Recordação do Carnaval de 1979

A minha mãe continuou a enfeitar o quintal com serpentinas e a fazer uma tigela de massa de mal-assadas para almoço e jantar do Entrudo e da Quarta-Feira de Cinzas

11 Fev 2018 / 02:00 H.

Recordação do Carnaval de 1979, Lina Marta Caires. A frase tem uma emenda na palavra recordação, que eu estava só na segunda classe e as palavras grandes eram das mais difíceis de escrever, mas é a minha letra e sou eu, nos meus oito anos, de botas ortopédicas e com uma coroa na cabeça e uma máscara esquisita na cara. A roupa não é famosa e devia estar frio, tenho umas collants grossas, das que nunca se seguravam na cintura e um colete vermelho.

A minha mãe coseu umas fitas de papel de joeira na saia e eu fui assim para a festa da escola, de coroa de cartolina enfeitada com papel de lustro e uma máscara inspirada nas viseiras, estranha e com bocados de serpentina colados. Lembro-me de ter suplicado por um elástico fino como os que vinham nas máscaras de plástico da venda, mas a minha mãe fez de surda e tirou um de umas cuecas velhas e disse-me que aquele era mesmo bom. E quando a minha mãe dizia estas coisas o melhor era acreditar.

O professor Baltasar tinha apelado aos nossos talentos, até nos deu um sermão de que o que valia era a criatividade. As melhores máscaras seriam as nossas, criadas e desenhadas por aquela turma de índios e cowboys do Laranjal, filhos do povo que apanhava o autocarro para ir trabalhar ou subia a carroçaria das furgonetas que vinham buscar os homens das obras. Acho que foi por esse ideal revolucionário, pela ideia de premiar o esforço que me deu um ‘muito bom’, nem reparou que a máscara tinha um olho mais abaixo do que o outro.

O que também não era novidade, tínhamos o professor mais imprevisível de toda a escola, que nos defendia e desafiava a ser diferentes, que nos pedia para fazer contas de multiplicar ou o resumo do episódio da telenovela do dia anterior, que contava histórias de barcos e do mar e fazia discursos a apelar à originalidade. De modo que, naquela festa de Carnaval de 1979, eu cheguei confiante não fosse oNuno Numásio estragar tudo com um disfarce de Zorro, com capa, viseira verdadeira e espada, tal e qual como nos filmes e nos livros aos quadradinhos do meu primo Vítor.

Foi um golpe duro no nosso amor próprio, não havia maneira de competir com um traje daqueles, bem à maneira, que não metia trapos velhos ou fitas de papel de joeira cosidas à roupa, nem viseiras atabalhoadas com olhos fora de esquadria. O discurso do talento, da diferença e da imaginação ficou abalado, tenho a certeza que qualquer um de nós o teria trocado por um disfarce bonito de índio, cowboy, princesa ou bruxa, do rato Mickey ou do pato Donald.

Também não foi por isso que o Carnaval desse ano foi menos divertido, nem sequer a festa da escola. O professor até tirou uma fotografia, a tal onde eu escrevi recordação do Carnaval de 1979 com a minha letra da segunda classe. E lá estou eu e o Numásio, uma espécie de encontro de mundos diferentes: um novo e moderno; outro antigo e pobre. O antigo, de onde eu vinha, ficou por mais uns anos no Laranjal com os seus mascarados a passear pelo caminho e a descer do beco.

A minha mãe continuou a enfeitar o quintal com serpentinas e a fazer uma tigela de massa de mal-assadas para almoço e jantar do Entrudo e da Quarta-Feira de Cinzas. E eu continuei a comer muitas, com muito mel de cana, com aquela fome que me fez feliz na infância e ensombrou a adolescência. A recordação do Carnaval de 1979 é isso, uma fotografia na velha escola do Campo do Marítimo, com uma roupa esquisita e a memória do dia mascarados, do brilho das serpentinas a cair do terraço para as laranjeiras e dos pratinhos de mal-assadas que comi nessa tarde e em todas as tardes de Carnaval da infância.

Marta Caires

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