Ceramista venezuelana não deixa morrer tradição madeirense dos bonecos de massa

23 Ago 2015 / 10:34 H.

Presenças marcantes nas festas populares madeirenses, os coloridos bonecos de massa são uma tradição centenária do arquipélago que apenas sobreviveu devido a uma ceramista venezuelana residente na região há cerca de 20 anos e que por eles se apaixonou.

"Eu conheci a dona Salomé, a única pessoa que fazia estas bonecas na Madeira, e quando ela morreu foi como se a responsabilidade de preservá-las tivesse caído nas minhas costas, a de não deixar morrer a tradição centenária das bonecas. Acho que se não fosse eu teriam mesmo morrido", diz Carmen Molina à agência Lusa, enquanto corta e manuseia a massa para criar um exemplar.

A massa é confecionada utilizando farinha, corante de ovo e sal fino, sendo depois ornamentada com o característico papel de seda vermelho e azul, sementes de bananeira ou cebolinho que servem para fazer os olhos. Os bonecos podem ser considerados "ricos" ou "pobres" de acordo com a quantidade de pormenores de massa com que são enfeitados.

Não faltam também pequenas pombas - uma em cada mão das figuras e outras seis na roda da saia das bonecas - que a ceramista afirma serem símbolos da paz, do Espírito Santo ou da família.

Carmen Molina, que é professora de artes visuais, afirma que a cerâmica é a sua "verdadeira paixão", o que a colocou em contacto com outros artesões regionais.

Depois da morte da "dona Salomé", que tinha aprendido a fazer as figuras com a mãe e a avó, o Museu Etnográfico da Madeira convidou-a a recriar em cerâmica as bonecas de massa, para uma exposição em homenagem da artesã.

A ceramista reconhece que "nessa altura não tinha muito interesse nelas" e que aprendeu a fazer as bonecas sozinha, com base na receita da "dona Salomé" que lhe foi facultada pelo museu.

"As primeiras saíram gorduchas, feias, e surgiu a paixão. Prefiro trabalhar a minha cerâmica, mas também me apaixonei pelas bonequinhas", realça, salientando que por este motivo tem tentado "dar-lhes vida" noutros materiais e objetos, como barro, tecido, ovos e colares: "Em qualquer material fica a marca, o desenho das bonecas".

Na sua opinião, as bonecas que cria "não são idênticas nem cópias perfeitas das da dona Salomé", mas tenta fazê-las o mais fiéis possível e com muito carinho. Por isso, acrescenta, "as pessoas mais antigas até dizem que não encontram grandes diferenças".

Um sorriso denota o seu orgulho ao ver compor-se mais uma figura: "Às vezes, quando as estou fazendo, vou falando com elas, porque qualquer trabalho deve ser feito com amor".

A artista conta que antigamente as mulheres pobres aproveitavam as sobras da massa do pão e faziam este tipo de bonecas para as crianças se entreterem, um brinquedo que não desperdiçavam porque depois podiam comer.

Carmen já perdeu a conta às ações de formação que deu sobre a confeção, mas poucas pessoas se dedicam a esta arte. "O material é barato, mas é preciso dedicar muito tempo, não dá para viver disto. É muito trabalho e não dá lucro. Só por amor à camisola", refere.

Só faz bonecas de massa por encomenda e recorda uma feita por uma unidade hoteleira, de 300 exemplares, que serviram para decorar a árvore de Natal. Acabou por não receber qualquer pagamento.

Noutra vez, as figuras foram oferecidas como brindes aos convidados de um casamento e enfeitaram o bolo dos noivos. Também recebeu pedidos de emigrantes e mandou bonecas para França, Venezuela e África do Sul.

Após 25 minutos de conversa, a primeira boneca está pronta para ir ao forno, para cozer durante alguns minutos em lume brando, e Carmen Molina conclui: "Acho que fazer esta pequena contribuição para que estas bonecas sobrevivam no tempo para mim já é uma recompensa e só com isso já me sinto feliz".

Lusa

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