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A sociedade que teimamos em manter

Adiar a mudança não cortando raízes centenárias vai continuar a refletir-se numa sociedade cada vez mais desigual

O tema da violência doméstica remete para o crescimento e desenvolvimento de crianças e jovens que integram famílias cuja história de vida está carregada de momentos de agressividade física e/ou psicológica. Para além da violência, a forma como estas famílias se estruturam e se mantêm acresce aos mais novos modelos de identificação e comunicação disfuncionais que trespassam o ciclo familiar e naturalmente se expandem para todas as outras rotinas comunitárias.

São muitas as crianças e adolescentes vitimas de violência doméstica que, em nome da proteção, saltitam de rejeição em rejeição não encontrando nos modelos educativos de substituição à família contenção para a tristeza e revolta que transportam.

A escola também rejeita estas crianças, não no princípio, porque esse é inclusivo, mas na prática. Não consegue descentrar-se do modelo normativo e integrar, de facto, o sentido da inclusão. É verdade que as famílias mais diferenciadas, incluindo aquelas onde a violência doméstica também existe, não aceitam a escola inclusiva e exigem uma escola pública na medida dos seus desejos e exigências. Quem tem, manda.

Existem muitas pessoas interessadas em encontrar soluções. Governantes, equipas especializadas, técnicos, com formação adequada para iniciar um processo de mudança efetiva, esbarram consecutivamente com impossibilidades de um sistema ambivalente que oscila entre a vontade de avançar e o conforto de tudo se manter na mesma.

Insisto neste tema porque trabalho diariamente com o sofrimento de crianças e jovens cuja agressividade, como forma de expressão do seu desconforto, não encontram nos espaços de crescimento compreensão e contenção que facilitem a mudança.

Sem dúvida que a aprendizagem de regras é fundamental para a integração na vida comunitária, mas por si só desgarrada de um ambiente afetivo de aceitação das diferenças e das feridas que a vida lhes vai imprimindo é insuficiente e não produz os resultados esperados.

Há um trabalho coletivo que precisa de ser feito. Adiar a mudança não cortando raízes centenárias vai continuar a refletir-se numa sociedade cada vez mais desigual, agressiva e desajustada. Já somos vítimas de uma sociedade que teimamos em manter. A violência doméstica é uma das consequências, há outras.