“Como há a doutorite aguda, há o gestor agudo”

10 Nov 2018 / 02:00 H.

Na abordagem ao sector da saúde, que temos vindo a revelar, feita pelo antigo presidente e director clínico do SESARAM, avançamos, hoje com outras questões ligadas à gestão hospitalar e aos cuidados primários, em que defende o encerramento de alguns centros de saúde, a existência de urgência de MGF no hospital, critica fortemente a “política do faz-de-conta” e denuncia perseguições.

Como avalia a qualidade geral do serviço prestado pelo SESARAM? A obra do Bloco e da Urgência, que vai sendo adiada de mês a mês era mais comedida...
É o faz-de-conta. Neste momento, a política é o adiar permanente das situações, sem solução. É o Bloco, é o Centro de Saúde do Bom Jesus, que está necessitadíssimo de ser remodelado. É ver aquela parte de baixo, que eu consegui terminar e a do último piso, que já estava feita. Se reparar, aquilo não tem nada a ver com os outros pisos, é completamente diferente. Era uma obra essencial, para benefício das populações. Criava muito mais instalações para ter mais médicos e mais pessoas a serem atendidas na Medicina Geral e Familiar (MGF), com médico de família. Era uma questão de protecção das pessoas no básico. Para mim, não há explicação por que pararam. Estava tudo devidamente adjudicado, até porque, segundo me disseram, pelo facto de estar completamente parado, a empresa vai ter penalizações, pois os contratos estavam assinados.

Indemnizações à empresa que estava a fazer os trabalhos.
À empresa a quem estava adjudicado. O que me dizem é que parece que devido às indemnizações das obras todas paradas e que estavam adjudicadas, tinha sido mais barato acabar a obra do que a parar e continuar por fazer. As indemnizações acho que vão ser superiores ao custo da obra toda. Foi o que me disseram, vale o que vale. Mas acho ridículo e uma irresponsabilidade de quem faz gestão. É má gestão, de caras.

Uma das coisas que já foi noticiada foi o aumento do envio de doentes para o exterior.
É a mesma situação. Quanto mais formação, quanto mais equipamentos e capacidade instalada, menos é preciso mandá-los para outros hospitais, fazer a mesma coisa que teríamos cá. Isso implica com o mesmo, continuamos na mesma situação: não é um prédio novo que resolve isso, antes pelo contrário, vai aumentar os custos e vai diminuir capacidade de investimento em equipamentos e formação. Era a instalação e a manutenção, com formações diferenciadas, que não estas formações aqui. Eu tinha dado autorizações a uma série de colegas, que tinham ido para fora fazer formações noutros países até.

Alguns regressaram e optaram por sair do SESARAM.
Porque criaram-lhes as perspectivas. Cortaram-lhes as pernas. Eu tive colegas que disseram. ‘Não. Uma coisa é quando tu estavas aqui, que a gente pensava que isto evoluir. Neste momento, que nos cortam as perspectivas, agente vai fazer o quê? Vai para a privada’. Foi o que o aconteceu. Nós já temos, acho que oito colegas que terminaram o doutoramento. Há dias vinha no DIÁRIO que iam abrir, na Universidade, duas vagas. Como é que se continua a tentar dar um curso superior, quando tem oito doutorados e temos colegas que não têm formação nenhuma académica, em vez de os absorver de imediato? Tanto que já andam algumas universidade de Lisboa atrás de alguns para irem para lá. Logicamente, se têm pessoas doutoradas que entram lá sem esforço nenhum, por que é que não vão aproveitar? Só aqui é que não se aproveita. Isto não tem lógica absolutamente nenhuma, na minha cabeça. Sinceramente.

E a velha questão dos anestesistas? Argumenta-se, por exemplo, que o bloco de Ambulatório não funciona devido à falta de anestesistas.
Aquela parte do Bolo de Ambulatório só tem uma sala a funcionar, tanto quanto sei. O resto está tudo parado, não tem explicação.

Dizem que não têm anestesistas.
Na realidade, tendo a falta que existe, real na especialidade de anestesia, é pouco compreensível que se tenha tomado a opção de dispensar um anestesista para a Direcção Clínica, que representa cinco salas por semana, no mínimo, e que o director de anestesia não faça também o programa, porque não consta nos programas de base, que eram mais cinco salas por semana. Custa a explicar isso. Cada vez mais está-se a criar condições para que as pessoas comecem a sair para aqui e para acolá, nomeadamente para o hospital privado. Daqui a dias são mais não sei quantos que vão. Depois, há aquela situação da anestesista, que perderam. Não fizeram o contrato e ela foi-se embora.

Parece que tentaram corrigir essas situações.
Está bem, mas perderam uma anestesista. Competia ao secretário. Quando eu tinha responsabilidades andava com o processo até assinarem. Por vezes, nas reuniões com o secretário Garcês eu até era mais duro do que o próprio secretário da Saúde. Eu dizia: isto tem custos de morbilidade e mortalidade. Às vezes há investimentos que parecem que não se justificam, mas depois têm custos brutais. Ou fazemos ou vamos ter custos brutais. Eles percebiam isso. Há que não ter medo de apresentar as situações.

Esses custos continuam a existir. Há gente a gente a morrer e a ficar incapacitada e que se podia evitar?
Não posso responder a isso. Aí, não posso responder.

Neste momento, como é possível atrair médicos para a Madeira, a se fixarem cá? Tem este programa que é para pagar mais.
Não funciona, não funciona. Falo com colegas cada vez mais desmotivados e com colegas que estão a preparar a saída da Região. Porque não há perspectiva. Não é pagando mais, o dinheiro entra e sai. Não é por aí. As pessoas ficam se tiverem um projecto que as faça ser reconhecidas no seu nível, no seu grupo profissional específico, e serem pessoas credíveis, que estão a fazer um trabalho diferenciado, que quando vai a algum congresso nacional ou internacional, pode dizer eu estou a fazer isto no meu serviço, esta é a minha prática no dia-a-dia. Aí é que nos sentimos bem onde estamos. Neste momento é só propaganda, o que está a ser feito é só o faz-de-conta. Não há, na realidade, incentivos para as pessoas quererem ficar. E anda uma desmotivação cada vez maior. Claro que é tudo à boca pequena, claro que ninguém vai dizer isto, as pessoas têm medo de dizer esta história, porque têm medo das retaliações.

Afinal, ainda existem retaliações?
É evidente, é vidente que a gente sabe que isto é tudo muito lindo, mas quando são conversas que não agradam, é evidente que as pessoas sentem na pele, é evidente.

Estamos a falar de quê, de horários, de não integrar a lista do Programa de Recuperação de Cirurgias?
Olhe, por exemplo, por exemplo, por exemplo! Preterir uns em favor de outros. Há sempre muita coisa que se pode fazer. Há sempre muita maneira de pressionar e quem anda a fazer gestão sabe exactamente que pode pressionar aqui ou acolá. Umas doem mais, outras doem menos, mas sabe que há sempre maneira de usar alguma coisa e há sempre alturas de alguma retaliação. É evidente. As pessoas dizem-me, como têm dito, mas estás preocupado? Estamos aqui, o tempo está bom, areja, não te preocupes, deixa correr. Isto dizem-me colegas de respeito dentro daquela casa.

É cansaço, é baixar os braços?
É baixar os braços, porque não se vê nada. É só show, é só faz-de-conta. Neste momento estamos numa situação de faz-de-conta, que parece que está tudo muito bem. Faz-de-conta, de ficção. Na realidade, a prática daquele hospital teria de ser revolucionada, claramente, a cabeça destas pessoas, que estão a tomar decisões, teria de ser completamente remodelada. Isto teria de ser um brainstorming, que tinha de ser feito. Tinha de se dar uma volta completa nestas cabeças, ou então meter outras cabeças a pensar e a fazer coisas. Só que não há uma visão ou a que pode haver é completamente limitada, das pessoas que lá estão a decidir neste momento. Era uma revolução que tem de ser feita.

Aí reconheço e continuo a dizer, eu tenho o meu respeito pelo Dr. Alberto João, que era uma pessoa que sabia ouvir e tinha o bom senso de saber decidir, independentemente de outras coisas. Cada um tem os seus defeitos e os seus feitios. Agora, nestas matérias, ele sabia ouvir e sabia, com bom senso, decidir. Isto do hospital novo, ele disse, homem, eu não tenho capacidade, sem entalar o erário, de avançar para uma coisa dessas. Então recuperamos. Quando estivemos a falar dos programas de recuperação e de ir buscar dinheiro à comunidade, ele disse, avança por aí. E deu luz verde, porque viu que era uma fonte e uma possibilidade. Tenho de reconhecer a visão que aquele homem tinha, independentemente de outras coisas que se possa apontar. Nesta matéria, não tenho dúvidas nenhumas. Era uma pessoa que se ouvia.

Nestes assuntos, uma das coisas que se ouvem muito é: não temos dinheiro.
Não é um problema de dinheiro que existe neste momento, a disponibilidade do orçamento. Neste momento, é um problema de decisão, de gestão. Além disso, como afirmava Jardim, a boa gestão dá-se com escassez de recursos, pois gerir bem com muito dinheiro é fácil. Gerir com pouco é que demonstra as capacidades de gestão.

Quando fala em gestão, refere-se a quê? Por exemplo, a análises que se podia fazer internamente?
Montes de coisas, em que são feitos investimentos e que íamos ter uma diminuição de custos enorme e isso ia libertar dinheiro que dava para fazer isto e aquilo.

Quando esteve na Administração do SESARAM foi acusado de ter uma visão sobre o sistema de saúde muito concentrada no hospital, esquecendo um pouco os cuidados primários.
Olhe, passei das cinco vagas, que se abria para MGF para dez, todos os anos. Remodelámos completamente o Centro de Saúde de Gaula. Avancei, o que deu o trabalhão, com todo o projecto do centro de Saúde do Bom Jesus. Quanto a localizações, já com conjugação entre centro de saúde e cuidados continuados, criámos aqueles 20 e tal lugares, em São Vicente, para as pessoas daquela área poderem ficar nas proximidades das famílias. Preparámos todo o processo para fazer um centro de saúde na Calheta. Estava tudo pronto para arrancar e avançar a obra.

Avançamos com imensas recuperações, aqui e acolá. Estava a avançar outro processo de recuperação, mas implicava com o Equipamento Social, de Santana... Montes de processos foram feitos. Criámos... fui eu que criei, esta coisa dos dentistas nos centros de saúde. Primeira zona do País que tinha dentistas na área pública nos centros de saúde e no hospital. Tudo isto era uma situação que estava a ser preparada. Não pode é ser de um momento para outro.

Há, ainda outra situação. Tínhamos 50 e tal centros de saúde, já não me recordo ao certo ao certo, e eu preparei um estudo, que ficou na gaveta, que reduzia aquilo. Fechavam uns e melhorava a capacidade de uma série deles, com outra resposta. Aí não me deixaram, porque, politicamente, a pessoa quando escova os dentes, olha pela janela e ter um centro de saúde do outro lado da rua. As pessoas têm de perceber que, muitas vezes, não é atravessar a rua que lhes vai dar a resposta. Porque aí, muitas vezes, não tinham resposta nenhuma, se não uma vez por semana ou duas vezes.

Uma falsa sensação de segurança?
Uma falsa de segurança. É melhor avançar cinco ou dez minutos de carro, porque isto é tudo muito perto, e ter um centro de saúde com outras valências, outras capacidades.

Tendo a noção de que é obrigatório fazer formação, começámos a fazer o dobro da formação que, mesmo assim, leva anos, porque estávamos muito deficitários na MGF. Mas estava a preparar estruturas, nomeadamente no Bom Jesus, que ia ficar com mais do dobro de gabinetes para médicos e estava a preparar para introduzir ali mais um 20 a 30 médicos e ia dar um grande volume de médicos às pessoas no Funchal e ia criar condições de topo neste centro, um sítio moderno.

A nível de Urgências, o Funchal não precisava de umas?
Precisa de urgências. Eu tinha feito umas estruturas lá em cima. O problema é assim. Os colegas de MGF não querem ir para aquela zona do hospital porque são MGF. Mas dentro do hospital, até que era na ponta de cá, pode estaria a funcionar um serviço de urgência da MGF e que pertencesse exclusivamente a esta. Os colegas do hospital não iam lá meter o bedelho. Fisicamente é que era ali. Qual seria a vantagem? É porque eles estariam por baixo da Farmácia, há ali um espaço que tinha dois gabinetes, uma zona de enfermagem. Tínhamos um único serviço administrativo a funcionar; à triagem de Manchester, que estava a ser feita, se fosse azul ou verde, que não era urgente, era atendido ali; e se precisasse de Raio X ou outro, estava no sítio certo; se se chegasse à conclusão de que não, que era necessário outro tipo de cuidados, era só atravessar a rua da urgência. Era uma vantagem dupla. Claro que eles (MGF) não querem fazer, porque não querem fazer.

Não querem esse trabalho.
Como é evidente, mas acho que era obrigatório ter.

Mas alguns fazem nos centros de saúde.
Porque é que se fechou a noite em Porto Moniz? Porque a média daquilo era um ou dois por noite. Eram noite inteiras em que não havia nada, absolutamente nada. Os colegas recebiam para ir dormir ao Porto Moniz. Era o que se passava. Não tem lógica absolutamente nenhuma e quando fechámos aquilo não aconteceu absolutamente nada. Se estiver lá desloca-se e, dez minutos depois, está em São Vicente, hoje com os túneis. É a mesma coisa que Santana, não tem lógica nenhuma. O movimento do que foi avaliado é mínimo. A Ribeira Brava é a mesma coisa. Há coisas que devem estar abertas e outras não. Isso foi feito. Claro que isto tem custos políticos. As pessoas ficam, no início, todas agastadas porque querem ter aquilo aberto, mas esquecem-se de que tem um custo brutal.

Custo brutal além do político, recursos?

Além do político. Aquilo tem de ter obrigatoriamente, não só o médico. Tem de ter enfermagem, auxiliares, o porteiro...

Do ponto de vista da organização, criaram-se estas três zonas de centros de saúde. Como vê essa opção?
A discussão das zonas vem de longa data. Porque é que as zonas ficam...? Porque vão melhorar o ego de três ou quatro colegas. Em vez de ser um director, tem três ou quatro colegas que são directores, já ficam o ego melhor porque são os directores e as pessoas gostam de ter um título e acham que são mais produtivas tendo um título que é o senhor director lá do centro. É a tal história: como há a doutorite aguda, há o gestor agudo. Não vejo vantagem nisso, há uma menor capacidade de coordenação, porque, quando havia uma gestão única, se houvesse necessidades de um lado para outro, mais facilmente havia algum entendimento, porque era o mesmo director. Havia uma coordenação mais fácil. Não me choca ter isso assim, desde que a gente tenha um grupo suficiente de pessoas que não seja preciso haver compensações, nomeadamente, na altura das férias. Cada ano que vai passando, há sempre mais sete, oito MGF que estão a entrar, à medida que isso vai acontecendo e com a redução das saídas, pelo fim das reformas antecipadas, começa a ser uma zona em que entram mais médicos do que aqueles que saem, começa a ser mais fácil gerir. Apesar de ainda não termos médico de família para toda a gente, estamos ainda distantes disso. Se todos os anos entrarem dez, vai acabar por haver médicos de família. É um trabalho que leva anos. Esse plano fui eu que iniciei. Portanto, quando dizem que eu não estava a ligar, não, não, desculpem. Logicamente que, se eu estou a fazer a minha base de gestão dentro do hospital viam-me mais dentro do hospital do que fora. Mas tive sempre o cuidado de ter pessoas muito bem preparadas na área e com conhecimento na área de MGF e, na primeira fase, tive a Ana Nunes, e, na segunda, o João Araújo. Pessoas que tinham bom senso, calmas que tinham boa capacidade de diálogo com os colegas e que conseguiam gerir isto calma e serenamente. A gente reunia, discutia e debatia o que se estava a passar. Logicamente, eu deixava-os, por eles estavam com uma proximidade muito maior... Íamos criando soluções de médio e longo prazo, como as referidas vagas para MGF.

Esse foi um trabalho que eu fiz, mas o efeito só vem mais tarde. Os outros é que vão colher os frutos, mas isso não interessa. O que interessa é que quem a desencadeou e teve a abertura foi na minha gestão, o resto é conversa.

Outras Notícias