Véspera de Festa, esse caos

A nossa casa está um caos, metade da loiça do aparador está para levar dentro da pia e a luz está fraca, é capaz de haver um daqueles apagões de véspera de Natal

24 Dez 2017 / 02:00 H.

É do que me lembro melhor, do caos, de estar tudo fora do lugar e do meu pai empoleirado no escadote a montar o facho de luzes às cores, que na nossa casa era assim, era tudo feito na véspera de Festa. Se fechar os olhos sou capaz de sentir um cheiro a cimento lavado e a canja a fazer, um cheiro de infância que me ampara e embala.

E é como ter outra vez dez anos e o coração em sobressalto, que falta ainda o pinheiro e o presépio e não sei se vai cair um presente no sapatinho. A minha mãe escondeu bem, dentro do guarda-fatos não está e em cima também não, só os charutos cubanos e os cigarros de contrabando do meu pai.

O meu irmão tem mais sorte, tem uma madrinha, a Idalina, que oferece sempre presentes fenomenais como aquela esferográfica com relógio na parte de cima. A prima Adelaide, a minha madrinha, é mais prática, dá-me cinco contos e uma caixa de chocolates. A minha mãe diz que é melhor, faz mais jeito, mas por mim trocava a nota de cinco contos pela esferográfica do meu irmão. Cinco contos não fazem vista no recreio.

É que tenho sempre medo, acho que nunca acertam. Bonecas não gosto, mobília em ponto pequeno também não, o pior foi a vez que me deram um fogão de folha parecido ao nosso da cozinha. Seja o que for, não passa de Fevereiro. A minha mãe tem uma teoria moderna que os brinquedos são para brincar, não somos como os vizinhos que têm os carros a pilhas e as bonecas dentro de caixas.

A nossa casa está um caos, metade da loiça do aparador está para levar dentro da pia e a luz está fraca, é capaz de haver um daqueles apagões de véspera de Natal. O meu pai diz que é das luzes da cidade, a rede não aguenta e quem paga é o povo, mas o povo mais esquecido. Nós só temos os fachos das casas, no caminho não há.

A minha mãe já tirou as caixas das bolas e dos pastores do armário da loja, mas com bolos a cozer e a canja no lume ainda não deu tempo para meter na rocha. Se não faltar a luz... Eu não quero imaginar, um Natal sem presépio. Oiço a voz da minha mãe, que dá ordens e reclama, ninguém ajuda. O meu pai faz que não ouve, é das bombas que o meu irmão largou debaixo da manilha.

E a minha mãe sai porta fora, traz farinha dos bolos na saia e grita que houve não sei quem que morava atrás do cemitério e ficou sem uma mão por causa das bombas. Aquilo mete medo, mas o meu irmão acabou de meter uma debaixo do caneco que vai pelos ares. “Este pequeno é um vasilha torta e tu, minha menina, és tal e qual o teu pai, nunca ouves quando se chama”.

Eu não quero lavar a loiça que está dentro da pia, quero fazer o presépio, quero saber se me vão dar um presente em condições. Pior do que um serviço de loiça de brincar é um pedaço de fazenda para fazer daquelas saias esquisitas, iguais às da minha mãe, mas em ponto pequeno. E nisto a luz vai mesmo abaixo, a casa está um caos, não há pinheiro e ainda temos todos de tomar banho para ir à missa do galo.

O meu irmão e eu vamos fazer de pastores no auto de Natal, até fomos umas três vezes aos ensaios, até descobrimos onde o padre guarda o vinho e as hóstias antes de benzer na missa. A luz volta e vai outra vez abaixo, a canja ao lume aquece a casa e, depois, como que por magia, tudo se compõe. A loiça sai da pia, o presépio aparece e corremos beco acima para a missa, somos pastores e vamos adorar o menino Jesus. Pelo sim, pelo não, o meu irmão leva bombas para dar o adro da igreja.

Marta Caires

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