Armadilhas para pombos no Verão

Associações e empresa de falcoaria opõem-se a “método hitleriano”

04 Mar 2020 / 02:00 H.

É no Verão deste ano que a Câmara Municipal do Funchal (CMF) conta espalhar armadilhas com alimentos para onde quer atrair os pombos da cidade. Depois, uma equipa do Departamento Municipal de Ambiente recolherá os animais para os levar até “um equipamento próprio, tal como um contentor estanque, onde o método de occisão [morte provocada] será posto em prática”, explicou a autarquia que, como o DIÁRIO noticiou na edição de ontem, decidiu reduzir a população de pombos urbanos, por meio da inalação de dióxido de carbono - uma técnica que, sublinha a CMF, é autorizada em Portugal.

Mas nem por isso a medida está a ser bem acolhida por todos. Tanto o partido Pessoas Animais Natureza (PAN), como as associações Direct Action Madeira e Animad, ou o proprietário da T-Falcon, empresa que utiliza aves de rapina para afastar, “de forma natural e ecológica” os pombos ou gaivotas de zonas urbanas, já se insurgiram contra o método agora escolhido pela Câmara de Funchal, comparando a técnica escolhida à utilizada por Adolf Hitler contra os Judeus.

Por outro lado, a CMF admite que a medida é “excepcional” e que surge depois das várias reclamações da população sobre o elevado número de pombos na cidade, associadas à notícia de que o milho contraceptivo com que a CMF alimentava os pombos vai ser descontinuado.

As armadilhas para os pombos, explica a CMF, serão “estrategicamente colocadas” em vários pontos da cidade. Numa primeira fase, os dispositivos serão distribuídos nas zonas em que há mais queixas “de acordo com o levantamento já efectuado pelos serviços” camarários. O município sublinha que seguirá “escrupulosamente” as recomendações da Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária, depois da respectiva delibração em reunião camarária, já esta semana.

Defensores dos animais contra

O método escolhido pela CMF para reduzir a população de pombos na cidade não agrada a todos. Ao DIÁRIO, a Direct Action Madeira (DxE-M) lamenta que a solução encontrada pela CMF “passe por uma medida tão cruel e até mesmo medieval, que ignora por completo o sofrimento animal”. Esta associação afirma que a técnica é “absolutamente inaceitável” e não entende que a autarquia recorra a “agressivas e repudiáveis técnicas de extermínio”.

Foi também “com estupefacção e revolta” que o PAN Madeira recebeu a notícia de que a CMF “quer proceder ao controlo populacional dos pombos urbanos com o fundamento de que constituem uma praga transmissora de variadíssimas doenças, matando-os através de gaseamento por dióxido de carbono”. Classificando a decisão da autarquia como “bárbara” e “insensível”, o PAN Madeira diz mesmo que, “com o devido respeito e diferença”, a medida lembra acontecimentos horríveis praticados por humanos contra humanos na Segunda Guerra Mundial”. E é, de resto, o que aponta também a DxE-M: “É semelhante à utilizada por Hitler para exterminar os Judeus com recurso a gases letais”. Mais: “Na mesma Alemanha, felizmente já não nazi e muito distante dos horrendos campos de concentração, somos hoje capazes de verificar que as autoridades locais estão a utilizar ‘pombais contraceptivos’ - estruturas em que colocam água e alimento para os pombos se sentirem seguros e fazerem os seus ninhos”, explicam. Depois, os ovos são retirados dos ninhos e substituídos por idênticos, mas em plástico ou outro material, para evitar mais nascimentos.

“Este é um dos vários exemplos de como resolver o problema”, defende a DxE-M, uma alternativa também defendida pelo PAN Madeira já que, sublinha o partido, é a escolhida “em países e/ou Câmara Municipais civilizacionalmente avançadas”. Daí que questione: “O objectivo destes pombais é controlar de forma ética, eficaz, sustentável, ecológica e económica, sem necessidade de recorrer a técnicas letais. Se existe esta via para resolver a situação, porque razão há-de a Câmara preferir gasear estas aves com todo o sofrimento que implica?”~ Isto porque, acrescenta João Freitas do PAN, “os pombos urbanos não são pragas, tal como os gatos e os cães errantes também não são”. Por isso o partido dos Animais não entende “por que razão estas aves têm que ser abatidas em vez de se optar por uma solução ética e moral”. João Freitas considera mesmo que a posição da CMF em relação aos pombos da cidade, “não é menos repugnante e censurável do que o abate das cabras nas desertas”. Para o PAN, “é falacioso dizer, per si, que os pombos transmitem doenças, por sinal quase apelidadas de ‘horrorosas’, de modo a criar medo à população, justificando desde modo o seu abate. Não existe a ‘doença do pombo’. O pombo é um transmissor de doenças como qualquer outro animal”.

Opinião também partilhada por Orlando Vieira da Animad, quer no que respeita “às semelhanças do método com a II Guerra Mundial”, quer “nas alternativas utilizadas pelas grandes capitais que também têm este problema” e até sobre a fraca propagação de doenças: “Já ouviu falar em alguém atacado por um piolho do pombo? Eu não”. É por isso que a Animad afirma que a “medida é obscena”, acusando mesmo que “é tomada por alguém analfabeto”. Orlando Vieira lembra as ferramentas utilizadas pela hotelaria para afastar os pombos, entre as quais “a falcoaria”.

Utilizar aves de rapina para afastar os pombos do centro da cidade foi, aliás, uma das opções estudadas pela CMF, que acabou por não adjudicar o trabalho por considerar dispendioso, além de poder contribuir para que os pombos se mudassem da Baixa do Funchal para zonas residenciais. Mas Tiago Cardoso, da T-Falcon - empresa que elaborou o orçamento e que trabalha, entre outros, com as Câmaras Municipais de Coimbra e de Santarém, refuta: “Tenho de pagar funcionários e a empresa não é sem fins lucrativos. Mas se a Câmara assumir o pagamento de cada funcionário (que afastará com os pombos da cidade), a T Falcon faz o serviço sem cobrar mais que isso. Cada funcionário com a águia custa 800 euros por mês”. A ideia de Tiago Cardoso, explica o proprietário, é utilizar as aves de rapina para “espantar” os pombos até uma zona superior à cota 500, onde seria colocada alimentação para que os animais nidificassem, gradualmente, nessas zona.

O certo é que tanto a T-Falcon, como a DeX como o PAN Madeira se predispõem a ajudar a encontrar outras soluções. Resume João Freitas: “O PAN Madeira está pronto para dialogar com o município no sentido de ajudar a resolver este assunto de forma tão célere e moral quanto possível, mas insurge-se e condena de forma firme e veemente a aplicação deste método a todos os títulos condenável (...) A CMF, que tem sido até agora em relação aos animais de companhia errantes, um exemplo a seguir, não deve vir agora manchar esse trabalho com a matança de milhares de outros animais, de forma desnecessária, uma vez que, como se disse, existe um outro método não letal eficaz utilizado com sucesso em muitos outros países europeus de primeiro mundo”.