Tem de haver uma maneira melhor

Todos já vimos, e não vale disfarçar, aqueles de nós que vivem nas ruas, abandonados há sua sorte. São muitas as razões que podem estar na origem disso. Há que buscar as razões e tentar resolver os problemas na sua origem. Há que criar condições de conforto e minorar sofrimentos.

30 Jan 2018 / 02:00 H.

1. Livro: são contos, são bons de ler e têm o encanto de fantásticos grafismos de inúmeros artistas plásticos. É de Valter Hugo Mãe e dá pelo nome de “Contos de Cães e Maus Lobos”.

2. Disco: eu gosto de pop, de pop da boa. Despretensiosa, bem urdida, dançável. Então, se tiver uns cheirinhos a punk... O trabalho de estreia das britânicas Dream Wife, que veste o mesmo nome da banda, é tudo isso. E tão bom de ouvir.

3. Filme: “Blade Runner 2049” de Denis Villeneuve. Não me é difícil gostar da interpretação “flat” de Gosling. É quase monocórdica o que lhe dá uma enorme força. É perfeita para a espécie de ciborgue que encarna neste “scify”.

A sequela de “Blade Runner” não deixa nada a dever ao primeiro. É densa, “noir” e filmada dentro do modelo. Delicioso o encontro em Las Vegas com Elvis Presley, Frank Sinatra e Marilyn Monroe ao som de “Can’t Help Falling In Love” que Deckard diz adorar. Villeneuve dá-nos uma cinematografia e uma cor deslumbrantes num ambiente futurista visionário onde o trabalho das câmaras, orientado por Roger Deakins é metade da fórmula. Sem dúvida, um “must see” para os apreciadores da ficção científica.

4. Continuemos no cinema. Em 1972, Michael Ritchie realizou “O Candidato” com Robert Redford. É um filme, a todos os níveis, de referência. A certa altura da história, e se não me falha a memória, McKay foge ao discurso preparado pelo seu curto “staff” e improvisa. Nasce aí a frase âncora “there’s got to be a better way”, tem de haver uma maneira melhor.

Talvez seja chegada a altura de todos nós, mas mesmo todos, fazermos, ou tentarmos fazer, esse exercício.

Na segurança social pensemos naqueles que as famílias abandonam nas camas hospitalares, as chamadas “altas problemáticas”. Muitas das vezes isso acontece porque não têm modo como tratar dos seus em casa. E ali ficam, na sua maioria pessoas de idade, abandonadas, com um custo social e económico muito grande.

Tem de haver uma melhor maneira...

Todos já vimos, e não vale disfarçar, aqueles de nós que vivem nas ruas, abandonados à sua sorte. São muitas as razões que podem estar na origem disso. Há que buscar as razões e tentar resolver os problemas na sua origem. Há que criar condições de conforto e minorar sofrimentos.

Tem de haver uma melhor maneira...

Na saúde somos todos confrontados com as falhas, que vão ocorrendo amiúde, no proporcionar os devidos cuidados a quem deles precisam. E os avanços e recuos da construção do novo hospital. Não fossem, na sua maioria, os fantásticos quadros humanos e imagine-se onde isto estaria.

Tem de haver uma melhor maneira...

No trabalho, é um facto que temos visto recuar o número de nós que o não têm. Mas serão as condições, os salários praticados, a formação de trabalhadores e empregadores, etc. as melhores? É difícil imaginar que um cenário de plena empregabilidade reduzirá substancialmente toda uma série de problemas criados, a jusante e a montante, pelo desemprego? Tem de haver uma melhor maneira...

A mobilidade, que nos é assegurada como preceito constitucional, que é referida pelo princípio da subsidiariedade consignada nos tratados europeus, a mobilidade que nos tem que fazer sentir como fazendo parte de um todo nacional e europeu, tem que ser assim gerida? É esta a melhor solução?

Tem de haver uma melhor maneira...

A justiça lenta, caríssima, baseada muito mais na procura da aplicação da lei do que em ser aplicada de forma justa e consentânea. A justiça que se arrasta quase “ad eternum” de instância para instância até ao desespero final.

Tem de haver uma melhor maneira...

A cultura, num panorama actual bem melhor do que há uns anos, tem que ser reconhecida como o local onde estão as nossas marcas identitárias. É ela aquilo que somos e passa também por aqui o sermos futuro. Uma cultura actuante, activa, que acarinhe os nossos produtores que a fazem viva e pujante.

Tem de haver uma melhor maneira...

A enorme carga de impostos directos e indirectos que fazem com que em média cada português dê dos seus rendimentos cerca de 56% do que ganha ao estado...

Tem de haver uma melhor maneira...

Políticos preocupados, intervenientes, que procurem soluções pelo diálogo. Que admitam o erro e o corrijam. Políticos que não considerem a sua verdade como absoluta, que entendam que a decisão pode ser resultado de mais ouvires do que falares. Políticos que nos façam sentir que somos parte e parte importante. Que sejam “uns de nós”.

Tem de haver uma melhor maneira...

E no ambiente, e na educação, no turismo, na agricultura e nas pescas, na gestão de recursos, na procura da inclusão, em tudo o que nos lembremos, sejamos mais actuantes, mais interessados porque...

Tem de haver uma melhor maneira...

5. Tem de haver uma melhor maneira... e foi isso que a Empresa de Electricidade da Madeira fez ao retirar um poste de luz que “perturbava” o olhar sobre o fantástico mural da baleia de Marcos Milewski no Campo da Barca.

6. “Tão regrada, regular e organizada é a vida social portuguesa que mais parece que somos um exército que uma nação de gente com existência individuais. (...) Age sempre em grupo, sente sempre em grupo, pensa sempre em grupo. Está sempre à espera dos outros para tudo. (...) Portugal precisa de um indisciplinador. Todos os indisciplinados que temos tido, ou que queremos ter tido, nos têm falhado. Como não acontecer assim se é da nossa raça que eles saem?” – Fernando Pessoa.

7. Hoje há RASGO a partir das 18h no SCAT. Actuais e antigos decisores, convidados, todos os que quiserem participar, em volta de uma conversa sobre os próximos 600 anos, de como se perspectiva a cultura futura da Madeira. Apareçam, participem.

Nuno Morna

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