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O Destino marca a hora…

Quis o destino que eu tivesse nascido num Destino. Quis o destino que o Destino que me calhou em sorte fosse um rochedo, não muito grande, mas suficientemente grande para poder albergar umas largas dezenas de milhar de pessoas ou, se preferirmos umas poucas centenas de milhar de pessoas que se agarram a este rochedo com unhas e dentes qual lapas em tempo de defeso que ninguém consegue arrancar da rocha onde estão firmemente agarradas.

Quis o destino que esse rochedo emerso no meio de um imenso oceano tivesse e exercesse uma atracção quase patológica por parte dos que o destino quis que aí nascessem, tão grande a atracção que faz com que mesmo os que tiveram de partir para outros destinos para emergir em outros territórios, mais vastos, com outras oportunidades e atractividades, mantivessem uma forte conexão com a terra que, por entre lágrimas e saudades, os viu partir.

Quis o destino que esse rochedo tivesse um arvoredo de tal forma exuberante que os seus descobridores o chamaram de Madeira.

Quis o destino que esse rochedo chamado Madeira, que juntamente com os outros rochedos que emergem por perto, o Porto Santo, as Desertas e as Selvagens (estas um pouco mais longe, da vista mas não do coração) fosse longamente conhecido como Arquipélago da Madeira.

Quis ainda o destino que por via das vicissitudes do tempo e da vida dos seus habitantes, esse rochedo fosse redenominado de Região e mais tarde de Destino.

Quis o destino, então, que eu tivesse nascido na Madeira, crescido numa Região e envelhecido num Destino.

Coisas que o destino tece.

Como cantou Tony de Matos há bué de tempo: “o destino marca a hora/pela vida fora/que havemos de fazer/o que rege a sorte agora/foi escrito outrora/logo ao nascer”.

Quis o destino que para se poder chegar até este rochedo, havia que atravessar um oceano, ora calmo ora turbulento e tempestuoso, em barcos que tantas vezes lutavam contra as adversidades que o vento e as marés lhes colocavam pela frente, primeiro, e contra esses mesmos ventos, já não em barcos como tinha sido, mas em aviões que os substituíram como principal meio de transporte.

Quis o destino que as vicissitudes da evolução e progresso que todos os seres humanos ambicionam para si e para os seus tivessem tomado direcções que, motivadas pelos ditames de quem detém o poder lá longe, e longe, muito longe do conhecimento das realidades, necessidades e idiossincrasias próprias de um rochedo, foram forçando os seus habitantes a reagir na procura de direcções diferentes, mais condizentes com as reais necessidades, realidades e idiossincrasias, tantas vezes não compreendidas pelos que detêm o poder lá longe.

Quis o destino que, para todos quantos ambicionassem estar, viver, visitar, turistar no rochedo Destino, tivessem de se valer de um aeroporto que tantas e tantas vezes os ventos que o destino tece o limitam ao ponto de não ser possível sequer chegar e de ter de ver a sua vida emperrada pelos desígnios que o destino tece.

Quis o destino que o prazer e a alegria com que os habitantes do rochedo mostravam com orgulho a força e abnegação que foram necessidade e realidade durante séculos para que os descendentes dos seus antecedentes pudessem usufruir de tudo o que tinha sido construído e edificado com labor e suor, tivesse sido a pouco e pouco desviado para que o Destino pudesse oferecer aos que o demandam, não para viver uma vida, mas para vivê-lo durante uma semana, uma espécie de parque de diversões gigante, bom para quem nele se diverte, mas não tão bom para quem nele labuta, e que assim limita o seu usufruto para os que o vivem uma vida inteira.

Vale a pena ser Destino numa Região que já foi Madeira? Só o futuro o poderá dizer.

Na canção, o Tony de Matos continuava: “o relógio marca o tempo de viver/todos nós somos iguais/se o destino nos condena/não vale a pena/lutarmos mais”.

Não concordo com a letra desta canção, mesmo reconhecendo que às vezes se torna difícil o caminho.

Concordo mais com Fernando Pessoa no seu Mar Português: “ó mar salgado, quanto do teu sal/São lágrimas de Portugal!/Por te cruzarmos, quantas mães choram,/Quantos filhos em vão rezaram!/Quantas noivas ficaram por casar/Para que fosses nosso, ó mar!/Valeu a pena? Tudo vale a pena/Se a alma não é pequena.”