Será que se lembram...

Naquela altura era assim, íamos todos manter o contacto, escrever cartas e mandar postais, mas duas semanas depois daquelas férias estava já enredada na minha vida

13 Mai 2018 / 02:00 H.

A idade, os anos a rodar uns atrás dos outros, é assunto que pesa mais depois dos 40, quando tudo o que se fez foi há mais de uma década, pelo menos a parte mais divertida como a inconsciência de se ter largado pelas montanhas do Nepal acima com umas botas compradas numa loja de Katmandu e sem saber que tipo de pessoa era o guia, nem o sobrinho, que fazia de carregador. Eu fiz isto, foi noutro século e até correu bem se descontar a queda aparatosa num campo de arroz e a viagem num avião que não tinha porta.

Aqueles dez dias foram, em doses idênticas, uma inconsciência de juventude e uma aventura de se tirar o chapéu à miúda do Laranjal que, num Setembro distante, acordou com vista para os montes gelados dos Himalaias. Aquele instante no quintal de uma pousada de montanha, que era na verdade uma casa normal onde os turistas alugavam quartos, fez valer a pena tudo: os sacos-cama alugados onde se dormia vestido, os banhos com água racionada e os degraus sempre a subir e sempre a descer.

Tudo naquele lugar significava perceber que as vistas das fotografias eram mais do que se via nas revistas, nos guias que tínhamos consultado à pressa antes de embarcar para o desconhecido. Antes de estar ali, naquele quintal com vista, fora necessário atravessar Katmandu de ruas em terra, de bancas de venda de peixe e moscas, de lixo amontoado pelos cantos e por onde vacas brancas e magras deambulavam, indiferentes e sagradas. A miséria, tão extrema que custava a olhar, estava ali, nas casas e nas pessoas, parecia um milagre estar vivo, acordar e continuar o dia como no dia anterior, na miséria extrema.

Os turistas apreciavam o genuíno, o pitoresco das construções de madeira do centro da cidade onde uma multidão de crianças pedia dólares, libras, francos, dinheiro de qualquer nacionalidade. Alguns vendiam bugigangas, outros nem isso, nenhum teria mais de 10 anos e vê-los assim agarrados às nossas pernas doía, mas não se podia mudar um país inteiro e, por isso, fugimos dali para as montanhas, fomos ver os Himalaias dos documentários da televisão que a Internet estava no princípio e os telemóveis tinham acabado de chegar. E fomos, duas raparigas, um guia e um carregador montanha acima.

Vimos campos de arroz – eu caí num -, atravessámos pontes como as dos filmes do Indiana Jones, dormimos em camas de palha e comemos papas de aveia ao pequeno almoço e quando acabou, no voo de regresso, pudemos ver pela última vez os picos gelados. A hospedeira confundiu-me com uma rapariga do Nepal e almocei caril. Tinha deixado de protestar contra os atrasos, as trocas, os enganos, a publicidade enganosa, os truques para ganhar mais e gastar o mínimo possível. Durante uns tempos, sonhei com aquele lugar, com as pessoas com quem me cruzei, guardei as conversas em inglês trôpego e os endereços.

Naquela altura era assim, íamos todos manter o contacto, escrever cartas e mandar postais, mas duas semanas depois daquelas férias estava já enredada na minha vida, nas minhas histórias, a aborrecer-me com banalidades e a miséria que tinha visto começava a desvanecer-se, o cheiro das ruas perdia-se na memória e, com isso, foi-se também a vontade de escrever aos israelitas e franceses com quem tínhamos passado os serões à conversa, a falar da guerra na Palestina e a quem li partes dos textos que escrevi. Às vezes pergunto-me onde estarão aqueles desconhecidos, os primeiros com quem partilhei a escrita. Será que se lembram do Nepal e das duas raparigas portuguesas que todos confundiam com israelitas?

Nesse tempo não havia redes, as pessoas cruzavam-se e depois seguiam caminho, com sorte seriam memórias umas das outras.

Marta Caires

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