Sair da cepa torta

Emanuel Câmara percebeu que em vez de ter um Olhanense fraquinho a defrontar um Benfica, pode mudar a dinâmica do jogo e apresentar-se à equipa adversária com um Real Madrid. Assim, cria a possibilidade de os madeirenses assistirem, com a esperada euforia, a um confronto entre dois grandes.

01 Nov 2017 / 02:00 H.

Digeridos que estão os resultados das autárquicas, as atenções viram-se agora para 2019. Temos um PSD à procura do Norte, a aprender o que são falhas de comunicação e a tentar dar um novo fôlego ao governo com a mudança de cadeiras que se verificou. Será suficiente?

A ansiedade e o desconforto aumentam a cada dia que passa, principalmente agora que temos um PS a forçar a antecipação das estratégias e a apresentar um novo cenário ao eleitorado.

Todos os cenários anteriores foram testados, votados e, muito provavelmente, esgotados. Os resultados, desde 1976 até agora, assim o demonstram. O PS desceu de divisão nas regionais e deixou-se ultrapassar como líder da oposição.

A sociedade mudou, modernizou-se, tornou-se mais exigente e mais impaciente. Os partidos já não galvanizam como outrora e muitos perceberam que têm de mudar urgentemente a forma como se apresentam aos eleitores.

A convulsão que se vive no PS-Madeira também é fruto dessa tomada de consciência. O aparecimento da candidatura de Emanuel Câmara representa uma fação que quer mudar e dar um novo fôlego a um partido que acumulou uma série de derrotas consecutivas nas eleições regionais. Será o líder mais indicado? Provavelmente não, mas é aquele que se chegou à frente, deu um murro na mesa e está disposto a mandar a bola para a frente. Quantos andaram, em surdina, a congeminar e a se queixar pelos cantos? O homem do Porto Moniz foi o único, até agora, a desafiar as lógicas estabelecidas e a apresentar uma solução diferente: um independente para candidato a presidente do Governo Regional.

Emanuel Câmara percebeu que em vez de ter um Olhanense fraquinho a defrontar um Benfica, pode mudar a dinâmica do jogo e apresentar-se à equipa adversária com um Real Madrid. Assim, cria a possibilidade de os madeirenses assistirem, com a esperada euforia, a um confronto entre dois grandes.

Equilibrar as forças em 2019, nivelar os pratos da balança, é, provavelmente, o que têm em mente os estrategas da campanha do homem do Norte que, no seu currículo e é preciso não esquecer, acumula mais derrotas do que vitórias.

As sucessivas lideranças daquele que já foi o maior partido da oposição, nunca conseguiram alcançar os seus intentos nas regionais: destronar o PSD de Alberto João Jardim. Todos os líderes falharam. Todos eles fizeram o seu acto de contrição, foram questionados e desafiados internamente. Uns optaram por sair de fininho, outros assumiram com hombridade as derrotas e souberam fechar a porta. Entenderam que o seu projeto não era o mais adequado. Que venha o próximo...

O PSD já não é de Alberto João Jardim e os estrategas socialistas da ala Emanuel Câmara perceberam que aqui têm uma oportunidade única de ir à boleia, aproveitar a fama e o carisma de um independente para sair da cepa torta. Para isso, precisam de um líder que esteja disposto a inovar, arriscar e a romper com todas as artimanhas anteriormente testadas e falhadas. Um líder popular que saiba reconhecer a oportunidade para revitalizar o seu partido, em vez de insistir nos manuais bafientos e desajustados da nova realidade social, até porque o caminho que os trouxe até aqui, nas regionais, não resultou. Nunca resultou...

Muitos podem condenar e criticar o facto de ser uma estratégia inédita, perigosa ou até mesmo indiciadora de que se está a passar um atestado de incompetência às lideranças. O certo, é que esses atestados foram passados pelo eleitorado a um partido que o máximo que conseguiu, em 41 anos de regionais, foi a eleição de 19 deputados!

Portanto, 2019 afigura-se como o ano decisivo em que o Benfica (também ele a evitar cair na cepa torta) poderá ter um rival à altura, movimentando as massas, galvanizando a população. A subida de divisão implica que se deixe cair os fracos, os vencidos e as falsas estrelas, num plantel que tem de ser renovado com craques que percebam minimamente do assunto.

Podemos estar perante a velha máxima de “muita parra e pouca uva”, mas se não for tentado, nunca se saberá se resulta.

«We have to choose between change and more of the same. We have to choose between looking backwards and looking forward», Barack Obama, 2008.

Sónia Silva Franco
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