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Que cada um cuide dos seus

Até porque a pressão externa leva a reações de defesa, eterna capa dos culpados

Do outro lado da Terra vêm notícias interessantes. No Bangladesh, no decorrer deste ano, houve dois julgamentos mediáticos, ao ponto de fazer levar este país, dos mais pobres do Mundo, para as primeiras páginas dos media, e não por catástrofes naturais, como de costume.

O Bangladesh tornou-se independente em 1971, após uma longa querela com o que hoje se chama Paquistão. Da divisão do britânico Império das Índias resultou a separação da Índia, de maioria hindu, do Paquistão, muçulmano, então dividido geograficamente em dois, Oriental e Ocidental.

A divisão o religiosa não foi suficiente, e o atual Bangladesh separou-se depois de uma guerra com a participação ativa da Índia, interessada em enfraquecer o Paquistão.

O Bangladesh tem cerca de 85% de muçulmanos, e os restantes maioritariamente hindus. Não tem havido querelas religiosas, exceto as importadas. Com efeito, no vizinho Mianmar, a minoria muçulmana Rohingya, radicada na costa, junto ao Bangladesh, entrou em rota de colisão com a maioria budista, e o resultado foi a perseguição e o genocídio dos Rohingya, cujas imagens foram amplamente difundidas. E, tal como na Europa, dos conflitos externos sobrou uma massa de 300.000 refugiados, sobrecarregando o já depauperado Bangladesh.

De onde se poderia acumular um grande capital de ressentimento – o que aconteceu com certas minorias, como em qualquer parte do Globo. Desse sentimento derivaram duas ações trágicas: a imolação pelo fogo de uma estudante de 18, que tinha denunciado um professor duma madrassa (escola islâmica) por assédio sexual; e o atentado contra um café, em que foram torturados e mortos 22 clientes, na maioria estrangeiros.

No primeiro caso, 18 autores da imolação foram condenados à morte, por ação ou incitamento. No segundo caso, os cinco autores materiais foram abatidos pela polícia, mas sete considerados autores morais foram agora também condenados à morte.

Não vamos sequer questionar a pena de morte: ela está fora da nossa idiossincrasia e do nosso ordenamento jurídico. Vamos sim analisar o procedimento judicial.

Num Mundo de bipolaridades, internas e externas, há sempre uma tendência para julgar em termos de “nós” e “eles”. Os “nós”, com benevolência; os “eles” com severidade.

Só que por aí se extremam as posições, sem que justiça seja feita. Talvez o melhor exemplo da duplicidade de critério seja o dito de Franklin D. Roosevelt, em 1939, sobre o ditador na Nicarágua Anastasio Somoza: “... may be a son of a bitch, but he’s our son of a bitch.” (pode ser um filha da ..., mas é o nosso filho da...).

O exemplo vem de longe, mas o recado é simples: que cada um trate dos seus. Até porque a pressão externa leva a reações de defesa, eterna capa dos culpados.

Sobretudo quando o acusador externo tem telhados de vidro...