actuam, essencialmente, através de sistemas de dissuasão ao pousio das aves”.

    “Avipoint (‘espigões’), sistemas de cabo, sistemas de escovas (anti-pouso e anti-intrusão), sistemas de rede, sistemas electrificados, sistemas de dissuasão visual, através do som ou reflexo”, são algumas das soluções para o controlo de aves oferecidas pela Extermínio.

    Na sua opinião, estes métodos têm vantagem sobre os métodos como a alimentação, já que os últimos “exigem um controlo mais rígido para que possam funcionar”.

    Ao mesmo tempo permitem “um controlo localizado da presença das aves num local específico e sem intervir no controlo de natalidade das mesmas”.

    Outra questão levantada por Manuel Pereira prende-se com a falta de legislação sobre esta matéria. “Tem de haver uma componente pública das entidades governamentais sobre esta questão. Embora o abate das aves (fora do âmbito dos aeroportos) seja proibido, “não existe uma clarificação por parte das entidades legais das medidas que devem ser praticadas”, conclui.

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