Secretário de Estado diz que é preciso combater segregação na escola

19 Nov 2017 / 04:03 H.

João Costa exemplifica com os casos das moradas falsas e para turmas só para bons alunos nas escolas públicas

O secretário de Estado da Educação, João Costa, afirmou ontem que é preciso combater “instrumentos de segregação” que existem dentro da escola pública, apontando para os casos das moradas falsas e para turmas só para bons alunos.

“Temos de combater instrumentos de segregação. Mesmo dentro da escola pública, há instrumentos de segregação”, disse João Costa, durante as Comemorações dos 40 anos da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), em Coimbra.

O membro do executivo sublinhou que “alguns alunos estão em determinado tipo de escolas”, havendo uma diferenciação entre escolas, recordando o movimento contra as moradas falsas que demonstra esse tipo de segregação.

Mas, apontou, mesmo dentro das escolas, por vezes, procura-se “guetizar”.

“Até na escola, há turmas daqueles e as turmas dos outros”, notou o secretário de Estado da Educação, frisando que há dados que demonstram que a mistura entre alunos de diferentes meios e com diferentes capacidades “potencia bons resultados”.

João Costa sublinhou que os alunos que ficam “todos juntos em ambientes deprimidos aprendem menos do que em turmas mistas”.

Falando para uma plateia composta essencialmente por pais, o membro do Governo frisou que “é inadmissível” que haja turmas divididas pela capacidade dos alunos ou pelo contexto socioeconómico em que cresceram.

João Costa pegou no seu próprio exemplo enquanto aluno, contando que cresceu num “ambiente com colegas com vidas complicadíssimas”, sendo que aprendeu “mais com eles do que nalgumas coisas” que ouvia na sala de aula.

Face ao diagnóstico, o secretário de Estado realçou que é preciso trabalhar para uma escola mais inclusiva, garantindo mais sucesso junto daqueles que vêm de meios mais desfavorecidos.

O ex-ministro da Educação David Justino, que também participava no evento da Confap, concordou que o conceito de inclusão é “fundamental nos sistemas educativos”, fazendo um diagnóstico semelhante.

A discriminação e segregação dentro do sistema de ensino público, afirmou, vincando que esta não se encontra apenas nas moradas falsas para matricular os alunos em algumas escolas.

“São muitos os casos de alunos discriminados, muitas vezes remetidos para escolas que elas próprias são discriminadas e há esta dupla combinação da discriminação do aluno e da escola”, notou o também ex-presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE).

Segundo David Justino, há uma associação entre escolas com elevada percentagem de alunos filhos de imigrantes de 2.ª e 3.ª geração e escolas com elevado insucesso escolar.

Para o ex-ministro, o problema não se coloca apenas nas escolas, mas também na forma como as próprias cidades foram sendo ordenadas, com “zonas ricas, zonas de classe média e zonas de exclusão”.

No entanto, defendeu, é possível ter-se “uma escola mais inclusiva”, lembrando “que isso não vai prejudicar os alunos melhores”.

Durante o evento, o antigo governante deixou ainda um alerta relativamente à descentralização na educação, da qual é um defensor, mas que poderá aumentar as desigualdades.

“Um dos cuidados tem a ver com o próprio conceito de diferenciação pedagógica”, salientou, frisando que utilizar respostas educativas diferenciadas para problemas educativos diferenciados pode tornar os melhores alunos “ainda melhores”, mas não traz grandes resultados para os alunos mais fracos.

“É algo que nos devia fazer pensar”, concluiu.

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