Analistas dizem que enfraquecimento da imprensa leva a menos esclarecimento dos eleitores

10 Jan 2016 / 01:01 H.

    Analistas ouvidos pela Lusa consideram que o enfraquecimento da imprensa nas últimas décadas se repercute na cobertura das campanhas eleitorais e no esclarecimento dos eleitores, uma situação que dizem ser atenuada pelas redes sociais, mas cujo acesso ainda é limitado.

    Segundo Luís Santos, professor de jornalismo e investigador do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho, a imprensa escrita está hoje "genericamente muito mais enfraquecida" em relação aos últimos 30 anos. "Isso vai notar-se na campanha [para as presidenciais de 24 de janeiro] e já se notou na cobertura da campanha eleitoral para as legislativas [de 04 de outubro]", disse.

    "Quando há menos recursos disponíveis o que o jornalismo tende a fazer é ser mais 'pé de microfone' e seguir a agenda dos candidatos e a ser menos jornalismo, ou seja, a ter menos um agendamento alternativo, uma decisão editorial antecipada", continuou, recordando que nos anos 80 as páginas dos jornais estavam cheias de política.

    Para o professor, o enfraquecimento da imprensa é menos visível nas rádios e nas televisões, mas nota-se "que se faz menos interpretação do que o que está a acontecer nas campanhas".

    Apesar do enfraquecimento da imprensa, Luís Santos considerou que houve um contraponto positivo, que provocou mais discussão, debate e a "ativação do interesse das pessoas pelo assunto".

    "Agora há uma atividade mais intensa nas redes sociais. Parte da estratégia hoje em dia de candidatos presidenciais, também em Portugal, passa pelas redes sociais, por contraponto a uma presença mais anódina nos media tradicionais", disse, salientando que são mecanismos mais utilizados pelos candidatos.

    Mas, para Luís Santos, há um "grupo significativo e muito relevante de portugueses que não tem acesso às redes sociais" e que "ficam mal servidos pelo facto de o jornalismo tradicional estar a viver um momento de grande fragilidade".

    Apesar da presença das campanhas nas redes sociais, para o professor Francisco Cádima, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, aquele meio ainda não é uma forma eficaz de mobilização por "razões culturais e financeiras".

    "O que temos até ao momento é uma coisa provinciana relativamente ao carácter massivo comunicacional e online da experiência norte-americana. Vamos ter uma campanha que ainda é do analógico e não do campo digital", disse, referindo-se à utilização das redes sociais.

    Francisco Cádima explicou que naquele campo, na "utilização que se pode fazer na Internet em relação às campanhas quem está mais avançado são os Estados Unidos".

    Segundo o professor Francisco Cádima, nos Estados Unidos os candidatos já fazem recolhas de fundos do tipo crowdfunding (angariação de fundos para um projetos através da Internet) para financiar as campanhas.

    Já o professor José Adelino Maltez, do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, considerou que as campanhas eleitorais são mais profissionais e com maior centralização organizativa, mas há um indiferentismo.

    "Indiferentismo, porque confiamos e deixamos a coisa correr. É um jogo muito repetitivo", afirmou.

    Segundo José Adelino Maltez, à exceção do Bloco de Esquerda, "todos os outros estão cá há 40 anos e controlam".

    "Há 40 anos que isto não muda, somos um caso único na Europa. Somos o mais reacionário dos sistemas políticos da Europa e quem tem a culpa são as pessoas que não fazem mobilização, não estão disponíveis e estão cansadas de tentativas", salientou.

    O professor José Adelino Maltez explicou também que as campanhas eleitorais não mobilizam muitas pessoas.

    "O espaço de mobilização dos partidos não integra a maior parte dos portugueses e é uma coisa estranha à sociedade", sublinhou.

    As eleições presidenciais realizam-se a 24 de janeiro.

    Lusa

    Outras Notícias