Recrutas do Curso de Comandos não foram refrescados “para não atrasar instrução”

Lisboa /
29 Jan 2018 / 15:28 H.

O médico responsável pelo apoio sanitário dos cursos de Comandos disse, hoje, em tribunal que o director e o comandante do 127.º curso, no qual morreram dois recrutas, recusaram-se a refrescar os instruendos “para não atrasar a instrução”.

O arguido e capitão Miguel Domingues relatou ao Tribunal de Instrução Criminal (TIC) de Lisboa que, depois de constatar no local do exercício a existência de recrutas com “cansaço extremo e exaustão acima do normal”, aliado ao intenso calor, sugeriu, no período de almoço, ao tenente-coronel Mário Maia, director do curso, e ao capitão Rui Monteiro, comandante da Companhia de Formação, que os recrutas fossem “molhados” ou levados a um “charco”, antes da instrução da tarde, para baixar a temperatura corporal.

O médico afirmou que ambos consideraram “boa” a sua sugestão, mas que a mesma não se concretizou “por não haver tempo e para não atrasar ou atropelar os horários” do curso. “Teria sido óptimo, mas efectivamente não aconteceu”, frisou o capitão Miguel Domingues, no TIC de Lisboa, onde decorre a fase de instrução do processo relativo à morte dos recrutas Hugo Abreu e Dylan Silva, do 127.º curso de Comandos, em Setembro de 2016.

O médico contou ainda que, na mesma ocasião, alertou o capitão Rui Moreira para a “necessidade de efectuar hidratação” dos recrutas, sugestão esta que foi aceite. Contudo, o clínico desconhece se todos os instruendos receberam ou não essa hidratação.

Pelas 16 horas, de 4 de Setembro de 2016, o médico disse que propôs a interrupção da prova, o que veio a acontecer, pois a essa hora já tinha “um terço (23)” dos 67 formandos na enfermaria, devido à limitação de material de que dispunha naquele momento, à necessidade de prestar os cuidados de socorro, assim como efectuar contactos com vista a que o curso pudesse ser posteriormente retomado.

Além disso, havia o “risco” de mais recrutas aparecerem com as mesmas queixas.

O médico salientou que desde 2011, ano em que assumiu a responsabilidade pelo módulo sanitário de apoio aos cursos de Comandos, “assistiu centenas de outros recrutas” com os mesmos sintomas que os do 127.º curso apresentaram, mas com uma diferença: ter um terço dos recrutas na tenda, de uma só vez.

Em Junho, o MP acusou 19 militares no processo relativo à morte de dois recrutas dos Comandos e internamento de outros, considerando que os arguidos actuaram com “manifesto desprezo pelas consequências gravosas que provocaram nos ofendidos”.

“Os princípios e valores pelos quais se regem os arguidos revelam desrespeito pela vida, dignidade e liberdade da pessoa humana, tratando os ofendidos como pessoas descartáveis”, indica a acusação assinada pela procuradora Cândida Vilar.

Da lista dos 19 acusados por abuso de autoridade por ofensa à integridade física no processo desencadeado pela morte dos recrutas Hugo Abreu e Dylan Silva e pelo internamento de outros constam oito oficiais do Exército, oito sargentos e três praças, todos do Regimento de Comandos.

Entre os acusados está o tenente-coronel Mário Maia, director da primeira prova (Prova Zero) do 127.º curso de Comandos, o capitão Rui Monteiro, Comandante da Companhia de Formação do mesmo curso, Miguel Domingues, capitão e médico responsável pela equipa sanitária, e o sargento enfermeiro João Coelho.

Dois recrutas morreram e vários outros receberam assistência hospitalar durante o treino do 127.º Curso de Comandos, na região de Alcochete, distrito de Setúbal, a 4 de Setembro de 2016.

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