Fungicida agrícola mais usado no mundo ameaça organismos aquáticos

13 Nov 2017 / 11:16 H.

A aplicação do fungicida agrícola “mais utilizado no mundo”, -- a azoxistrobina -- apresenta “risco para os organismos aquáticos”, revela uma investigação desenvolvida entre 2011 e 2016, anunciou hoje a Universidade de Coimbra (UC).

Financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), o estudo, liderada por Elsa Teresa Rodrigues, do Centro de Ecologia Funcional da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC, pretendeu dar resposta a uma lacuna identificada, em 2010, pela Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA, na sigla original em inglês).

Na sequência do alerta, então lançado pela EFSA à comunidade científica, para a falta de dados sobre os efeitos deste pesticida nos organismos aquáticos, Elsa Rodrigues, que se preparava para “efetuar a sua tese de doutoramento, viu aqui uma oportunidade para responder ao desafio” e, sob orientação de Miguel Pardal, “escolheu estudar a ocorrência, o destino e o efeito da azoxistrobina nos ecossistemas aquáticos”.

Para caracterizar o risco ecológico da azoxistrobina nos sistemas aquáticos, a investigadora contou com a colaboração do Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC) da UC, das universidades de Aveiro e do Algarve, e do Instituto da Água da Região do Norte (IAREN).

Depois de desenvolver e validar metodologias analíticas (que permitissem determinar os níveis de azoxistrobina e de outros cinco pesticidas, em amostras de água e sedimento e em amostras biológicas complexas, como plantas e animais aquáticos), a equipa de investigadores estudou “a variação sazonal e espacial destes pesticidas” no estuário do rio Mondego e ainda a toxicidade da azoxistrobina a diferentes níveis da organização biológica.

“A nível sub-regular foi utilizada a mitocôndria como modelo experimental, tendo sido estes organelos isolados de hepatopâncreas de caranguejo (Carcinus maenas); ao nível celular foram utilizadas seis linhas celulares derivadas de mamíferos e peixes; e ao nível da população utilizaram-se formas larvares e juvenis de vários organismos marinhos”, descreve Elsa Rodrigues, citada pela UC.

Este trabalho “permitiu ainda determinar e validar a concentração máxima sem efeitos para os organismos aquáticos, parâmetro fundamental para a caracterização do risco”, acrescenta a investigadora.

Os resultados do estudo “concluem que existe a possibilidade de haver efeitos adversos no compartimento água resultantes da aplicação agrícola da azoxistrobina”, refere Elsa Rodrigues, adiantando que “o conhecimento agora obtido é um contributo importante para a próxima revisão da EFSA”, em 2021,“ auxiliando a decidir se este fungicida deve ou não continuar a ser comercializado”, sublinha a investigadora da Faculdade de Ciências e Tecnologia de Coimbra.

Este projecto deu ainda “um importante contributo para o desenvolvimento de ensaios ecotoxicológicos alternativos ao uso de peixes (organismos vertebrados) em laboratório”, desenvolvendo “um trabalho de revisão sobre a utilização do invertebrado Carcinus maenas como modelo experimental credível e identificou a linha celular e o ensaio laboratorial mais adequados para substituir os tradicionais ensaios letais com peixes, para o fungicida estudado”, refere a UC.

O estudo foi recentemente distinguido com uma menção honrosa na primeira edição do Prémio de Doutoramento em Ecologia -- Fundação Amadeu Dias, promovido pela Sociedade Portuguesa de Ecologia.