Filósofo espanhol Gustavo Bueno morre aos 91 anos

07 Ago 2016 / 21:57 H.

    O filósofo espanhol Gustavo Bueno, cuja figura e opiniões contundentes e polémicas se propagaram através da sua presença na comunicação social e em tertúlias televisivas, morreu hoje aos 91 anos, após uma vida dedicada ao ensino universitário.

    Considerado o mais importante filósofo espanhol das últimas décadas, Bueno (Santo Domingo de la Calzada, 1925) desenvolveu teorias como o fechamento categorial ou o materialismo filosófico, mas a sua vocação de não se encerrar na "torre de marfim" académica da sua área de conhecimento levou-o a intervir em debates públicos de todo o tipo, ao longo de dezenas de anos.

    Autodefinindo-se como ateu -- "Não é que Deus não exista, é que não pode existir", proclamava -, Bueno nasceu numa família de médicos, estudou Filosofia e Letras nas universidades de Saragoça e Madrid e obteve aos 24 anos a cátedra de Filosofia no Instituto Lucía Medrano, em Salamanca, onde permaneceu até que, em 1960, passou a ocupar a cátedra de Filosofia e História dos Sistemas Filosóficos na Universidade de Oviedo.

    Na universidade da capital asturiana, onde acabou por se tornar uma instituição, desenvolveu todo o seu percurso acompanhado de amigos ilustres e, além da sua obra filosófica, começou a ser conhecido a partir da década de 1960 pela sua oposição ao regime franquista.

    Esta tomada de posição levou-o a proferir conferências sobre Marx ou Engels em clubes culturais das bacias mineiras, usados como fachada do clandestino PCE (Partido Comunista Espanhol), que chegou a oferecer-lhe um cartão honorário, e a descer a uma mina de carvão para dar uma aula aos trabalhadores sem renunciar à sua indumentária de professor.

    Não menos crítico se mostrou depois, com a chegada da democracia, com afirmações como a que a Constituição de 1978 "foi uma coisa para desenrascar, feita por gente que não sabia", ou a de que a transição mais não foi que uma continuação do Plano Marshall, ou a sua posição a favor da saída de Espanha da NATO, em 1984.

    Bueno, que escreveu até aos seus últimos dias, sempre a esferográfica e sempre em folhas recicladas, protagonizou nesses anos notáveis confrontos com grupos como aqueles que defendiam a oficialização do 'bable' (língua asturiana) nas Astúrias, aos quais chegou a chamar "fanfarrões".

    O pensador, que lamentava que nenhuma doutrina filosófica tivesse dado uma resposta adequada à pergunta "O que é a religião?" e considerava Espanha "o país mais ímpio do mundo -- um país de ímpios e de hereges céticos", manteve-se até 1998 na sua cátedra universitária, que também abandonou com polémica.

    O professor de discurso rápido, casaco, polo e cigarro na boca, que nunca tinha pressa para acabar as aulas e tinha chegado a Oviedo com fama de "vermelho, ateu e radical", foi destituído do cargo pela aplicação de um regulamento universitário que impedia um professor jubilado de dar aulas oficialmente.

    Bueno, que atribuiu esta medida a razões ideológicas, concluiu a sua presença na universidade com uma aula dada na escadaria da faculdade de Filosofia, na qual apelou, perante centenas de estudantes que se tinham declarado em greve, para o espírito do Maio de 1968, evocando também as greves mineiras de 1962.

    Nos anos seguintes, ele, que considerava a redefinição do marxismo uma das missões da filosofia atual, manteve-se, a partir da fundação que dirigia, no debate público de um país onde via "mais que inveja, imbecilidade", com opiniões contundentes sobre aspetos da atualidade ou manifestando o seu apoio às mobilizações para a reconversão mineira.

    Assim, defendeu a consagração da pena de morte na Constituição após o assassínio do vereador do PP Miguel Ángel Blanco -- "as ratazanas, devemos matá-las", advertia; criticou os políticos por serem "ignorantes" e não saberem "o que é a educação"; afirmou que a tourada é "um fenómeno religioso" e comparou a atual e "sagrada" cultura promovida pelas instituições com "uma dança de chimpanzés".

    "Eu não posso respeitar a opinião de alguém que me está a dizer que é Napoleão ou que tem relação direta com o Espírito Santo; se alguém afirma como verdadeiras proposições que são indemonstráveis, está a insultar-me", dizia Gustavo Bueno, o filósofo que hoje morreu em sua casa, em Llanes, Astúrias, por não conseguir suportar, segundo o filho Álvaro, a dor de ter perdido há dois dias a mulher, Carmen.

     

     

    Lusa

    Outras Notícias