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Testemunha do atentado lamenta preconceitos que perduram desde 2001

Foto Shutterstock
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O professor de economia Luís Cabral que testemunhou de perto os atentados contra Nova Iorque disse à Lusa que a sociedade norte-americana ainda não conseguiu superar uma série de preconceitos que ficaram instalados desde 2001. 

"Os Estados Unidos são este 'melting pot', esta mistura de raças e de origens e de pessoas e de ideias e nesse sentido o '11 de setembro' foi um grande entrave", disse à Lusa Luís Cabral, referindo-se aos efeitos que ainda perduram dos atentados da Al Qaeda.

Para o diretor do departamento de Economia da Stern Scholl of Business da Universidade de Nova Iorque, "além do racismo de que tradicionalmente se fala nos Estados Unidos, nomeadamente em relação aos 'afro-americanos'", parte da sociedade sofre ainda de um preconceito muito forte contra as populações do Médio Oriente, ou populações árabes ou populações religiosamente islâmicas.

"O norte-americano médio confunde muito as questões e é um fator muito negativo que me afeta pessoalmente porque tenho muitos amigos ou conhecidos que são do Médio Oriente, ou que são muçulmanos ou que são árabes. Muitos são mais americanos do que os americanos que têm o preconceito contra eles. Isto perturba-me", disse sublinhando que passadas duas décadas o caráter da violência do atentado continua a ser chocante.

"Todos temos de ter crença na bondade da humanidade. É impossível viver sem o mínimo dessa crença e, nesse sentido, é um choque porque uma pessoa tem um encontro muito imediato e de forma muito visível com a maldade. Custa ver a maldade de frente", afirmou Luís Cabral.

O professor de Economia chegou aos Estados Unidos no ano 2000 e na altura do '11 de setembro' estava a começar o segundo ano letivo na Universidade de Nova Iorque, que fica situada a pouco mais de um quilómetro do World Trade Center.

No momento em que se deu o primeiro embate encontrava-se numa sala de aula e um aluno, consultando a internet, disse que um avião tinha embatido contra uma das Torres Gémeas.

"Um outro professor veio avisar que tinha havido um acidente, mas que o melhor era continuarmos normalmente e eu continuei a dar a aula", recorda. 

Não demorou muito tempo até ao segundo embate e nesse momento o professor e os alunos saíram e viveram "todo aquele caos".

"A proximidade física manifestou-se pela quantidade de fumo e um cheiro que nunca esquecerei. Uma coisa horrível", refere acrescentando que muitas pessoas foram indiretamente afetadas.

"Um aluno disse-me que tudo o que tinha trazia vestido, além de uma mochila, porque se tratava de um dos vários alunos que viviam num dos prédios vizinhos das Torres Gémeas e que ficaram destruídos ou totalmente inacessíveis", explicou Luís Cabral. 

"Lembro-me de me questionar: como é que uma cidade pode viver à sombra do terror e dos ataques? A verdade é que lentamente a cidade de Nova Iorque recuperou de forma extraordinária desse grande choque que foi o '11 de setembro'", disse ainda o professor de Economia.

Luís Cabral destaca que o transporte aéreo modificou-se assim como a vigilância nos edifícios, desde o ano 2001 porque os níveis de segurança aumentaram tendo-se verificado igualmente uma grande quebra no turismo "que demorou tempo a recuperar". 

"Em Nova Iorque temos de somar também a crise financeira de 2008 e agora os efeitos da pandemia [de covid-19]. Se voltarmos a janeiro de 2020 posso dizer que Nova Iorque já tinha a vitalidade do ano 2000", refere.

Recordando os dias que se seguiram aos atentados de 2001, Luís Cabral não esquece igualmente o espírito de ajuda que foi invulgar na cidade.

"O ambiente de Nova Iorque e dos Estados Unidos em geral é um ambiente ultra competitivo. É a grande 'selva' da sociedade capitalista, não é só na zona de Wall Street, e de facto nas primeiras semanas houve uma capacidade para cerrar fileiras. As pessoas ajudaram-se umas às outras. Todos colaboramos com as pessoas que estavam na 'frente' como os bombeiros, por exemplo", disse.

No dia 11 de setembro de 2001, quatro aviões comerciais foram sequestrados por terroristas da Al Qaeda, sendo que dois aparelhos colidiram de forma intencional contra as Torres Gémeas do World Trade Center, Nova Iorque, que ruíram duas horas após o impacto.

O terceiro avião de passageiros colidiu no edifício do Pentágono, a sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, condado de Arlington, arredores de Washington D.C..

O quarto avião caiu num campo no Estado da Pensilvânia, depois de alguns passageiros e tripulantes terem tentado controlar o aparelho.

Não houve sobreviventes entre os passageiros dos aviões sendo que no total os ataques contra território norte-americano fizeram mais de três mil mortos.

Os ataques terroristas da Al Qaeda, durante a Administração de George W. Bush, provocaram a intervenção militar dos Estados Unidos contra o Afeganistão que começou a 07 de outubro de 2001 e no dia 20 de março de 2003 a invasão do Iraque. 

Atualmente ainda decorre o processo judicial contra cinco homens acusados de participação e planificação dos atentados.

O processo foi formalmente iniciado em fevereiro de 2008, por comissões militares dos Estados Unidos na base norte-americano de Guantánamo, em Cuba.

A primeira audiência decorreu a 05 de maio de 2012 e devem ser retomadas esta semana.

Entretanto, o Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, em plena crise provocada pela derrota norte-americana no Afeganistão, ordenou na semana passada a abertura de documentos classificados sobre a investigação do 11 de setembro.