Maria Conceição quer ser primeira portuguesa chegar ao Pólo Sul

Trata-se de mais uma iniciativa de angariação de fundos da já primeira mulher portuguesa a alcançar o cume do monte Evereste

01 Jan 2018 / 15:55 H.

A portuguesa Maria Conceição inicia na quarta-feira mais um desafio para angariação de fundos para uma causa solidária que a pode tornar na primeira mulher portuguesa a chegar ao pólo sul.

A filantropa, que em 2013 se tornou na primeira mulher portuguesa a alcançar o cume do monte Evereste, recebeu recentemente a confirmação oficial que somou o seu sétimo recorde mundial após ter completado seis triatlos Ironman em seis continentes diferentes em apenas 56 dias.

O esforço para completar o desafio deixou lesionada durante vários meses a antiga assistente de bordo, mentora da Fundação Maria Cristina, que financia a educação de crianças pobres do Bangladesh.

Mas em Setembro começou a planear uma nova campanha para o que apelida de “angariação de fundos radical” porque precisa do dinheiro para falta para pagar as propinas e refeições de 40 das 124 crianças que tem a cargo para começarem as aulas em janeiro numa escola em Dhaka.

“Há pessoas que fazem desafios semelhantes e dizem que é para caridade, mas não é sempre verdade, geralmente fazem isso para realizar um sonho ou um desejo. Sinceramente, eu faço estas coisas para manter a Fundação, eu preciso de publicidade”, garantiu, em entrevista à agência Lusa por email.

Residente no Dubai há 12 anos, Maria Conceição confessa que “odeia” o frio e ainda recorda o sofrimento que passou durante a caminhada que fez em 2011 para atingir o pólo norte.

Desta vez, apesar de ainda vigorar o verão antárctico, terá de enfrentar temperaturas que nunca sobem acima dos 25 graus centígrados negativos e que podem descer até aos 40 graus centígrados negativos, agravadas pelos ventos fortes.

A exposição por mais de 30 segundos a temperaturas destas podem resultar em queimaduras graves na pele e, em certas situações, à perda de dedos das mãos ou dos pés.

“As tempestades podem acontecer a qualquer momento e é nesta altura que se torna mesmo perigoso, os ventos intensos podem derrubar tendas e não há onde nos refugiarmos. Felizmente, como é verão, as tempestades são menos frequentes, mas durante o inverno até os cientistas têm de sair das bases porque o clima é mesmo muito mau”, conta.

Para se preparar para a viagem, que implica estiradas diárias de oito a 12 horas, nas últimas semanas Maria Conceição treinou arrastando pneus na praia ou subindo escadarias superiores a 100 degraus com mochilas carregadas com dezenas de quilos.

“O polo sul é principalmente um desafio de resistência, um longo caminho percorrido em esquis, puxando um trenó que pesa entre 30 e 50 quilos, que é quase o meu próprio peso. Durante a maior parte da expedição, a altitude será superior a 3 mil metros, o que tornará o esforço ainda mais difícil e o risco de contrair a doença da altitude”, descreveu.

Na quarta-feira, vai voar do Chile para o acampamento de base da Union Glacier, onde terá de aguardar as condições meteorológicas favoráveis para esquiar os 111 quilómetros até o Pólo Sul, que espera atingir antes de 13 de janeiro.

Vai fazer o percurso integrada numa pequena expedição liderada por um explorador experiente da Antárctica, que tratou das licenças necessárias, e a logística está a cargo de uma empresa, mas o resto depende de cada participante.

Maria Conceição resolveu dificultar a tarefa e compromete-se também a subir os 4.892 metros do monte Vinson, o mais alto da região, o que espera fazer entre 16 e 19 de Janeiro, juntamente com apenas alguns dos companheiros de expedição.

Nesta campanha de angariação de fundos [https://www.justgiving.com/campaigns/charity/maria-cristina/southpole], a portuguesa está preocupada em obter fundos que contribuam para os 318 mil dólares (265 mil euros) que vão assegurar que todas as crianças que auxilia chegam ao fim dos seus estudos.

“Eu fui adoptada quando eu tinha dois anos e a minha mãe adoptiva morreu quando eu tinha apenas nove anos, por isso eu quero garantir a educação dessas crianças assim que puder. Nunca sabe se me acontece alguma coisa e eu não posso continuar a ajudá-los”, desabafa.

Maria Conceição criou a Fundação Maria Cristina em 2005, inspirada na mulher que a acolheu em casa devido às dificuldades da mãe biológica, para ajudar crianças do Bangladesh a escapar ao trabalho ou casamento infantil.

Além de ajudar no ensino básico, a fundação financia os estudos secundários de forma a fortalecer as bases de futuras carreiras que possam providenciar o sustento das famílias e resgatá-las da pobreza.

É este objectivo que move esta portuguesa crescida em Vila Franca de Xira e que, mais do que o esforço físico ou o risco de morte, está nervosa com as condições gélidas da Antárctica.

“Mentalmente sou forte e tenho treinado muito, mas o frio realmente tira-me fora da minha zona de conforto. Ter que enfrentar um frio extremo todas as manhãs e todos os dias durante três semanas será o verdadeiro desafio”, admite.

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