Abdel Fattah al-Sissi despiu a farda para ser presidente

O novo Chefe de Estado egípcio é actualmente a figura mais popular do país, mas teve de deixar de ser militar

30 Mai 2014 / 00:08 H.

    O novo Presidente egípcio, Abdel Fattah al-Sissi, tornou-se a figura mais popular do Egito quando, em julho de 2013, anunciou ao país a destituição do chefe de Estado islamita Mohamed Morsi, apoiado pela influente confraria Irmandade Muçulmana.

    A 03 de julho de 2013, foi o general Abdel Fattah al-Sissi, então chefe do exército do Egito, que apareceu nos ecrãs da televisão para informar o povo egípcio do afastamento daquele que tinha sido o único Presidente egípcio eleito democraticamente até então.

    Meses depois, a 28 de janeiro, o exército desafiou Sissi, considerado o arquiteto da deposição de Morsi, a responder ao "apelo do povo" e a candidatar-se à eleição presidencial.

    O apelo teria uma resposta positiva a 26 de março, quando Abdel Fattah al-Sissi, 59 anos, anunciou, numa declaração televisiva, que "com toda a humildade" seria candidato às presidenciais, prometendo "livrar o Egito do terrorismo".

    "Apresento-me hoje perante vós pela última vez de uniforme militar, depois de ter decidido abandonar as minhas funções de ministro e chefe das Forças Armadas", declarou então o militar, que tinha sido nomeado para a pasta da Defesa durante o governo de Morsi e que assumiu, posteriormente, o cargo de vice-primeiro-ministro do executivo interino.

    Para ser elegível, Abdel Fattah al-Sissi, que foi promovido a marechal em janeiro de 2014, tinha de abandonar essas funções.

    Muitos dos apoiantes de Sissi comparam o novo governante ao líder Gamal Abdel Nasser, Presidente egípcio desde 1956 até à sua morte em 1970.

    Sissi e Nasser, também ele um militar que durante as décadas de 1950 e de 1960 se tornou o pioneiro do pan-arabismo e do movimento dos Países Não-Alinhados, têm outro ponto em comum: com o intervalo de várias décadas, os dois lideraram uma forte e sangrenta repressão contra a Irmandade Muçulmana.

    Nasser ilegalizou a confraria em 1954. Em 2013, após a destituição e detenção de Morsi, o exército egípcio lançou uma vaga de repressão contra os apoiantes da Irmandade Muçulmana que fez, nos últimos 10 meses, mais de 1.400 mortos, 15 mil detenções e centenas de condenações à morte após julgamentos sumários.

    Mas, ao contrário dos discursos exaltados de Nasser, o novo governante egípcio opta por discursar pouco em público - quase não apareceu durante a campanha eleitoral -, e sempre num tom suave e paternalista.

    Nascido no Cairo a 19 de novembro de 1954, numa família de artesãos, Abdel Fattah al-Sissi foi um jovem desportista e disciplinado, muito centrado nos estudos e com profundas convicções religiosas, segundo o testemunho de um primo, Fathi al-Sissi, citado pelas agências internacionais.

    Fathi al-Sissi revelou ainda que o primo mantém até hoje os hábitos saudáveis adquiridos na juventude, uma vez que "não bebe café nem chá, nem fuma".

    Em 1977 formou-se em ciências militares na academia militar egípcia. No início da década de 1990, frequentou uma academia militar britânica.

    Depois de ocupar vários cargos nas Forças Armadas egípcias, incluindo o posto de comandante de um batalhão de Infantaria Mecanizada, e seguindo os passos de muitos outros oficiais egípcios, Abdel Fattah al-Sissi ingressou, em 2006, numa escola militar norte-americana, onde escreveu uma dissertação intitulada "A democracia no Médio Oriente", na qual referia o papel do islamismo na legislação.

    O novo governante egípcio tem quatro filhos, uma rapariga e três rapazes, estes últimos ingressaram nas fileiras do exército egípcio. O filho mais velho de Sissi é casado com a filha do atual chefe dos serviços de informação militares, cargo que o marechal ocupou durante o regime do antigo Presidente Hosni Mubarak.

    Apesar de o seu nome ser agora conhecido de todos os egípcios, Sissi surgiu, pela primeira vez, em público em junho de 2011.

    Na altura, o militar veio admitir publicamente que membros do exército egípcio tinham submetido a "provas de virgindade" as mulheres detidas na praça Tahrir, epicentro da revolta popular contra Mubarak.

    Quando a Amnistia Internacional se reuniu com Sissi para pedir explicações, o militar assegurou que os testes tinham sido realizados para proteger os militares de acusações de violação, prometendo na mesma altura que a prática não voltaria a ser repetida.

    Lusa