Afastamento entre Turquia e União Europeia é culpa de ambas

Escritora turca Elif Shafak, activista política, salienta que situação teve consequências negativas

12 Fev 2015 / 17:28 H.

    A escritora turca Elif Shafak, conhecida pelo ativismo político e por abordar temas tabu nos seus livros, considera que o afastamento entre Turquia e União Europeia nos últimos anos é culpa de ambas e teve consequências negativas.

    Em entrevista à Lusa em Lisboa, a autora, doutorada em Ciência Política, lamentou o distanciamento ocorrido entre a Turquia e a União Europeia (UE), depois de aquele país ter iniciado em 2005 negociações de adesão.

    "É verdade que o Governo turco não cumpriu muitos dos requisitos necessários, mas também é verdade que há muitos políticos xenófobos no continente europeu, governantes populistas que usam a Turquia como 'o outro', sobretudo em França, e eu acho isso muito triste, porque a longo prazo, não ajuda ninguém", sustentou.

    Caracterizando as atuais relações entre Turquia e UE como "bastante más", a escritora considerou que "é uma pena, porque há alguns anos houve um momento histórico em que a Turquia e a UE estiveram próximas, e a opinião pública era a favor da adesão da Turquia, mas agora esse estado de espírito mudou, e muitos turcos pura e simplesmente não querem pertencer à UE".

    Inquirida sobre se a religião islâmica esteve na origem das reticências de alguns líderes políticos europeus à entrada da Turquia na Europa comunitária, a autora considerou que "isso é discutível", mas, acrescentou, "a religião é sobretudo utilizada como uma arma política populista".

    Aquilo que, segundo Elif Shafak, todos se devem perguntar é: "É melhor uma Turquia parte da UE, que partilhe valores liberais e democráticos, que seja pluralista, que acredite na liberdade de expressão, ou uma Turquia que virou as costas à UE e caminhou na direção oposta?".

    "Se o segundo cenário acontecer -- prosseguiu -, é óbvio que os turcos sofrerão com isso, mas acho que também não será bom para a União Europeia e entristece-me que tantos políticos populistas não tenham pensado nisso, nas consequências a longo prazo".

    Falando do que é preciso mudar na Turquia, para que possa haver uma nova aproximação à UE, a escritora apontou o dedo ao nacionalismo e ao ultranacionalismo: "São um dos maiores perigos do nosso tempo, porque nos dizem sempre que somos superiores aos outros, só porque nascemos de uma determinada raça ou em determinado local".

    "E é preciso que os seres humanos possam ir além desses rótulos de raça, religião, nacionalidade, e vejam o que têm em comum enquanto seres humanos. Eu sou, por natureza, muito crítica do nacionalismo como ideologia, de todas as espécies de nacionalismo e ultranacionalismo e, claro, do racismo e da xenofobia, que andam de mãos dadas com eles", sublinhou.

    Apesar de entender que, por exemplo, os curdos "possam precisar mais de nacionalismo que os turcos - porque os curdos sempre foram uma minoria na Turquia e os seus direitos foram-lhes negados", Elif Shafak afirmou acreditar "a longo prazo no cosmopolitismo, no multiculturalismo, em ver as pessoas como almas globais, como cidadãos do mundo".
     

    Lusa