"Não podemos perguntar apenas quem utilizaria o ferry hoje"
Leonardo Reis recupera história do ferry e defende impacto na concorrência e nos custos
A ligação marítima entre a Madeira e o continente não é uma ideia nova e já teve diferentes experiências ao longo das últimas décadas. O enquadramento histórico foi feito por Leonardo Reis, membro da Comissão Política Nacional do JPP, na abertura das jornadas parlamentares do partido dedicadas ao tema "Ferry e Continuidade Territorial", numa intervenção em que defendeu a viabilidade económica da operação e o seu potencial para introduzir concorrência no transporte de mercadorias.
Leonardo Reis começou por recordar que a Madeira já teve ligações marítimas regulares em diferentes períodos. Em 1985, segundo o interveniente, uma operação assegurada pelo navio 'Funchal' permitia o transporte de passageiros e mercadorias. Mais tarde, em 2008, um operador das Canárias iniciou uma nova operação, que em 2011 chegou, de acordo com os dados apresentados, a transportar cerca de 11% da mercadoria movimentada na Madeira.
O operador teria manifestado interesse em aumentar para duas as viagens semanais, condicionando essa possibilidade à redução das taxas portuárias. Leonardo Reis recordou que, em 2011, essas taxas representariam cerca de 1,2 milhões de euros, apontando a decisão do Governo Regional de então de aumentar em 20% as taxas portuárias como um dos factores que condicionaram a operação.
O arquitecto referiu ainda outras dificuldades colocadas ao funcionamento da ligação, nomeadamente relacionadas com o transporte de atrelados e com a organização logística da operação. Para Leonardo Reis, a discussão sobre a viabilidade do ferry não pode, por isso, ignorar as condições em que a operação foi desenvolvida.
A intervenção centrou-se depois nos efeitos que uma ligação marítima regular poderia ter na economia regional. Leonardo Reis estabeleceu uma relação directa entre os custos do transporte e o preço final de bens e materiais, dando como exemplo a construção civil.
Segundo explicou, materiais como ferro, cimento, alumínio, vidro, isolamento ou tintas têm de ser transportados para a Madeira e os custos associados à logística acabam por ter impacto no preço final. Uma alternativa marítima, defendeu, poderia aumentar a concorrência e criar condições para uma redução dos custos de transporte.
"Concorrência aumenta a probabilidade que o preço dos bens diminua", afirmou, acrescentando que o ferry poderia representar também uma alternativa para a mobilidade de pessoas e para o transporte de mercadorias.
Leonardo Reis defendeu, contudo, que o principal potencial da operação está no transporte de carga, considerando o transporte de passageiros como um complemento. Um ferry permitiria, exemplificou, transportar veículos e mercadorias para o continente ou outros destinos europeus e regressar posteriormente carregado com outros bens.
O interveniente apresentou ainda o exemplo de uma pequena empresa que necessite de enviar apenas uma palete para o exterior da Região. No modelo actual, explicou, essa mercadoria pode passar por vários operadores, centros logísticos e meios de transporte antes de chegar ao destino. Uma ligação marítima directa poderia simplificar parte dessa cadeia logística.
Para produtos perecíveis, reconheceu, o transporte aéreo apresenta uma vantagem em termos de velocidade. O transporte marítimo convencional pode revelar-se menos adequado para mercadorias com reduzido prazo de validade. O ferry surgiria, assim, como uma solução intermédia entre o avião e o transporte marítimo de carga convencional, sobretudo para mercadorias que não justifiquem o custo do transporte aéreo.
Leonardo Reis defendeu que a avaliação da viabilidade da ligação não deve limitar-se à procura actualmente existente. Na sua perspectiva, é necessário considerar também a procura que poderia ser criada pela própria existência da infraestrutura.
"Não podemos perguntar apenas quantas pessoas hoje querem usar o ferry, quantas empresas querem utilizar o ferry para transportar mercadoria. Temos que perguntar também quantas pessoas passariam a utilizar o ferry se existisse? Quantas empresas passariam a utilizar o ferry se existisse?", afirmou.
O interveniente sustentou que uma nova infraestrutura pode criar novos mercados e permitir que produtores regionais alcancem consumidores que actualmente não conseguem servir em condições competitivas.
Na intervenção, Leonardo Reis recuperou ainda dois estudos promovidos pelo Governo Regional em 2016. Segundo os dados que apresentou, um desses estudos identificava o ferry como a solução com maior potencial para introduzir concorrência no transporte marítimo da Madeira. O outro apontava para a existência de um "monopólio natural" no mercado regional, devido à dimensão da procura e à insuficiência de mercadoria para sustentar vários operadores em simultâneo.
Para o responsável, que já foi candidato pelo partido ao círculo do Algarve, esta conclusão não deve ser interpretada como argumento contra a concorrência, mas como uma indicação de que será necessário encontrar mecanismos adequados para a introduzir.
A intervenção terminou com a defesa de uma análise do ferry que tenha em conta não apenas a procura actual, mas também os efeitos económicos que uma nova ligação poderá gerar. Para o interveniente, a questão passa por perceber de que forma uma alternativa de transporte poderá criar concorrência, reduzir custos logísticos e abrir novas possibilidades para empresas e consumidores da Madeira.