Dentro de 5 meses e 2 dias, os Estados Unidos da América celebram os 250 anos da declaração de independência daquele que é, ainda hoje, a maior economia do Mundo, apesar das ameaças vindas do Leste, nomeadamente da China. O reeleito presidente norte-americano, que aposta numa política de tarifas aduaneiras como moeda de troca, mais política do que económica, ameaçou tornar um dos ícones desse momento único na fundação do seu país, ocorrido a 4 de Julho de 1776, mais do que uma memória, uma raridade.
Os apreciadores de Vinho Madeira, aqui e do outro lado do Atlântico, conhecem a História do brinde dos 'Pais Fundadores' da América e que tem sido contada e recontada, inclusive explorada em termos de imagem comercial. A verdade é que fará agora um ano que Donald Trump ameaçou impor tarifas extraordinárias, em particular, aos vinhos importados da Europa. E a compra do Vinho Madeira, tal como outros famosos deste lado, passou a ser mais caro.
Comercialização do Vinho Madeira em 2025 caiu em quantidade e valor
Quebras de 1,2% em valor e 2,6% em quantidade face ao ano precedente
Em meados de Março, o presidente dos EUA ameaçou que iria impor tarifas de 200% sobre os vinhos, champanhes e outras bebidas destiladas provenientes da União Europeia, porque, dizia, esta que é "uma das autoridades mais abusivas e hostis do mundo em matéria de impostos e tarifas", acabara de impor uma tarifa de 50% sobre o whisky dos EUA.
Meses depois e após negociações, a tarifa acabou por ficar pelos 15% a partir de Setembro do ano passado, com os segmentos mais baixos a serem os mais penalizados, sendo que o sector nacional do vinho esperava um aumento de preços no consumidor de 30% e, por consequência, uma redução do consumo norte-americano de vinhos nacionais. No final das contas, o impacto não foi nem tão desastroso, nem tão grave, mas houve algum impacto, sobretudo nos últimos cinco meses do ano passado.
Entram hoje em vigor taxas de 15% dos EUA sobre UE
As tarifas acordadas entre os Estados Unidos e a União Europeia (UE), no valor de 15%, começam hoje a ser aplicadas, com exceções para alguns setores.
Resumindo, no ano de 2025, o mercado dos Estados Unidos da América continuou a ser o principal destino extracomunitário do Vinho da Madeira, apesar deste contexto de pressões tarifárias e ajuste da procura que marcaram o comportamento das exportações ao longo do ano. Segundo os dados oficiais, a comercialização total de Vinho da Madeira rondou os 3,1 milhões de litros, gerando aproximadamente 20,6 milhões de euros em receitas de primeira venda, o que representa uma diminuição de 2,6% em quantidade e 1,2% em valor face a 2024. No conjunto dos mercados extracomunitários, os Estados Unidos mantiveram-se como o destino mais importante, mas também registaram uma ligeira retracção nas exportações de Vinho da Madeira: as vendas para este mercado caíram cerca de 0,8% em volume e 4,5% em valor ao longo de 2025, reflectindo a combinação de uma menor procura e das condições comerciais adversas.
Em termos nacionais, o dados do sector apontam para uma queda significativa das exportações de vinhos portugueses para os EUA ao longo de 2025 — no caso do vinho português em geral, os embarques para os Estados Unidos recuaram cerca de 9,7% nos primeiros nove meses do ano e a queda continuou acumulando perdas de valor superiores a 9 milhões de euros, resultado das tarifas alfandegárias aplicadas e das incertezas que isso gerou entre importadores e distribuidores.
Ainda mais recentemente, o Jornal Económico dava conta que a exportação de vinho português para os EUA sofrera uma quebra de 20% até Novembro de 2025, naquele que é "o terceiro mais importante para o setor em termos de valor", as vendas "atingiram os 75,9 milhões de euros, o que representa uma queda da ordem dos 20% em relação aos 94,8 milhões atingidos no mesmo período de 2024". Citando o presidente da ViniPortugal, Frederico Falcão, estas "são as consequências das tarifas que já estão a fazer-se sentir", acreditando que iriam, "com certeza, manter-se quando as contas totais do ano estiverem fechadas".
Ora, a Madeira, como se viu, este mercado caiu 0,8%, muito longe dos números nacionais, sobretudo porque é praticamente apenas o Vinho Madeira que é exportado para aquele mercado (os restantes vinhos e espumantes madeirenses valiam 783 litros e 26.178 euros em 2024). E se formos ver os meses, então a imagem fica mais nítida. Dezembro de 2025 foi o melhor de sempre em quantidade - mais de 40 mil litros - e igualmente em valor - mais de 565 mil euros, tornando o último trimestre de 2025, como o terceiro melhor 4.º trimestre nos dados disponíveis (desde 2010 há informação mensal), somente superado pelos mesmos períodos (Outubro a Dezembro) de 2019 e 2017.
Ou seja, o impacto das tarifas, implementadas pelo governo dos EUA no contexto de disputas comerciais com a União Europeia, tem sido apontado por produtores e associações sectoriais como um dos principais factores por detrás deste abrandamento — uma vez que maiores custos alfandegários e incerteza sobre a sua evolução tendem a reduzir a competitividade do produto e a adiar decisões de compra dos distribuidores norte-americanos, mas no caso particular da Madeira o impacto no total do ano é maior do que na análise trimestral e até mensal.
Os dados em baixo permitem perceber essa evolução, com o destaque para o mês de Agosto (além do Dezembro já referido), que também foi o melhor oitavo mês desde que há registo. Ou seja, o mercado reagiu com as maiores vendas de sempre no último mês antes da entrada em vigor das novas tarifas e no último mês do ano, aliviando e muito as perdas acumuladas anteriormente. Foram os únicos meses, efectivamente, perfeitos do ponto de vista das vendas em quantidade e valor.
Apesar disso, importadores e produtores continuam a destacar a importância estratégica de longo prazo do mercado americano, onde o Vinho da Madeira goza da referida tradição secular que remonta ao século XVIII. Esse contexto histórico tem motivado acções promocionais específicas em grandes centros urbanos e esforços para reforçar a imagem do produto junto de consumidores e canais de distribuição nos EUA, por parte dos operadores e do IVBAM.
A recuperação plena das exportações - apesar de tudo 2025 foi o quinto melhor ano em quantidade e o oitavo melhor em valor comercializado - e o crescimento sustentável das vendas parecem condicionados - o peso na quantidade total de vinho Madeira vendido subiu de 6,7% para 6,8%, mas o valor baixou de 12,5% para 12,1% - a uma resolução mais estável do quadro tarifário e a uma maior previsibilidade nas relações comerciais transatlânticas, como aliás em qualquer relação comercial.