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Altas problemáticas: o doente não pode ser o “iô-iô” do sistema

As chamadas altas problemáticas voltam, ciclicamente, ao debate público. Quase sempre surgem como explicação para a pressão sobre o Serviço de Urgência, para a sobrelotação hospitalar, para a limitação de visitas e para a incapacidade de encontrar resposta imediata para quem já não precisa apenas de hospital, mas ainda não tem condições dignas para regressar a casa.

Mas a pergunta impõe-se: a culpa é da família? É do doente? Ou é de um modelo de gestão da saúde que, desde o nascimento do Serviço Nacional de Saúde, nunca conseguiu articular, de forma séria e estrutural, a saúde com a segurança social? A verdade é que é cada vez mais recorrente vermos as urgências do Hospital Dr. Nélio Mendonça cheias. E, em consequência, surgem limitações de visitas nesse serviço. Na realidade, num Serviço de Urgência ninguém deveria permanecer para além do estritamente necessário. Nem por dias, nem por semanas. Ali devem estar os doentes em observação, em situação aguda, em emergência, em transição clínica. Ninguém, seja branco, negro, rico, pobre, contribuinte ou não contribuinte, deveria ficar longe dos cuidados de saúde adequados. E quando se fala em cuidados, fala-se também de dignidade.

O antigo Hospital Cruz de Carvalho tem mais de 50 anos. Há obras em curso em alguns pisos. Está a ser construído um novo hospital. Mas, pelo que se vai ouvindo, até poderá ter menos camas de internamento. Ao mesmo tempo, fala-se muito em internamento domiciliário, como se essa solução fosse sempre possível. Não é. Conheço casos de doentes com bactérias multirresistentes enviados para casa, com a explicação de que fora do ambiente hospitalar o risco seria menor. Talvez em abstrato. Mas, na vida real, o doente regressou pior.

Os médicos são pressionados a dar altas. As famílias são chamadas a receber em casa doentes complexos, acamados, com demência, com múltiplas comorbilidades. Mas numa sociedade em que todos trabalham, em que há filhos pequenos, salários médios baixos e casas sem condições, que apoio existe realmente? O apoio domiciliário articulado com a Segurança Social, muitas vezes limitado a banhos ou pequenas ajudas, é manifestamente insuficiente para casos clínicos pesados. O problema é estrutural. Saúde e Segurança Social tratam, na maioria dos casos, do mesmo cidadão, mas continuam organizadas como mundos separados. Quando falta orçamento na saúde, empurra-se para o social. Quando o social não responde, devolve-se ao hospital. Quem fica no meio, como um “iô-iô”, é o doente — e a família.

Que fez o Estado, que fez a Região, nos últimos 15 anos para antecipar esta realidade? Muito pouco. Decidiu-se à medida que os problemas surgiram. Remendou-se. Improvisou-se. Como na habitação, andou-se atrás da crise em vez de a prevenir.

A sociedade envelheceu. A esperança média de vida aumentou. As doenças são mais complexas. As famílias são menores. Os hospitais não crescem como cogumelos. E, no entanto, continuamos a gerir saúde e educação com folhas de Excel, como se a dignidade humana coubesse numa célula de cálculo.

É preciso mais investimento, sim. Mas sobretudo melhor visão. Mais articulação entre saúde e respostas sociais. Mais lugares de dia. Mais unidades de cuidados continuados. Mais lares assistenciais. Mais apoio público, porque a velhice não é um fardo: é uma realidade. As futuras residências assistidas privadas ajudarão quem as puder pagar, mas nunca resolverão o problema dos 80% da população que não terá acesso a elas.

Uma família que trabalha das 9h às 17h não consegue, sozinha, cuidar de um doente acamado. Um doente com demência não pode simplesmente ficar entregue a si próprio. E um hospital não pode ser transformado em depósito de problemas sociais que o Estado não planeou resolver.

A solução passa por olhar para a demografia, para a estatística e para a realidade concreta das famílias. Passa por negociar com a Europa políticas de envelhecimento ativo, hábitos saudáveis, cuidados continuados e integração efetiva entre saúde e social. Passa por ter mais médicos, enfermeiros e assistentes onde são realmente necessários. Passa por criar carreiras atrativas, que evitem a fuga para o privado, assentes não apenas no relógio de ponto, mas na valorização, produtividade e responsabilidade.

As altas problemáticas não são culpa do doente. Nem, na maioria dos casos, da família. São o espelho de um Estado que envelheceu sem se preparar para cuidar de quem envelhece.