Silly Season? Cá nada.

O tempo é de acordar, de reagir. Sob pena de nos transformarmos em nada.

24 Jul 2018 / 02:00 H.

1. Disco: dos Nine Inch Nails, “Bad Witch”. Para ouvir... e ouvir... e voltar a ouvir... e ouvir... e...

2. Livro: gosto de biografias. Jaime Nogueira Pinto, e a sua escrita escorreita, deu-nos “Cinco Homens que Abalaram a Europa”. Estaline, Mussolini, Hitler, Salazar e Franco, reunidos numa biografia comparada onde o autor cruza os percursos destes ditadores europeus, que se encontraram nos cenários da Guerra Civil de Espanha. Recomendo vivamente.

3. Mas que semana. Em plena “silly season” uma mão cheia de assuntos não tão “silly” assim. Deve ser deste tempo esquisito do género “não coisa nem sai de cima”.

O Tribunal Constitucional (TC) deixou prescrever multas a partidos e a políticos. Assim a modos que um “jeitinho constitucional”. Ou seja, o fiscalizador, entidade que deve andar de olho naquilo que os partidos fazem e que quando estes “asneiram” deve ser duro e rápido, “esqueceu-se” do papel que desempenha na democracia.

Quem fiscaliza o TC? Quem fiscaliza o fiscalizador? Recorrendo a Garrett: “Ninguém”!

Será que podemos considerar isto um golpe? Não estamos perante um evidente caso de denegação de justiça? De prevaricação? Tenhamos presente que estas multas se referem a contas de 2009. Repito: 2009, quase 10 anos.

Experimente o leitor atrasar-se um par de dias no pagamento de uma qualquer obrigação fiscal, de uma taxa, de uma multa ou de uma taxinha.

As finanças, qual verdadeira PIDE fiscal, caem-lhe em cima sem apelo nem agravo, cobrindo-o, para além do que deve, de uma série de alcavalas, minudências, coisas e coisinhas, que todas somadas lhe levam o couro e o cabelo. Já me aconteceu... algumas vezes. E cidadão não muito cumpridor que sou paguei. Também que remédio tinha eu. Se o não fizesse a coisa só ia piorar de dia para dia até à penhora final.

Mas com os partidos não. Não! Legislam em causa própria, logo, àqueles manganos, tudo se permite. Nove anos, eu repito: 9 anos(!), sem pagar o que devem, finanças incluído, e nem uma multa, uma taxa, uma penhora. Nada!

Aos partidos do ESTADÂO, aos quais se juntaram o Bloco, o PCP e os Verdes, tudo se permite. O cartel da partidocracia no seu pleno.

Ao cidadão, àquele que os sustenta, nada é perdoado. E todos, ou a esmagadora maioria, nos revoltamos com isto. Consequências? Nenhuma! Berramos, insultamos, postamos, xingamos, descompomos e quando podemos decidir diferentemente votamos no “mais do mesmo” permitindo que só mudem as moscas. Uns porque reclamam mas não deixam de ter da política uma perspectiva futebolística tendo uma enorme dificuldade em entender que os partidos não são clubes de futebol. Outros porque vêem na não participação, no ficar em casa alambazados no sofá, a solução e não votam. Tão errados uns como os outros.

4. Pedrogão: “dizem que é uma estrada, mas não passa de uma ausência”, escreveu Ricardo Marques no Expresso a 18 de Junho do ano passado. Usando a sua frase, e depois de sabermos de mais uma aldrabice a envolver os fundos para a reconstrução, bem que podemos dizer que este país também “não passa de uma ausência”. Uma ausência de vergonha, de ética, de moral, de bons costumes.

Tendo nós como referência o comportamento “exemplar” dos nossos deputados que brincam com a sua área de residência de modo a ir buscar mais dinheiro a somar ao seu pecúlio mensal, será de espantar o “chico espertismo” de quem fez o mesmo para ver uma casa não ardida ser reconstruída sem custos?

Como país temos tudo para funcionar. Só nos falta uma coisa: portugueses. Dos bons.

Portugueses mais interventivos, mais exigentes, mais participativos, mais presentes. Daqueles que entendem que o exercício da cidadania é um dever. Daqueles que não estão sempre a reclamar dos seus direitos e esquecem-se que também têm deveres. Que não podem ter sem dar.

Se assim não for, nunca por nunca estas coisas deixarão de acontecer. Estamos de tal maneira anestesiados que somos constantemente bombardeados com isto e a nossa capacidade de reacção resume-se sempre ao mesmo: a indiferença decorada com um fraseado de ocasião. E seguimos em frente.

O tempo é de acordar, de reagir. Sob pena de nos transformarmos em nada.

5. A prestação de Manuel Pinho na Assembleia da República foi do mais indecoroso da história da nossa democracia. E já vi muita coisa.

Assistimos a um ex-Ministro a desrespeitar os parlamentares da Comissão e, por via disso, a desrespeitar todos os portugueses. Escreveu no Público, e muito bem, João Miguel Tavares que Pinho foi à AR gozar connosco.

BES, EDP, Offshores, apartamento em Nova Iorque, Columbia, troca de favores... a tudo se recusou responder na maior das socráticas impunidades.

É a isto que o ESTADÃO nos trouxe, a uma república onde a democracia permite que estes valdevinos proliferem como cogumelos vivendo às nossas custas e se riam disso. Manuel Pinho é só mais um de muitos. Arrogante, prepotente, mal-educado.

Ou a democracia extirpa estas excrescências ou corre sério risco de morrer.

6. O CDS da Madeira foi a Congresso. Digo-o assim porque não se pode dizer que tenha ido a votos quando se recorre a tecnicalidades para impedir a multiplicidade de candidaturas e, logo, de debate. A erdoganização do costume a que já vamos estando habituados.

Magnânimo, Rui Barreto estendeu a mão aos que impediu de participar. E, espante-se, estes aceitaram em nome de uma unidade que tem termo certo: a feitura das listas para as eleições autonómicas.

Ouvi, com a atenção que tenho pelos adversários políticos, o discurso de Barreto onde defendeu a única moção a concurso. Um discurso a falar das virtudes de um partido que faz um Congresso com o mote de ser bengala de outros (“No centro da decisão”), como disse preto no branco o novo Presidente do CDS Madeira, José Manuel Rodrigues, nestas mesmas páginas.

Sem oposição, a seu tempo metida no seu lugar, os Donos Daquilo Tudo fizeram desta reunião magna partidária um momento unanimista de que tanto gostam.

Mas o que me faz mais impressão é o facto de o segundo partido da região ter feito um Congresso para aprovar uma estratégia que diz claramente que depois das próximas eleições não será o maior partido da oposição. Vai a eleições considerando que vale menos do que aquilo que é. Andou dois dias a dizer que está disponível para viabilizar um acordo pós-eleitoral, seja com Cafôfo, seja com o PSD, reconhecendo assim que a discussão da vitória eleitoral será feita entre eles.

Esta aceitação da bipolarização remete este partido para, no máximo, a terceira posição no mapa partidário. E digo isto mesmo sabendo que de seguida alguém virá com outras contas para tentar contrariar a ideia que passaram cá para fora.

E tudo isto foi aprovado quase por aclamação.

7. “Para tudo há um tempo, para cada coisa há um tempo determinado debaixo dos céus: tempo para nascer e tempo para morrer; tempo para plantar e tempo para colher o que foi plantado; tempo para destruir e tempo para construir; tempo para chorar e tempo para rir; tempo para lamentar e tempo para dançar; tempo para calar e tempo para falar; tempo para a guerra e tempo para a paz”. – Eclesiastes

Nuno Morna

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