Democracia e liberdade

Também somos livres de votar, somos livres de ser solidários para além do “emoticon” choroso

11 Jan 2017 / 02:00 H.

A propósito do falecimento de Mário Soares, e apesar do respeito e consideração que perpassou por toda a sociedade portuguesa e por todos os quadrantes políticos, muitos foram os cidadãos que, quer nas redes sociais quer nos comentários online dos orgãos de comunicação social, não se coibiram de manifestar regozijo com o passamento do ex-presidente da república.

Para além de me causar incómodo haver quem, de ânimo leve, deseje a morte de outrem e com isso rejubile, surpreendeu-me a percepção dos ódios que o nonagenário Soares ainda concitava, mais de quatro décadas passadas sobre o fim da longa noite salazarista.

Curiosamente (ou talvez não), muitos dos iracundos acusadores que adjectivaram o macróbio socialista de traidor e criminoso, bastas vezes acobertados na pusilaminidade do anonimato, outras vezes encobertos por avatares virtuais, não perdem uma oportunidade de manifestar um mofento travo de saudade pelo antigo regime.

Mas enfim, não é bem esse o trilho que pretendo seguir nesta reflexão: confrontar semelhante horda de cabotinos seria mera estultícia, pois usam ripostar a argumentos com insultos, metralhados de forma tão indiscriminada que atingem com igual impacto a mensagem e o mensageiro.

Tem sido repetido que o longevo defunto foi o pai da democracia portuguesa e o garante da liberdade no nosso país. Com todo o respeito que me merece, e não desmerecendo o papel fundamental que desempenhou, permitam-me parafrasear um partido de suporte governamental muito em voga, para afirmar que a democracia e a liberdade também tiveram outros pais (e mães). Nomeá-los a todos seria penoso, hierarquizar o seu contributo e graduar a sua relevância seria ingrato.

Tomemos então estes dois vocábulos, democracia e liberdade, que tão frequentemente se fazem acompanhar um do outro: a democracia será, muito provavelmente, a maior invenção da autoproclamada civilização ocidental. Mas na prática, não faz juz à sua própria etimologia. “Democracia” significa “governo de todo o povo”, e o que vamos tendo são, na melhor das hipóteses, governações representativas (que não dos indivíduos, mas dos “lobbies”). Das funções primordiais dum governo (defesa militar e policiamento, construção de estradas e administração da justiça), involuiu-se para o mostrengo actual, que quase soçobra sob o seu próprio peso, enredado num interminável e kafkiana fúria legislativa, cada vez mais intrusiva. Não obstante, os cidadãos, ingratos e insatisfeitos, exigem cada vez mais: a máquina viciou-os no consumismo desenfreado, que se alcandorou à categoria de direito inalienável.

Quanto à liberdade, filha dilecta da democracia, passou a ser faca de um só gume: somos livres de ter e expressar a nossa opinião, sem que para tal esta tenha de ser minimamente suportada por factos e/ou argumentos. Somos livres de insultar, somos livres de acusar, somos livres de dizer o que pensamos sem pensar no que dizemos... porque vivemos em democracia!

Também somos livres de votar, somos livres de ser solidários para além do “emoticon” choroso, somos livres de nos manifestar em prol daquilo em que acreditamos (não apenas em frente ao teclado), somos livres de agir para mudar e melhorar a nossa rua, o nosso bairro ou o nosso mundo...

É por tudo isto que Mário Soares deve ser respeitado. É por tudo isto que tem de haver quem continue a acreditar e a lutar, porque ainda há muito trabalho por fazer!

Raul Ribeiro

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