Região está nas mãos de "gente ignara e descabeçada"

Padre Martins crítico com quem governou a Madeira nos últimos 36 anos, insiste no direito em ser julgado pela Diocese do Funchal

14 Ago 2012 / 18:50 H.

O padre José Martins Júnior lamentou hoje que a riqueza produzida pela Região em 36 anos de autonomia esteja “nas mãos de gente ignara e descabeçada” que levou a região da Madeira à actual crise económica.

Na véspera de comemorar os 50 anos de sacerdócio, o antigo presidente da Câmara de Machico (pela UDP) e deputado regional (pelo PS) reafirma a sua posição de adversário do regime de Alberto João Jardim mas lamentou “o sentimento de derrotismo” da população e “grande parte do que o povo fez, num todo”, está a “desmoronar-se”.

Tudo “para chegarmos a este estado de esfarrapado, de quase putrefacção” do sistema político, com o poder “entregue a irresponsáveis que só são grandes quando mexem no dinheiro dos outros”, afirmou o dirigente histórico da oposição ao líder do Governo Regional. Para Martins Júnior, “o grande mal que este regime madeirense fez foi destruir o sentido de educação de um povo”.

O sacerdote, há 43 anos responsável pela paróquia da Ribeira Seca, em Machico, lamenta que os 36 anos de luta pela autonomia tenham sido consumidos na “deseducação” de um povo.

“Deixou-se resvalar para o interesse pessoal em prejuízo do interesse colectivo, educou-se um povo para a manha, para a cobardia e para ser um camaleão”, afirmou o sacerdote, que abdicou de quaisquer aspirações partidárias.

“É por isso que abandonei a política partidária activa mas as ideias estão cá dentro e ainda mais fortes do que antes”, explicou.
“Agora, é com muita tristeza que eu vejo nas mãos de gente ígnara, descabeçada, sem coração e sem sensibilidade, o ouro ou a prata que tanto nos custou a ganhar”, lamenta.

Martins Júnior celebra quarta-feira o quinquagésimo aniversário da sua consagração sacerdotal, e agradeceu à população da sua paróquia o apoio ao seu trabalho pastoral, algo que nunca foi bem visto pela hierarquia católica devido às suas ligações à extrema-esquerda e à oposição a Alberto João Jardim.

Ao longo dos anos, a Igreja “atirou-me à valeta, condenou-me sem nunca me ter julgado” mas “os que o fizeram já morreram”, numa referência ao antigo bispo Francisco Santana, que pediu “as chaves da igreja, alegando que eu pertencia ao Partido Comunista Português”, recorda.

“Tudo começou por aí. Depois agravou-se quando me suspenderam” mas “aí, o povo amotinou-se, revoltou-se”.
Num sacerdócio que atravessou os bispados de Francisco Santana e Teodoro de Faria, Martins Júnior diz ter agora “relações cordiais” embora “estéreis” com o actual titular da diocese, António Carrilho.

O também Comendador da Ordem de Mérito agradece ao “mestre tempo” a sua longevidade: “Foi uma vida pela qual optei, com um certo idealismo, com uma certa mística”, resumiu.

O processo canónico para o afastarem continua por concluir mas Martins Júnior exige que lhe sejam apresentadas provas: “está como na estaca zero, os bispos têm feito tudo para me arrancarem desta modesta igreja”.

“Eu também quero saber qual é o meu crime, que me julguem e, até hoje, não se fez, e vem um bispo, e vem outro e nenhum deles tem coragem de dizer ‘vou julgar-te no banco dos réus’”, observou.

“Quero ser julgado, mais nada. É um direito. O réu tem direito a ser julgado, o que a Igreja madeirense me está fazendo é denegar a justiça, denegar a justiça é um crime à face do direito civil, do direito penal português ou de qualquer direito internacional”, afirmou, elogiando o apoio da população.

“Eu estou, aqui, porque o povo da Ribeira Seca bateu o pé porque, na generalidade, este povo não se compra, nem se vende”, concluiu.

Agência Lusa