Só porque sim...

O imediatismo atira-nos para uma espécie de arena efémera, onde se travam as mais loucas batalhas, muitas vezes em nome de coisa nenhuma. Só porque sim... E nesta procura desenfreada pela felicidade ao alcance de um cartão de crédito, assistimos ao desmoronar de valores comuns que nos ligam enquanto sociedade.

27 Dez 2017 / 02:00 H.

A desmoralização leva à desmobilização e esta conduz, inevitavelmente, a um dos dois caminhos possíveis: a indignação ou o conformismo. Cada um sabe com que linhas se cose (ou deveria saber) e cada qual reage consoante os seus valores, o seu caráter e o seu bom senso. Já aqui falei da importância de conhecer os nossos limites e da antiquíssima, mas sempre eficaz técnica de nos enxergarmos ao espelho, na necessidade de ver e compreender cada um dos detalhes, das faltas e das virtudes. Esta deve ser, provavelmente, uma das viagens mais incómodas de sempre para o ser humano: analisar o seu interior, cair na real como dizem os brasileiros e perceber de que matéria somos feitos. Um exercício penoso, mas cada vez mais importante nos tempos que correm em que as pessoas deixaram de escutar os outros.

Nesta sociedade de conchas, não há tempo, nem pachorra para ouvir o que muitos têm a dizer. O imediatismo atira-nos para uma espécie de arena efémera, onde se travam as mais loucas batalhas, muitas vezes em nome de coisa nenhuma. Só porque sim...

E nesta procura desenfreada pela felicidade ao alcance de um cartão de crédito, assistimos ao desmoronar de valores comuns que nos ligam enquanto sociedade. Critica-se só porque sim, ataca-se só porque sim, esgrimem-se argumentos ilógicos só porque sim. Só porque apetece descarregar em alguém que decidiu, por exemplo, colocar um post num grupo sobre um animal desaparecido.

Afiam-se as unhas, cerram-se os dentes e dá-se início a uma cruzada sem deuses, sem salvação possível. Desce-se aos infernos para dali retirar as mais vis ofensas, derramar ódios que conduzem à polémica fútil e desnecessária. Só porque sim. Só porque apetece. Só porque esta é uma das formas mais fáceis para se sentirem vitoriosos, poderosos, invencíveis... Um computador não tem sentimentos. O que se escreve numa rede social não mostra as emoções, nem as lágrimas, os risos ou o espanto de quem está a ler. O afastamento físico permite o aparecimento de monstros, sociopatas, talibãs das redes sociais que não hesitam em vomitar o seu fel para prejudicar a vítima. Longe da vista, longe do coração...

Deixou-se de pensar no impacto. Aliás, muitas vezes, deixou-se pura e simplesmente de pensar.

E é no final de mais um ano sofrido que surgem os balanços e os desejos de ano novo. É preciso sentir mais, utilizar a massa cinzenta com que fomos dotados e contribuir para o crescimento harmonioso da sociedade. Para isso, é necessário fazer a tal viagem penosa e conturbada ao centro do “Eu”, perceber como podemos elevar os nossos valores e passar, como herança, àqueles que ainda estão por nascer.

Contribuir! Com mais opinião formada e informada, fiscalizar de forma assertiva quem nos governa, reclamar com justiça e argumentação, confrontar com elevação e respeito, exigir com determinação e persistência, escutar com atenção e interiorizar...

Questionar! Nunca deixar de questionar! As perguntas levam-nos à procura das respostas e durante essa busca, aprendemos, apreendemos e interiorizamos. Perante uma atitude estranha, fazer a pergunta certa: porque ages dessa forma? O que te leva a dizer isso? Porque fazes assim e não assado?

Entender! Nem sempre é fácil e este é um outro desafio penoso, mas há que tentar.

Esperança! A tal que nunca morre, nem mesmo nos tempos mais sombrios. Continuar a alimentar aquele sentimento que nos arrasta para o dia a dia com os olhos postos num futuro melhor.

Brio! Individual ou coletivo, eis um desejo para 2018. Dar o máximo de nós próprios em cada uma das missões que assumimos. Podes ser engenheiro, professor, aluno, carpinteiro, mecânico ou empregado de armazém. Não importa! O que interessa é que dês o máximo de ti em cada uma das tarefas que executas. E que chegues ao final do dia orgulhoso de ti próprio.

Competência! Exigir cada vez mais àqueles que nos governam. Para isso, há que aperfeiçoar o nosso contributo enquanto cidadãos.

E nesta longa lista de desejos para 2018, incluo no topo a Saúde física e mental que é necessária para a jornada individual e coletiva de cada um. De todos nós.

Naturalmente, o Amor. Por nós próprios (sem egos inchados) pelo próximo, pelos seres vivos, pela sociedade e pela Pátria que nos une enquanto detentores de uma das mais bonitas heranças da História da humanidade. Amor de ontem, de hoje e daquele que há de vir.

Porque viver sem este sentimento, é como canta Maná: é «vivir sin aire».

Boa Viagem!

Só porque sim...

Sónia Silva Franco
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