Os Heróis da Cidade

19 Mar 2017 / 02:00 H.

Para quem tem filhos pequenos é inevitável conhecer as inúmeras séries de animação que preenchem os canais infantis de televisão. Embora sejam entretenimento para crianças, estas séries de animação são, naturalmente, concebidas por adultos e, como tal, refletem muito mais do que o mundo e as visões infantis. ‘Os Heróis da Cidade’ é uma destas séries de animação. Decorre numa cidade em tudo semelhante à nossa, tudo exceto o facto de não existir uma única alma. Nessa cidade são os veículos quem cumpre as funções humanas. O bombeiro é um camião autoescada (a Bela), o polícia é um carro patrulha (o Paulino), o padeiro e o carteiro são carrinhas (o Berto e o Pedro), o mecânico é um reboque (o Romeu), o agricultor é um trator (o Tito), o presidente é um carro clássico, e assim por diante.

Para quem anda a pé, em particular em zonas mais afastadas do centro urbano, e, em especial, se precisar transportar um carrinho de bebé ou, pior, uma cadeira de rodas, facilmente sente que, tal qual em ‘Os Heróis da Cidade’, a cidade da vida real parece ser para os carros e não para as pessoas. Apesar das correções que têm vindo a ser feitas, o crescimento do Funchal nas últimas décadas, tal como em muitas outras cidades por todo o país, fez-se sem ter em conta a pessoa apeada. Os exemplos são inúmeros e tornam-se mais evidentes à medida que nos afastamos das zonas mais centrais. Quando não há espaço suficiente para ambos, o que encolhe ou desaparece é o passeio pois a estrada é sagrada. Frequentemente o passeio é desviado ou suprimido para dar lugar a estacionamentos. Nos acessos às garagens, e outras propriedades privadas, o passeio é muitas vezes eliminado, sem direito a rebaixamentos para os peões, quando o que deveria existir eram rampas para os carros (à semelhança do conceito passadeira-lomba). O próprio passeio, existindo apenas um, vai saltitando de um lado da estrada para o outro só para que a faixa de rodagem se mantenha o mais linear possível. Quando se coloca uma via em sentido único não é para criar um passeio mas sim para arranjar lugares de estacionamento. Chegou-se mesmo ao cúmulo de afastar as passadeiras dos cruzamentos só para dar lugar à sinalização horizontal, levando a que ninguém as utilize pois significam um percurso bem maior.

Como se vê, a série de animação ‘Os Heróis da Cidade’ parece ser baseada na realidade, mas esta é uma realidade que podemos mudar, ou pelo menos ir mudando. A primeira regra é ter sempre em conta a pessoa apeada quando se fazem obras na cidade e testar essas soluções a pé (ou melhor, numa cadeira de rodas) e não dentro do carro. Não é aceitável que se façam novos arruamentos sem passeio (há exemplos recentes) nem é compreensível que se façam rebaixamentos nos passeios deixando um murinho de 5 centímetros, como parece ser prática dos serviços (o suficiente para as rodas de um carrinho de bebé emperrar ou um idoso tropeçar). Nas estradas/arruamentos sem passeio, mas com espaço suficiente, os mesmos devem ser delimitados nem que seja apenas com tinta. Devem ser estudados os percursos mais utilizados pela pessoa apeada, em particular entre o centro e as zonas circundantes, e garantir as necessárias condições para essa circulação.

Hélder Spínola
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