Ruy

Tendo sido minha a proposta de que a Coluna de Socorro assumisse o nome de Henry Dunant, gostava hoje e aqui de propor que se lhe alterasse o nome para: Coluna de Socorro Ruy Ameal

08 Mai 2018 / 02:00 H.

1. Disco: os Iceage são dinamarqueses. Daquele terra que se diz ser a mais feliz do mundo. Eles devem ser a excepção à regra. Já vão com dez anos e “Beyondless” é só o seu quarto trabalho. Passada que está uma certa revolta inicial, estão agora mais soul-punk.

2. Livro: “Reaccionário com dois Cês”, do Ricardo Araújo Pereira. Pequenos textos saborosos daquele universo alternativo que constrói todas as semanas nas crónicas que escreve.

3. O tempo, esse maldito, às vezes faz-nos esquecer coisas que deveríamos ter sempre presentes. O meu amigo Rui Camacho relembrou-me, na passada semana, o nome de uma pessoa que desempenhou na minha juventude um papel de grande relevo na minha formação. Eramos quase vizinhos. Eu vivia na Travessa do Descanso e ele e a família, um pouco mais abaixo, no Vale Formoso. Conhecemo-nos em 1978 quando eu e um grupo de amigos, reunidos pelo Rui Dantas (João Carlos Faria, os gémeos Toni e Alberto, Duarte Sena, se não me falha a memória) fomos voluntários na Operação Pirâmide, que na Madeira decorreu no Teatro Municipal, que consistia na recolha de fundos e roupas para a Cruz Vermelha. Lembro-me como se fosse hoje de, no final do dia, termos ficado à conversa com o pai do Rui, o enfermeiro Dantas, e com um senhor pequenino de aspecto rijo e cheio de vigor a tresandar a energia. Da conversa surgiu a ideia de se poder continuar o trabalho no âmbito da Cruz Vermelha trazendo para cá as brigadas que funcionavam ao nível nacional.

E foi assim que se deram os primeiros passos para a criação daquilo que é hoje a Coluna de Socorro.

A pessoa de que estou a falar dava pelo nome de Ruy Ameal. Com ele aprendi muitas e grandes lições de vida.

Aprendi que a liberdade implica responsabilidade. Aprendi que o respeito dos outros é uma coisa que se ganha e que quem quer ser respeitado dá-se ao respeito. Aprendi que a verticalidade é uma qualidade e que a teimosia é um defeito (e Deus sabe como, apesar disso, continuo a ser teimoso). Aprendi que a autoridade é natural se todos soubermos o que temos a fazer. Aprendi que devemos sempre lutar por aquilo em que acreditamos. Aprendi que a razão dos outros é tão válida como a nossa.

Aprendi muito, mas mesmo muito, com o Ruy Ameal. Tanto que se hoje sou o que sou ele desempenhou nisto um papel de grande importância.

E não se pense que estou a falar de um super-homem, o Ruy tinha defeitos, como todos temos, mas estes nunca impediram que ele fosse um Grande Homem.

Fui e sou amigo da família onde conto com alguns dos meus melhores amigos. Daqueles que vemos de tempos a tempos mas que sabemos que no dia em que for preciso lá estarão por nós.

Muitos e bons amigos fiz na Coluna de Socorro que andam por aí, como dizia o outro. Alguns com responsabilidades a vários níveis. E é a eles que apelo. Tendo sido minha a proposta de que a Coluna de Socorro assumisse o nome de Henry Dunant, gostava hoje e aqui de propor que se lhe alterasse o nome para: Coluna de Socorro Ruy Ameal.

Se o fizerem, se o fizermos, estaremos a homenagear não só o Ruy, mas todos os que fizeram da Coluna o que ela é hoje. Homenagearemos todos os que deram e dão sem querer receber nada em troca.

Não faço a mais pálida ideia de como e a quem se pode pedir para que esta alteração seja feita mas acho que é primordial que se o faça.

O suíço Henri Dunant, fundador da CV, já tem homenagens que cheguem por esse mundo fora. O Ruy Ameal ainda não teve da nossa parte, da parte de todos os madeirenses, a homenagem que merecia.

Porque o Ruy é um dos nossos, porque merece esta homenagem, porque, para mim, faz todo o sentido.

4. Lembrou Luís Aguiar-Conraria, um dos que vale a pena ler no Observador, que ninguém tem razões para rir nos partidos do dito arco da governação no que à corrupção e aproveitamento pessoal diz respeito. Ele é o José Sócrates, o Manuel Pinho, o Armando Vara, no PS; o Oliveira e Costa, o Dias Loureiro, o Duarte Lima, o Frasquilho no PSD; são os submarinos que ensombram o nome de Portas e os sobreiros que envolvem Luis Nobre Guedes e Abel Pinheiro. E o que dizer do aproveitamento que a classe política tem na rapidez em arranjar emprego em empresas com quem criou contactos enquanto governante? Durão Barroso à cabeça, com o “empreguito” que arranjou na Goldman Sachs. A posição que Maria Luis Albuquerque “arranjou” na Arrow com quem despachou negócios como Secretária de Estado e em relação à compra de créditos do então intervencionado BANIF. O inenarrável Catroga e a EDP. Ferreira do Amaral, ex-Ministro das Obras Públicas, e a Lusoponte, Jorge Coelho e a Mota-Engil.

Tudo uma teia onde não se distingue onde começa e acaba o pessoal, o privado e o público.

Saem uns e entram outros como ingredientes de uma sopa de promiscuidade da qual todos comem prazerosamente.

Para o ano, voltamos a ter eleições. Fiquem em casa, não participem para serem coniventes com isto. Ou então, voltem a votar nesta gente, como se para esta porcaria não houvesse alternativa.

5. A Panini, empresa especializada em colecções de cromos, tem agora a correr uma sobre o Mundial de Futebol deste ano. Se um dia fizessem uma colecção sobre políticos corruptos, José Sócrates era o cromo mais fácil da colecção.

O cromo Sócrates, que leva o número largos milhões, demitiu-se do PS na passada semana, “pondo fim”, nas suas palavras, “a este embaraço mútuo”. Que “chatice” para o Partido Socialista. Antes que venham as moralizações da assunção da presunção da inocência até ao trânsito em julgado, acertemos que o caso Sócrates pode, e deve, ser analisado a três níveis.

Porque “vemos, ouvimos e lemos”, como escreveu Sophia, e deu-nos Deus a capacidade de concluir (uns mais e melhor do que outros) podemos olhar para isto no plano político, no plano mediático e, claro, no plano da justiça.

No plano político o julgamento está mais que feito. José Sócrates é um crápula. Representa aquilo que de mais baixo e rasteiro tem a política partidária. É a negação da política como assunto relativo ao cidadão, à cidadania, à gestão dos assuntos comuns de todos nós.

No plano mediático, há coisas que me enojam, porque por maior que seja a pulhice, há direitos que têm que ser salvaguardados. E têm que o ser porque um dia também pode acontecer que alguém que seja inocente seja exposto em certa comunicação social que julga, perverte e condena.

No plano da justiça, a coisa afina de outra maneira. Casos a serem investigados, em processo, a serem julgados, que se vêm expostos na praça pública por violação do segredo de justiça, é coisa que me repugna. Da justiça, quer-se o resguardo.

6. Antes do primeiro concerto do “Fica Na Cidade” o público teve que levar com um discurso do Presidente da Câmara, de larguíssimos minutos. Na concessão do Café do Teatro, a um privado que já lá estava, inaugurou-se uma placa alusiva ao acontecido e a dar conta disso mesmo. Paulo Cafôfo, como homem que vem da área da História, usa a máxima barroca de que o que vale a pena fazer, vale a pena exagerar.

Nuno Morna

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