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Fact Check Madeira

Haverá vária arte sacra desaparecida na Madeira?

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A possível identificação de uma imagem desaparecida da Sé do Funchal há 460 anos levanta a questão sobre a existência de outras peças de arte sacra sem paradeiro conhecido na Madeira.

A apresentação, esta semana, de uma imagem de Nossa Senhora com o Menino, que poderá ser a mesma que existia no altar-mor da Sé do Funchal no século XVI, trouxe de novo à actualidade a questão do património religioso desaparecido na Madeira.

A hipótese foi avançada por Francisco António Clode Sousa, director de Serviços de Património Cultural, embora com uma ressalva importante: não existe documentação que permita confirmar que se trata da imagem desaparecida da Sé.

Será este um caso isolado ou há registo de outras obras de arte sacra desaparecidas na Madeira?

A verificação foi feita com recurso ao arquivo do DIÁRIO e a estudos sobre o património artístico da Madeira. Procurámos referências a furtos e desaparecimentos de imagens, pinturas, objectos litúrgicos e outras peças pertencentes a igrejas e capelas da Região. Não pretendemos, nem seria possível, elaborar uma lista completa.

Isso mesmo resulta de uma informação prestada ao DIÁRIO pelo vigário-geral da Diocese do Funchal, padre Marcos Gonçalves. A Diocese não dispõe de um levantamento específico das obras desaparecidas. Existe um inventário das obras de arte sacra da Diocese e das paróquias, no qual são caracterizadas as peças e identificado o local onde se encontram, mas esse inventário está actualmente desactualizado e necessita de revisão.

Ainda assim, o arquivo noticioso permite confirmar que o desaparecimento de arte sacra na Madeira não se resume à imagem agora adquirida para a Região.

Em Março de 1995, o padre Rafael Andrade, então pároco de Santa Maria Maior, denunciava ao DIÁRIO o desaparecimento de peças de arte sacra de algumas igrejas madeirenses e defendia a criação de um inventário, com identificação e fotografia de todo o espólio.

O sacerdote apresentava casos concretos. Da igreja de Santa Maria Maior tinha sido furtado um medalhão em ouro oferecido a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Também desaparecera um rosário lavrado em prata, com 150 contas, e, alguns anos antes, tinham sido furtados dois quadros considerados valiosos.

Rafael Andrade referia ainda que da Capela do Corpo Santo já tinham desaparecido algumas peças, acrescentando que o problema não se limitava a custódias ou cruzes, abrangendo também quadros, vestes e imagens de santos.

Outro caso está documentalmente melhor acompanhado. A 6 de Maio de 1992 desapareceu da imagem de Nossa Senhora do Monte uma centenária coroa de ouro. Em 2007, 15 anos depois do furto, o DIÁRIO dava conta de que não tinha sido identificado o autor e desconhecia-se se a peça permanecia na Madeira ou se entrara no circuito internacional de tráfico de arte sacra.

A situação mantinha-se, pelo menos, em 2011. Numa notícia sobre a recuperação pela Polícia Judiciária de uma imagem de Nossa Senhora do Desterro, furtada no Monte, o DIÁRIO recordava que a coroa de Nossa Senhora do Monte continuava sem paradeiro conhecido.

Nem todas as peças dadas como desaparecidas permaneceram nessa situação. É precisamente o caso da imagem de Nossa Senhora do Desterro, do século XVII, furtada em Março de 2011 e recuperada pela PJ pouco tempo depois.

Também não devem ser confundidos desaparecimentos com situações em que o paradeiro da obra era conhecido, mas existia uma disputa sobre a propriedade. Foi o que aconteceu com a denominada ‘Santa Mulher’, escultura flamenga do século XVI reclamada pela Diocese. Em 2002, sabia-se que estava na posse de uma família madeirense, pelo que não pode ser considerada uma obra de paradeiro desconhecido.

A preocupação com os desaparecimentos levou, entretanto, a Diocese do Funchal a aderir ao projecto ‘Igreja Segura’. Em 2004, o DIÁRIO assinalava que os roubos de arte sacra na Madeira não atingiam a proporção verificada em determinadas zonas do continente, mas que havia notícia do desaparecimento de algumas peças, sendo a coroa de Nossa Senhora do Monte o caso mais emblemático.

Três anos depois, o então coordenador da PJ no Funchal, Carlos Farinha, voltava a falar em “casos de arte sacra madeirense desaparecida”, salientando que a inexistência de registos fotográficos dificultava a localização das peças.

Quanto à imagem de Nossa Senhora com o Menino agora apresentada, a própria investigação histórica recomenda prudência. Os relatos do saque dos corsários franceses à Sé, em 1566, referem imagens destruídas, altares desfeitos e relíquias profanadas, mas são vagos quanto aos danos concretos no retábulo-mor.

Há, portanto, provas documentais de que várias peças de arte sacra desapareceram de igrejas madeirenses ao longo do tempo. Algumas foram recuperadas, outras surgem em notícias antigas sem que tenha sido possível, através do arquivo consultado, determinar o desfecho e pelo menos a coroa de Nossa Senhora do Monte continuava sem paradeiro conhecido em 2011.

O que não é possível afirmar é quantas obras continuam actualmente desaparecidas. A própria Diocese não dispõe desse levantamento e reconhece que o inventário existente necessita de actualização.

Assim, a afirmação de que há registo de vária arte sacra desaparecida na Madeira é verdadeira, embora não seja possível determinar actualmente a dimensão do fenómeno.

'Há várias peças de arte sacra desaparecidas na Madeira' – Ideia suscitada pela possível identificação da imagem que desapareceu da Sé do Funchal há 460 anos