Reduzir IRS não seduz jovens emigrantes em França para o regresso a Portugal

Paris /
03 Set 2018 / 05:01 H.

A proposta de redução de 50% no IRS, avançada pelo primeiro-ministro português, não é suficiente para cativar a atenção de jovens emigrantes que partiram para França nos últimos anos, como os próprios admitem, preferindo falar em salários e estabilidade.

Uma cientista, uma dentista, um engenheiro e um operador de atrações na Eurodisney, emigrantes portugueses em França, consideram a redução proposta por António Costa, igualmente líder do PS, para o Orçamento Geral do Estado de 2019 como insuficiente para os fazer regressar, confessaram à agência Lusa.

A cientista Marta Lourenço chegou a França em outubro de 2015, trabalha no Institut Pasteur, em Paris, e gostava de regressar a Portugal, mas afirma que não é a redução de 50% no IRS que a vai convencer a voltar.

“Eu gostava muito de voltar a Portugal mas não é esta nova proposta de pagar menos IRS que me faria voltar. O que me faria voltar era arranjar uma posição, um trabalho que me desse alguma estabilidade. Em Portugal faz-se muito boa ciência, o problema é não haver uma política que faça com que os cientistas não sejam trabalhadores precários mas que sejam considerados trabalhadores como toda a gente”, explicou.

A jovem, de 27 anos, deverá concluir o seu doutoramento em microbiologia no Institut Pasteur no final de 2019 e por agora pensa ficar por França, onde, mesmo que não encontre logo trabalho, terá acesso ao subsídio de desemprego.

“Não devo precisar, mas se precisar tenho alguma segurança. Aqui em França há contratos permanentes para cientistas, até aqui no Instituto, mesmo não sendo professor, coisa que em Portugal não há. Em Portugal, quando acaba a bolsa, acabou. O ser tão precário é o que faz com que as pessoas não voltem para Portugal”, considerou, reiterando que o que a faria regressar é que “em Portugal os cientistas não tivessem um estatuto tão precário”.

Já Adriana Gonçalves, de 27 anos, chegou a França apenas há um ano e vê a proposta de redução de 50% do IRS como “insignificativa” e “uma forma de deitar areia aos olhos das pessoas”.

“A medida não me faria voltar. De todo. Como médica-dentista não é suficiente porque não irá resolver a base do problema. É uma medida miserável e não vai resolver nunca o problema da emigração ao nível dos jovens, quer dentistas, quer enfermeiros. Não vai resolver o cerne da questão que é criar estruturas para impedir que se emigre e isso é olhando para os problemas de cada profissão”, considerou.

A jovem disse que no ramo da medicina-dentária há muitos problemas em Portugal, onde o que se ganha “nunca é um salário digno”, onde a medicina dentária não está integrada no Sistema Nacional de Saúde e onde a ausência de regras faz prosperar a “publicidade enganosa” e “muita exploração de jovens dentistas”. A solução é olhar para fora.

“Tem que haver uma gestão da medicina dentária no país é é preciso olhar para os países que funcionam bem, como a Suécia, Suíça, Dinamarca, França, para resolver o que está mal”, afirmou a dentista, alertando que só assim se corta o problema pela raiz.

Nos quatro anos que antecederam a sua saída de Portugal para Rouen - “quatro anos de luta, esperança, persistência que as coisas fossem melhorar” -, Adriana Gonçalves não teve falta de trabalho, mas acabou por saturar das condições laborais, do salário e do “feedback negativo” da profissão. Partiu e só regressa quando se puder “realizar profissionalmente em Portugal”, apesar das saudades da família e dos amigos.

O engenheiro José Constantino Sousa, que trabalha na empresa de operação e manutenção de infraestruturas Egis Projects, admite que a redução de 50% de IRS é apelativa, mas “não é suficiente por si só” para o fazer regressar.

“O que me faria regressar era ter uma oportunidade de emprego que, pelo menos, se possa equiparar à qualidade de vida de Portugal, que permitisse viver sem dificuldades. Claro que a redução do IRS ajudaria, mas não seria a única coisa que me faria retornar”, explicou este portuense, de 40 anos.

José Constantino Sousa foi para Versalhes, na região de Paris, em 2014, quando surgiu uma oportunidade de evoluir no grupo em que trabalhava em Portugal. Em França, rapidamente se apercebeu das diferenças no mercado de trabalho.

“É muito diferente. A França tem melhores condições, os valores salariais são altos e tem melhores condições ao nível da segurança social, e também há bónus. Aqui consegue-se ter um salário que permite viver para as condições de vida que são mais altas do que em Portugal. No nosso país, relativamente àquilo que se paga, os salários são mesmo muito baixos”, concluiu.

Formado em Turismo, Luís Lopes chegou em 2014 à região de Paris e até tem “medo de ir para Portugal outra vez”, pelo que as medidas propostas por António Costa há uma semana também são insuficientes para o fazerem regressar.

“Isso é muito bonito, mas era preciso haver trabalho lá. Agora, sair daqui de um trabalho, ir para lá à procura, não encontrar. Para que servem algumas benesses nos impostos se a gente não tem trabalho lá? O problema principal é o mercado de trabalho. Eu estive lá muito tempo e não arranjava nada”, explicou o português de 38 anos.

A trabalhar na Eurodisney como operador de atrações, Luís Lopes admite: “claro que gostava de voltar para Portugal”. Ainda assim, em França conseguiu um contrato de trabalho sem termo e em Portugal só foi tendo “contratos temporários”.

“Pouco a pouco, Portugal fica condenado. Está tudo a ir para o estrangeiro. Vamos ver se melhora. Eu gostava de voltar porque é o nosso país, mas não sei”, desabafou, pouco confiante, o português de Chaves.

Outras Notícias