Pensar a insularidade

a insularidade de terra, céu e mar é condição de isolamento, pesem fátuas promessas eleitorais

19 Abr 2017 / 02:00 H.

1. De interioridade, periferia e insularidade somos feitos e por elas condicionados, principalmente em lugarejos que a modernidade deixou ao despovoamento. E cá no meio do Atlântico, sem as caravelas de antanho, com viagens aéreas ao preço do salário comum e ventos a soprar aviões para longe, a insularidade de terra, céu e mar é condição de isolamento, pesem fátuas promessas eleitorais, bondades ou malefícios dos sistemas de transporte, argumentos pró e contra regimes de mobilidade, subsidiada ou não. Os constrangimentos da geografia que separam a ilha do continente permanecem sem solução e a continuidade territorial é ainda uma mistificação retórica. Coisas que a democracia, a autonomia, ou a pertença europeia não conseguem solucionar a contento de todos... Ou desafios a estimularem a racionalidade, mais que não seja, em homenagem ao trabalho árduo dos primeiros povoadores...

2. Diz quem sabe, serem as ilhas espaços de território de vulnerabilidade extrema, onde o equilíbrio ecológico é vital, desde a preservação das espécies à proteção dos solos, que não devemos deixar escorrer para o mar. Uma simples caminhada dá-nos conta dos riscos provenientes do desordenamento negligente a que se encontra votada a nossa paisagem fora das áreas urbanas, entregue a espécies invasoras e biomassa combustível para fogos, em espaços outrora cultivados, garantia de sustento, quando o antigo ordenamento do território permitia uma utilização racional da natureza e a sua preservação e conservação sustentável. Hoje, abandonada toda uma prática de séculos entre homem e natureza, cortou-se o diálogo com o passado, esqueceu-se a organização tradicional da vida campestre. O mundo rural perdeu a sua identidade original e na floresta deixamos as espécies infestantes invadirem todo o espaço, com a consequente perda de biodiversidade, fragilidade ecológica, vulnerabilidade e risco para os solos e as populações. O resultado está a ser trágico: abandonado ao continuado acumular de biomassa que ninguém utiliza e cresce em profusão à espera do próximo incêndio, com ou sem helicópteros, é o pasto ideal para os grandes fogos florestais, cada vez mais incontroláveis, com todo o historial recente que se conhece. Alguém aprendeu a lição?

3. “Nós gostamos da floresta e da vegetação? O fogo também!”, ouviu-se há dias na Câmara do Funchal, a técnicos oriundos das ilhas Canárias, onde o cenário dos incêndios florestais é semelhante. Perante uma audiência rendida à pertinência da temática, eles demonstraram formas diversas e simples de prevenção de incêndios: desde o retirar cirúrgico de biomassa para criar zonas de contenção, a queimadas seletivas e circunscritas feitas por bombeiros no inverno, à promoção do pastoreio controlado em zonas periurbanas, um mero retomar de técnicas ancestrais de intervenção e ordenamento do território. E muito mais sobre práticas ambientais sustentáveis e incremento à produção e à economia local. Mas também se soube de interessantes experiências no terreno, em fase de experimentação, da responsabilidade da Universidade da Madeira, sobre os benefícios do pastoreio controlado na promoção da infiltração da água e na regeneração dos solos, com vista a uma adequada reflorestação de áreas ardidas. Também se ouviu lá, que “as mentalidades são cárceres: prendem a capacidade de pensar.” Ou dito de outro modo, somos dominados às vezes pelos velhos do Restelo, ou preferimos ficar à espera de D. Sebastião. Em tempo de comemorar abril, ouse-se quebrar mais estas cadeias.

Júlia Caré

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