“Para mim, uma orquestra não é um museu, é uma arte viva que cresce”

14 Fev 2020 / 15:17 H.

Evan-Alexis Christ é conhecido pelo trabalho que desenvolveu como maestro titular da Ópera Estatal de Brandemburgo, em Cottbus, cargo que ocupou entre 2008 e 2018 e que levou a que a formação crescesse e ganhasse notoriedade nesse período. Hoje estreia-se na direcção da Orquestra Clássica da Madeira no concerto de aniversário da formação madeirense. Os 56 anos de história serão celebrados pelas 18 horas no Centro de Congressos da Madeira com a presença também da virtuosa violinista Mayuko Kamio, medalha de ouro do Concurso Internacional Tchaikovsky de 2007 e de muitas outras competições internacionais.

Um reportório alargado e diverso é fundamental para chegar ao público, defendeu Evan-Alexis Christ, quando questionado sobre o segredo do seu sucesso. Por um lado apostou em música muito contemporânea, “que algumas pessoas da audiência têm medo”, mas sempre em doses muito curtas e pouca quantidade; e por outro fizeram muita música popular, música de filmes, como de John Williams, Star Wars, e os românicos que ajudaram a captar público. “É importante oferecer ao público uma grande variedade”, assim como entende que é trabalho dos músicos apresentar cada música o melhor possível. “Se a plateia gosta ou não gosta, isso nós não podemos controlar. E não faz mal.” O maestro é defensor de que as pessoas falem, mesmo que seja para dizer que não gostam, mas que se envolvam. E foi isso que conseguiu na Alemanha, com prémios e aumento do público. “Para mim, uma orquestra não é um museu, é uma arte viva que cresce”.

Evan-Alexis Christ vem de uma família de músicos e cresceu a ouvir vários géneros. Não diz não a uma música, desde que seja tocada com entusiasmo, com alma e coração e sobre a música contemporânea, diz que é preciso dar uma oportunidade. “No início é ‘Isso é horrível’, ‘Não suporto’, ‘Não tem melodia’. Não faz mal. Mas temos de apresentar. Beethoven e Brahms, muitos dos compositores famosos que hoje amamos, as primeiras vezes que tocaram, talvez o público não gostou, talvez ao longo dos anos também as toquemos melhor. Temos que olhar para isto como um processo e permitir que aconteça”. O tempo faz o resto, define quais as grandes obras.

E as desta noite, não sendo contemporâneas, sobreviveram ao teste do tempo. “Este concerto é fabuloso, é um concerto muito romântico”, diz Evan-Alexis Christ sobre a Sinfonia nº8 de Dvorak, que o maestro conduziu há uns anos. “É como voltar para um velho amigo”. Descreve-a como uma música muito positiva, embora com alguma melancolia, baseada nas melodias folk boémias. “É excitante, mas também com momentos de oração e calma. É realmente uma das grandes obras sinfónicas de sempre.” Quanto ao Concerto para violino e orquestra de Paganini, diz que todos tocam de uma forma diferente. “É uma obra para brilhar o violino. Eu basicamente vou acompanhar bem, ficar fora do caminho e deixá-la tocar as suas notas maravilhosas. Musicalmente não é só notas rápidas e difíceis, é também uma composição muito bem conseguida”.

O encontro com a Orquestra Clássica da Madeira correu bem, o maestro á saída do ensaio estava satisfeito. “Eu adoro esta orquestra, eles são tão concentrados e é uma atmosfera é óptima, podemos sentir que eles dão o seu coração e a sua alma.”

Evan-Alexis Christ reconhece que ser maestro é um lugar solitário. Diz que um bom maestro é aquele que encontra, diz, como um treinador, a forma “de colocar todos aqueles músicos maravilhosos e talentosos estar na mesma ‘página’”, que faz com que acreditem na causa. Quando somos convidados é muito mais fácil quando estamos lá durante dez anos, torna-se mais difícil,” confessou. “É como um casamento, tentar mantê-lo vivo. É um desafio”. O mais difícil, disse em retrospectiva, foi manter a vivacidade, o nível superior e estar motivado para estar sempre no topo e encontrar a maneira certa para transmitir isso”.

Os bilhetes para o concerto de amanhã estão já à venda, custam 20 euros para o público em geral.