Família Zino, a guardiã das Selvagens

"O meu pai é o pai da reserva", frisa Francis Zino

16 Jul 2013 / 22:06 H.

    A Reserva Natural das Ilhas Selvagens, na Madeira, tem apenas uma casa de propriedade privada, construída em 1967/68 pela família Zino, de ascendência britânica, cujo interesse pela Ornitologia levou a erguer paredes no extremo mais meridional do território português.

     

    A habitação coabita com a também única estrutura pública existente naquele território, que será visitado esta quinta e sexta-feira pelo Presidente da República, Cavaco Silva, a cargo dos vigilantes da natureza do Parque Natural da Madeira.

     

    "A primeira vez que o pai [o naturalista e ornitólogo Paul Alexander Zino] foi às Selvagens deu-se em 1957", disse à agência Lusa o actual proprietário da casa, Francis Zino, médico de clínica geral e ornitólogo como o pai Paul. Seis anos mais tarde, em 1963, o Museu Municipal do Funchal, actualmente Museu de História Natural do Funchal, organizou uma expedição científica multidisciplinar e multinacional às Selvagens, momento que marcou a vida da família Zino.

     

    "Aí começa o nosso novo interesse pelas aves", reconheceu Francis Zino, adiantando que voltaram quatro anos depois (1967) e constataram que o número de cagarras estava a diminuir devido à caça, que dizimava cerca de 30 mil aves por ano.

    Enquanto território privado, as Ilhas Selvagens conheceram vários proprietários, o último dos quais foi o banqueiro madeirense Luís Rocha Machado.

    Francis Zino narra que o pai pediu que lhe renovassem o contrato de caça e lhe fossem arrendadas as ilhas, "para não caçar". "Ele [o pai] obteve uma licença de caça, para não caçar, para preservar as aves. Aí, começou a reserva. Quer dizer, o meu pai é o pai da reserva", frisou Francis.

    Com autorização de Luís Rocha Machado, Paul Zino "meteu mãos à obra" para construir a casa e que, além de local de lazer, serve de base aos trabalhos de investigação que ali são desenvolvidos. A casa "é muito simples, tem 48 metros quadrados e foi idealizada pela minha mãe", explicou Francis.

    "Tem um quarto duplo, uma casa de banho, uma cozinha, uma sala cujos sofás se tornam em camas, dormem cinco pessoas com conforto mas, a grande coisa da casa, é uma varanda com quase a mesma área coberta e onde se passa o dia".

     

    Face às despesas de manutenção do espaço, a família Zino contactou a World Wildlife Fund - WWF (Fundo Mundial para a Vida Selvagem), no sentido de obter ajuda financeira.

    "Foi tudo acordado e o custo da compra das ilhas era 150 mil francos suíços (1.500 contos) mas, nesse tempo, uma compra destas precisava da autorização do Banco de Portugal que alertou o governo e assim inviabilizou a transação", recordou Francis Zino.

     

    Em 1971, o Governo da República exerceu o seu direito de opção e comprou então as Selvagens promovendo-as a Reserva integral, a primeira a ser constituída em Portugal.

    Cinco anos depois, em pleno "período revolucionário em curso", pescadores que rumaram às Selvagens terão destruído a casa, que foi reconstruída pela família, que a mantém.

    "No fim de contas, a ideia do pai está lá (...) e agora temos o Parque, temos lá a nossa casa, que é muito importante...", argumenta Francis Zino.

    As Selvagens são um conjunto de ilhas portuguesas do território do arquipélago da Madeira e situam-se a 165 quilómetros a norte das Canárias (Espanha), a 250 quilómetros a sul da cidade do Funchal, a 250 quilómetros a oeste da África e a mil quilómetros a sudoeste do Continente Europeu. São constituídas pela Selvagem Grande, Selvagem Pequena, Ilhéu de Fora e ilhéus adjacentes, ocupam uma área de 9.455 hectares e são consideradas um "santuário" de nidificação de aves marinhas, em particular da cagarra.

    Lusa

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