Ligação de católicos húngaros a Fátima indissociável do contexto político

06 Mar 2015 / 13:26 H.

    A ligação dos católicos húngaros a Fátima, que será realçada sábado na inauguração da estátua do padre Luís Kondor, com a presença do Presidente da Hungria, assume uma dimensão política, patente em documentos e testemunhos históricos.

    Marco Daniel Duarte, Diretor do Serviço de Estudos e Difusão do Santuário de Fátima, disse à agência Lusa que a documentação disponível nos arquivos relativa à construção do Calvário Húngaro "não deixa dúvidas de que esta edificação é uma bandeira identitária do sentir político e espiritual dos húngaros da diáspora".

    Esse será, aliás, o tema da intervenção que vai fazer na cerimónia de inauguração da estátua do padre húngaro Luís Kondor (o grande impulsionador da beatificação de Francisco e Jacinta Marto), e que marca também a passagem dos 50 anos da construção do Calvário Húngaro, por iniciativa de católicos húngaros refugiados no Ocidente.

    Falecido em 2009, Luís Kondor fugiu, como milhares de húngaros, do regime instaurado após a invasão soviética que se seguiu à primeira Guerra Mundial, primeiro da Hungria, tinha então 21 anos, e depois da Áustria. Ordenado padre na Alemanha, aos 26 anos, em 1954 foi enviado para Fátima, sendo então nomeado vice-prefeito do Seminário Verbo Divino.

    "O projeto é, desde a primeira hora, entendido como uma metáfora do 'Calvário' que viviam os húngaros que sentiam ser-lhes negada a liberdade, incluindo a liberdade religiosa, no seu país de origem", disse Marco Duarte à Lusa.

    A ligação ao santuário mariano situado no concelho de Ourém (distrito de Santarém) não foi de todo alheia "ao assumir que a mensagem de Fátima, sobretudo a segunda parte do Segredo (sintetizada e formulada na questão da conversão da Rússia), se relaciona com a libertação dos povos do Leste Europeu que se encontravam governados por regimes ateus, entre eles o povo húngaro", afirma o responsável pelos arquivos.

    Marco Duarte frisou que "esta interpretação foi inclusivamente assumida pelo Presidente da Hungria quando, ao visitar o Santuário de Fátima em janeiro de 1993, afirmou: 'Este lugar é um dos mais importantes do mundo cristão. A promessa de Nossa Senhora de que a Rússia se iria converter tornou-se verdadeira. Após 40 anos de opressão, já existe liberdade religiosa na Hungria'".

    O responsável pelo arquivo do santuário afirmou que, no dia do lançamento da primeira pedra da capela, em 11 de agosto de 1964, o Padre Kondor, representando a Comissão Central do Calvário Cardeal Mindszenty leu o pergaminho escrito em língua magiar onde estava escrito que a finalidade daquela construção era "a esperança dos refugiados da Hungria de, através deste ato, alcançarem por intercessão de Nossa Senhora de Fátima a liberdade para a sua Pátria".

    Segundo o diretor do Serviço de Estudos do Santuário, o projeto apresentado em 1956 ao bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva, ganhou, desde o início, "uma forma político-ideológica e espiritual muito grande porquanto se toma como figura patrona daquela construção o cardeal József Mindszenty, importante opositor do regime soviético que ocupava o Leste Europeu, incluindo a Hungria".

    Embora seja habitualmente designado por Calvário Húngaro, o nome oficial registado nos documentos é "Calvário Cardeal Mindszenty", afirmou.

    A Via-sacra, que percorre o caminho habitualmente feito pelos videntes de Fátima desde Aljustrel até à Cova da Iria, com 14 estações, termina na Capela de Santo Estêvão (rei da Hungria), local conhecido como Calvário Húngaro, tendo uma 15.ª estação sido concluída em 1992, quando o país já se encontrava "liberto do comunismo".

    A estátua de Luís Kondor, da autoria do arquiteto Sousa Araújo, resulta de uma iniciativa da Associação Portugal-Hungria para a Cooperação e da Embaixada da Hungria em Portugal. Entre as várias entidades presentes nesta iniciativa vão estar o Presidente da República da Hungria e o cardeal primaz do país.

    Lusa

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