Boas Entradas à Arte de Pensar
O que deixamos e o que levamos como guião imperecível e inspirador para o ano novo? Uma questão, cujo enquadramento pode parecer alheio ao compasso acelerado do dia-a-dia do cidadão comum e desenraizado de atuais fenómenos de quotidianos locais, regionais e internacionais. Passando por alheamento, nestes primeiros dias do ano, nunca é descabido refletirmos sobre o que nos apoquenta como cidadãos livres e conscientes, tendo em conta, o alinhamento do freio do ano novo na máquina imparável do tempo. Pintado por guerras, por desequilíbrios ambientais, sociais e educacionais, as boas entradas, trazem já consigo um ritmo de vida apressado e angustiado deixando-nos atordoados com situações de conflito e de violência que cada um de nós deixou mal-arrumado, assim como, aquelas, deixadas pelos titulares da ordem mundial da nossa casa comum. Deixamos vezes sem conta, os comodismos individual ou coletivo se agigantarem e dominarem a força da nossa voz, do nosso protesto e da nossa consciência solidária e participativa. Deste facto, somo levados ao insano do descartável, do alheamento e dos amuletos de adorno que, connosco, fizeram a viagem temporal de 2025 e sem apercebermo-nos que o trajeto continuará a fazer-se pelos mesmos apeadeiros e estações da velha linha contorcida pelas nossas repetições. Neste arranca e pára assente numa espiral em crescimento, atraca o soterramento da nossa memoria e dos nossos silêncios impenetráveis a clarões de esperança e aos gritos de multidões em fuga, perseguidas por rivalidades políticas e religiosas, por catástrofes naturais e pela tirania dos que pretendem impor uma nova ordem mundial, robustecida pela voraz da “economia que mata” (Papa Francisco). Pior seria, se ao morrer o ano velho permitíssemo-nos fingir, que estas realidades, não atingem a segurança e o conforto da nossa casa, do nosso sítio, da nossa cidade ou país e, que, por melhor das hipóteses, nos passam à margem sem causar feridas físicas, emocionais e psicológicas. Neste sentido, a nossa Região não está imune a estas circunstâncias, muito menos, àquelas que resultam dos graves problemas provocados pelo aumento dos níveis de consumos de drogas e de álcool, e aos lóbis poderosos dos Hospitais Privados e das Seguradoras sobre o funcionamento gratuito do sistema regional de saúde, uma conquista do 25 de Abril e do nosso Estatuto Autonómico. Ver estas instituições poderosas com desdém não passa por uma falsa preocupação, visto que, as suas ambições atingem proporções cada vez maior, caminhando para a exclusão da maioria dos madeirenses de usufruir de cuidados primários de saúde gratuitos e de qualidade. Todavia, figuras públicas da Região têm levantado o véu sobre as parcerias público-privado, o qual deve ajudar-nos a refletir, criticando os desequilíbrios nefastos para os bolsos dos contribuintes. Pensar é uma arte, que nos deve caracterizar como um povo incomodo, de ações solidarias, reivindicativas e culturais, um legado reivindicativo que muito se deve a tantos rostos públicos da saudade, sobretudo, àqueles que em 2025 nos deixaram, como: Dom Teodoro Faria, Pe. Martins Júnior, Fátima Pita Dionisio, Zita Cardoso, Luís Jardim, Manuel Leça, Pascal Errante, Jorge Sá, José António Camacho, José Alberto Cardoso, Emanuel Jardim Fernandes, João Alves de Sousa, etc. A todos eles a nossa eterna gratidão.
Severino Olim