Ansiedade, a doença “subvalorizada” do séc. XXI

De acordo com a OMS, entre 10 a 15% da população sofre de ansiedade. O DIÁRIO foi falar com especialistas para perceber: O que é? Quais as suas causas? E como se trata a ansiedade, na era da competitividade e das redes sociais?

17 Mar 2019 / 02:00 H.

    “Eu estava bem e, de repente, ‘aquilo’ começava. Era aquela sensação de estar a meio das pessoas e parecer que ia-me dar uma coisa. Sentia falta de ar e palpitações, parecia que era um ataque cardíaco. A seguir sentia tonturas, calor nas pernas e os braços ficavam bloqueados... Tinha de sair dali para me sentir bem e onde me sentia bem era em casa”.

    O testemunho é de Luís Lemos, tem 42 anos e sofre de ataques de pânico. Até acontecer consigo não acreditava.

    “Tinha um colega de trabalho que tomava seis pastilhas por dia para ansiedade e eu dizia-lhe ‘rapaz isso é tudo da tua cabeça’”. Com algum embaraço, acrescenta: “Isto só acredita quem passa... acabei por ter a mesma coisa”.

    O stress acumulado levou-o a um ponto de ruptura, que lhe gerava sofrimento e prejudicava o normal decorrer da sua vida pessoal e profissional. “Às vezes tinha de sair do trabalho. Uma vez, ia com o meu pai a uma consulta no Hospital e tive de parar pelo caminho porque estava-me a sentir mal”, recorda.

    Antes de se aperceber o que se passava consigo, Luís procurou um clínico geral e realizou diversos exames, tendo sido entretanto reencaminhado para um neurologista que lhe prescreveu medicação para a ansiedade, uma doença com a qual tem aprendido a conviver.

    O caso de Luís está longe de ser o único.

    Mulheres são as mais afectadas

    De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), entre 10 a 15% da população sofre de ansiedade.

    Em Portugal, segundo um estudo epidemiológico nacional, coordenado pelo Professor Doutor Caldas de Almeida, os dados sobre a prevalência de perturbações psiquiátricas mostram que o nosso país tem, em conjunto com a Irlanda do Norte, a mais elevada prevalência de doenças psiquiátricas na Europa. Destas, o grupo das perturbações de ansiedade é o que apresenta uma prevalência mais elevada (16.5%), seguido do grupo das perturbações do humor, com uma prevalência de 7.9%. Com valores muito inferiores encontram-se as perturbações de controlo de impulsos e de perturbações pelo abuso de substâncias, respectivamente com 3.5% e 1.6% de prevalência.

    Embora não existam actualmente estudos sobre perturbações mentais na Região, com base na sua prática clínica, os especialistas entrevistados pelo DIÁRIO concordam que a Madeira acompanha a tendência nacional e mundial crescente em termos de prevalência e incidência.

    De realçar que, segundo o mesmo estudo, são as mulheres, na faixa etária dos 18-34 anos e com educação entre a básica e a secundária, quem sofre mais de ansiedade.

    Fobias, obsessões, traumas, ‘pica’... Tudo isto é ansiedade

    A ansiedade define-se informalmente como um estado de medo relacionado com a antecipação de um evento. Tem duas partes principais, a ansiedade psicológica e a orgânica (somática).

    A somática manifesta-se pelo aumento da frequência cardíaca, transpirar das mãos e de outras partes do corpo, aperto na garganta, diarreia, entre outros.

    A psicológica manifesta-se sobretudo pelos pensamentos circulares e repetidos, a angústia antecipatória, imaginar que se vai morrer, que não se vai conseguir ficar bem, entre outras situações. Envolve crenças e pensamentos automáticos negativos que impedem a pessoa de conseguir controlar-se.

    Dentro das perturbações de ansiedade, existem várias categorias: perturbação de ansiedade generalizada (PAG), perturbação de pânico, perturbações fóbicas (por exemplo, a fobia social), perturbação obsessiva-compulsiva (POC) e perturbação de stresse pós-traumático (PSPT).

    Entre estas as mais frequentes são a perturbação de ansiedade com ataques de pânico, ansiedade generalizada e as fobias.

    Importa não esquecer que, frequentemente estes tipos de ansiedade sobrepõem-se. Por exemplo, um doente com uma ansiedade social pode apresentar também uma perturbação de pânico, ou um doente com uma perturbação de ansiedade generalizada pode ter também crises de pânico, etc.

    Por outro lado, como nos chama a atenção o psiquiatra Daniel Neto, “temos ainda de nos lembrar que a ansiedade faz parte da vida saudável e existe na humanidade para nos proteger de situações de perigo e não é suposto termos uma vida sem ansiedade. Existe uma intensidade saudável da ansiedade que nos permite sermos melhores”.

    É só quando esta começa a ser sentida “sem uma razão aparente, ou de uma forma excessiva e continuada”, que “pode tornar-se num problema de saúde grave e incapacitante”, alerta pela sua vez, o psicólogo Júlio Pereira.

    Já o psiquiatra Luís Filipe Fernandes expõe-no da seguinte forma: “A ansiedade é porreira. A dita ‘pica’ não é mais do que a ansiedade, agora esta tem de ser razoável, compreensível, apropriada e proporcional. Desde que gere sofrimento e prejudique o funcionamento é preciso ter atenção”.

    Ansiedade social é “preço a pagar” por estar sempre “on”

    As causas da ansiedade são diversas e podem ser de origem orgânica (associadas a doenças cardíacas ou alterações endocrinológicas) ou psicológica (enquanto manifestação do sofrimento humano e comum a doenças como esquizofrenia, perturbação bipolar, depressão, perturbações do comportamento alimentar, entre outras).

    Pode dar-se que em alguns casos a ansiedade tenha uma causa evidente, como por exemplo experienciar um evento traumático. No entanto, existem outros em que a ansiedade parece não ter causa aparente. É o caso dos problemas da vida diária que não têm diagnóstico, como conflitos familiares que causam transitoriamente ansiedade. Os factores genéticos, ambientes de muita pressão/ stress, também podem provocar ansiedade. Sem esquecer que o abuso de álcool, drogas e medicação também podem estar na sua origem.

    O século XXI, com o seu ritmo frenético e acrescente dependência das novas tecnologias, vem exponenciar em estas causas.

    “Na realidade actual somos forçados a absorver um excesso de informação e a interagir com ela. E talvez a ansiedade seja o preço a pagar por um mundo cheio de estímulos que nos leva a estar permanentemente activos, ‘on’. Muitas vezes a operar sem pensar, sem reflectir. Esse tempo, de reflexão, já não existe e leva o Homem a viver como um autómato. A ansiedade alimenta-se disso e alastra-se em proporções incríveis”, evidencia Júlio Pereira. “Não surpreende nada que a ansiedade seja a doença do século”, acrescenta.

    “Outra das fontes da ansiedade advém também da quantidade de informação emocional das redes sociais. Não só das actividades das outras pessoas, mas sobretudo dos conflitos interiores e exteriores que resultam”, aponta Daniel Neto.

    O psiquiatra refere que, “devido à ausência de estratégias de gestão de ansiedade e das emoções no geral”, prevê-se que as perturbações psiquiátricas em geral continuem a aumentar. Neste âmbito, directamente associada à tecnologia, está a ansiedade social. “Um tipo de perturbação de ansiedade associada às dificuldades de relacionamento com os outros”. “Na verdade a culpa não está na tecnologia, mas na forma como é utilizada”, ressalva.

    Na mesma linha, Luís Filipe Fernandes acha que “gerimos mal as redes sociais”, sobretudo os mais novos. “Começam por ter aquilo que eu chamo de três pilares na sua casa: a escola, o(a) namorado(a) e as redes sociais. Se algum destes falha eles sentem-se as pessoas mais infelizes do mundo. Falta-lhe o saldo ou a bateria do telemóvel e têm crises de pânico e crises de ansiedade”, frisa.

    As “irmãs” ansiedade e depressão

    Estreitamente ligada à ansiedade está a depressão. “A depressão pode apresentar-se com sintomas ansiosos e a ansiedade agravar-se a apresentar sintomas depressivos. Aquilo que poderíamos chamar de patologias mistas. É também evidenciado pela forma como o tratamento farmacológico é realizado - com antidepressivos”, explica Daniel Neto.

    Entre estas duas “irmãs”, como lhes chama o psicólogo Júlio Pereira, a sociedade cada vez mais ansiosa em que vivemos parece distribuir atenções de forma desigual e, potencialmente, errónea.

    “A ansiedade ainda está um bocado desvalorizada. Valoriza-se mais a tristeza e menos a ansiedade. Diz-se: ‘Estou triste tenho de ver o que é que se passa comigo. Estou ansioso, é normal”, ilustra Luís Filipe Fernandes, vincando que “às tantas, o que eu devia tratar era esta ansiedade que é ‘normal’.

    A conclusão é preocupante: “em cada cinco pessoas com ansiedade só duas é que se tratam”.

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