Adesão à greve causa transtorno em todo o país

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08 Nov 2017 / 12:43 H.

Cirurgias e consultas adiadas em hospitais e centros de saúde e utentes descontentes são os efeitos da greve nacional de médicos de hoje que se repetem um pouco por todo o país.

Médicos Adesão de 92% no Alentejo adia consultas e cirurgias

Na região do Alentejo, a adesão à greve de hoje é de “92% e superior” à registada na anterior, que decorreu no dia 26 de Outubro, disse à agência Lusa o secretário regional do Sindicato Independente dos Médicos (SIM), Armindo Sousa Ribeiro.

Segundo o também médico, a adesão à greve nos hospitais e centros de saúde do Alentejo está a provocar, sobretudo, adiamento de consultas e cirurgias e situa-se nos 78% no distrito de Beja, nos 83% no distrito de Évora, nos 89% no distrito de Portalegre e nos 92% no litoral alentejano.

No hospital do litoral alentejano, situado em Santiago do Cacém, só uma das três salas do bloco operatório está a funcionar e o serviço de consultas externas está a ser “afetado” e, por isso, várias cirurgias e consultas foram adiadas, disse Armindo Sousa Ribeiro.

No hospital de Évora, várias consultas externas e cirurgias foram adiadas e só duas das cinco salas do bloco operatório estão a funcionar, precisou.

O mesmo cenário repete-se no hospital de Portalegre, onde apenas duas das três salas do bloco operatório estão a funcionar e várias cirurgias e consultas foram adiadas, disse.

Apesar de a adesão à greve de hoje ser superior à registada na anterior, há mais salas de bloco operatório a funcionar nos hospitais de Évora e Portalegre porque estão “a recorrer a médicos tarefeiros” para a realização de cirurgias, disse Armindo Sousa Ribeiro.

O hospital de Beja é o único do Alentejo com o bloco operatório a funcionar normalmente e, por isso, não houve adiamento de cirurgias devido à greve, indicou à Lusa a delegada distrital de Beja do SIM, Luísa Guerreiro.

Segundo a também médica, “só três médicos fizeram greve” no serviço de consultas externas do hospital de Beja, o que provocou o adiamento de algumas consultas.

A Lusa contactou os conselhos de administração do hospital de Évora e das unidades locais de saúde do Baixo Alentejo, do Norte Alentejano e do Litoral Alentejo, os quais, através de fontes oficiais, remeteram a prestação de dados sobre a adesão à greve para o Ministério da Saúde.

Médicos Adesão ronda os 80% nas unidades de saúde do Algarve

A greve dos médicos está a ter uma adesão de cerca de 80% nos hospitais e centros de saúde do Algarve, sobretudo nas cirurgias programadas e nas consultas, disse à Lusa fonte da Federação Nacional dos Médicos (FNAM).

“A paralisação está a afectar o funcionamento dos blocos operatórios nos hospitais de Faro e de Portimão, com cirurgias adiadas, bem como as consultas externas nos hospitais e centros de saúde”, disse à Lusa Margarida Agostinho da FNAM.

Apesar de ainda não ter conseguido reunir dados concretos acerca do número de consultas, internamentos cancelados e cirurgias adiadas, aquela responsável sublinhou que há uma adesão “muito elevada” dos médicos que provocou a paralisação de especialidades como a Cirurgia e a Cardiologia.

Margarida Agostinho frisou que a greve dos médicos “é um sinal do descontentamento com as condições, cada vez mais degradantes do Serviço Nacional de Saúde, daí ser natural a elevada adesão” dos clínicos.

No hospital de Portimão, nas consultas externas o ambiente na sala de espera era o de um dia normal, embora vários utentes fossem confrontados com a desmarcação e reagendamento de consultas, lamentando que “o tempo perdido com a deslocação” à unidade de saúde.

Marta Ferreira, de 73 anos, considerou que a paralisação dos médicos “causa grandes transtornos a quem precisa de cuidados de saúde, e só prejudica os doentes”.

“É lamentável e inadmissível que os doentes sejam os grandes prejudicados. Os médicos não estão a ter respeito pelas pessoas que mais precisam de cuidados”, destacou.

O cancelamento de consultas foi também o efeito mais visível da greve dos médicos no hospital de Faro, embora algumas consultas tenham decorrido com normalidade.

Segundo Margarida Agostinho da FNAM, das 820 consultas previstas, apenas se terão realizados cerca de 140.

A greve dos médicos decorre hoje em todo o país e foi convocada pelo Sindicato Independente dos Médicos (SIM) e Federação Nacional dos Médicos (FNAM) face à ausência de resposta do Governo às propostas dos sindicatos.

Os médicos reivindicam uma redução de horas extraordinárias anuais obrigatórias, as chamadas horas de qualidade (durante a noite), a redução do trabalho de urgência das 18 para as 12 horas semanais e a redução da lista de utentes por médico de família dos atuais 1.900 para os 1.500.

Consultas e algumas cirurgias adiadas no Hospital de Aveiro

Em Aveiro a greve dos médicos causou, hoje de manhã, o cancelamento de muitas consultas e algumas cirurgias programadas no hospital, com alguns utentes a manifestarem o seu descontentamento.

Sandra Fernandes, de 40 anos, que veio de Águeda com o seu filho de 15 meses, para uma consulta de pediatria, desconhecia que havia uma greve em curso.

“Está mal feito, porque deviam ao menos de ligar para as pessoas a avisar que havia greve. É um transtorno, porque já não vou trabalhar na parte da manhã e o garoto já não vai para a creche”, contou.

Já Maria La Salette de 78 anos, da Gafanha da Nazaré, diz que tinha conhecimento da greve dos médicos, mas mesmo assim decidiu ir ao hospital para remarcar a consulta de anestesiologia.

Apesar do transtorno para os utentes, reconhece o direito à greve por parte destes profissionais. “Acho que eles também têm direito, assim como nós tínhamos”, disse.

Opinião diferente tem Emílio Ribeiro, de 73 anos, que também viu a sua consulta de urologia adiada por falta de médico.

“Há profissões que não deviam fazer greve, porque isto causa muitos transtornos. Se fosse um familiar do médico ele queria que fosse atendido”, disse.

Melhor sorte teve Carlos Tavares, de 79 anos, de Albergaria-a-Velha, que acompanhou a esposa para uma consulta de hematologia.

“Telefonei para cá e acabaram por me informar que podia vir, porque o doutor estava cá”, disse.

Um dia “perdido” no Hospital Universitário de Coimbra

À saída dos Hospitais da Universidade de Coimbra vários utentes saíram igualmente a lamentar o adiamento de consultas face à greve dos médicos, falando de um dia “perdido” e “estragado”, ao contrário de outros que falam de um dia “normal”.

Adelino Pipa, de 67 anos, veio hoje “à sorte” de Ourém para a consulta que tinha marcada de oftalmologia, sabendo de antemão da possibilidade de não ter consulta devido à greve nacional dos médicos convocada para hoje.

“Correu tudo bem, mas muitos médicos não estavam lá. Houve muita gente que se veio embora”, disse à agência Lusa o utente, contando que algumas pessoas se queixaram de andar 200 quilómetros para não ter consulta.

Vitória Costa saiu do hospital com ar desolado. Tinha uma consulta de otorrino marcada há três meses e saiu hoje às 9 horas de Penacova para o hospital, em Coimbra.

A mulher de 65 anos não sabia que havia greve e lamenta, acima de tudo, o dinheiro (que “é muito pouco”) que teve de gastar no transporte.

“Para mim, estragou-me o dia. Gastei o dinheiro que não tenho [no transporte]”, sublinhou também Fernanda Carmo, de 64 anos, que saiu de Sangalhos, concelho de Anadia, para a consulta que acabou por não ter.

Já José Fernandes conseguiu ser atendido em oftalmologia, mas notou que outras duas pessoas tiveram que voltar para trás.

“Correu tudo bem. Foi um dia normal. É como se não houvesse greve”, nota Adérito Pardal, que esteve no serviço de hematologia.

Já Nelson Midões, apesar de não ter sentido o efeito da greve, notou muito “menos movimento” junto do hospital.

“Isto normalmente é o caos e hoje até se anda com mais facilidade do que é normal”, constatou.

Utentes lamentam transtornos e adiamento de consultas em Vila Real

A greve dos médicos cancelou consultas e causou também alguns transtornos hoje em Vila Real, onde utentes se queixaram de deslocações propositadas de outros concelhos ou de elevadas despesas em táxi.

O cancelamento de consultas foi precisamente o efeito mais visível da greve dos médicos no hospital e centros de saúde de Vila Real, embora muitas outras consultas tenham também decorrido com normalidade.

Ao início da manhã, o cenário na unidade de Vila Real do Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro (CHTMAD) era igual ao de outros dias: parque de estacionamento cheio e salas de espera também com muitos utentes, sentados ou em pé.

Encerrado bloco operatório do hospital de São João, no Porto

O bloco operatório do hospital de S. João, no Porto, está encerrado devido à greve dos médicos, que está a ter uma “adesão elevada”, disse à agência Lusa Merlinde Madureira, da Federação Nacional dos Médicos (FNAM).

A vice-presidente da FNAM referiu que nas consultas externas do hospital de São João, “mais de metade” dos médicos aderiu ao protesto, assim como no internamento.

Merlinde Madureira disse que “ainda estão a ser recolhidos” os dados nos restantes hospitais e centros de saúde, pelo que “só mais tarde” haverá números concretos em relação à adesão na região Norte.

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