Quo Vadis?

E no desporto, o que aconteceria, por exemplo, ao Barcelona? Ia disputar que campeonato? Se o abandono fosse pacifico, o actual, com certeza. Mas não o sendo (como se está vendo) para onde iria jogar o clube catalão? Um torneio interno? Com quem? Com o Espanhol (que teria de mudar de nome) e com o Girona?

06 Out 2017 / 02:00 H.

A tensão acentuou-se mais recentemente quando o partido vencedor das eleições regionais começou a ameaçar Madrid com um referendo. E marcou data. O Tribunal considerou aquela pretensão inconstitucional.

Os catalães votariam na independência? Antes da crise, em condições normais, a maioria creio que não. Então qual o motivo para o uso da força por parte do poder central? Eventualmente para restaurar a ordem, fazer respeitar a lei e a soberania. Mas também para impedir precedentes e a proliferação de outros similares pelas diversas comunidades fazendo implodir a unidade do Estado e do Reino.

Não vou escrever sobre a perspectiva política e nem sequer farei considerações sobre o direito dos povos se exprimirem em liberdade, (dentro de um quadro legal é certo), sempre que assim o entenderem. Vou deter-me nalgumas dúvidas, de ordem prática, que vão surgir (outras entretanto aparecerão) enquanto decorre o diferendo.

Supostamente a vontade independentista terá como argumento principal vantagens para o território e para o seu povo. A nível do bem estar económico e do nível de vida das pessoas. Depreende-se. Caso contrário seria um exercício político masoquista extemporâneo.

Fácil se torna vislumbrar, desde logo, uma vantagem. A Catalunha é das localidades autónomas mais ricas do país vizinho. Contribui decisivamente para o PIB nacional. O seu é superior à maioria das outras divisões administrativas. Que não todas, como de quando em vez, erroneamente, se afiança. Logo, não tendo que fazer média com as restantes subirá e não subirá pouco. E isso é bom. Para eles. E mau para Espanha, que verá o seu diminuir substancialmente. Crê-se que baixaria aproximadamente 20% em caso de separação.

Por outro lado, ao contrário de tantas regiões pelo mundo fora, esta é auto-suficiente. Muito por conta de uma economia sólida e sobretudo de uma indústria e de um turismo fortes que lhe garantem pujança e optimismo no que concerne à perspectivação do futuro como nação livre e soberana.

No período de austeridade, que todos sofreram solidariamente por igual, os que agora querem ir à vida sozinhos acharam que, por conta da sua riqueza, não teriam de passar pelos sacrifícios que os outros suportaram. É provável. Mesmo tendo em conta as despesas que não deixariam de crescer, designadamente em tudo o que não é neste momento da sua responsabilidade e passaria a ser.

Estas entre outras vantagens com certeza já elencadas pelos seus dirigentes políticos antes de partirem para esta aventura.

Mas não terá só virtudes para os catalães a sua hipotética saída da pátria de “nuestros hermanos”.

O que perderia este território geograficamente situado a nordeste da península ibérica?

Tornando-se independente teria de abandonar a União Europeia. A situação modificar-se-ia radicalmente. Quantas grandes empresas, hoje ali sediadas, continuariam por lá? E, acontecendo a previsão, que influência negativa terá esse abandono massivo, para as suas receitas, para o equilíbrio orçamental, para o PIB, hoje bom, amanhã quem sabe?

Tornando-se não subordinada é natural que criem moeda própria. No entanto podem optar por utilizar o euro. Mas obriga a negociações. E se não o quiserem usar? Ou se Bruxelas o não permitir? A desvalorização do dinheiro local será inevitável, com consequências de novo perniciosas para a economia e finanças do que seria o novo país.

Mas sempre podem pedir a integração na União Europeia e acabar por obviar algumas das dificuldades apontadas acima. Pois podem. E quanto tempo vai isso levar? E qual vai ser a posição de Espanha em relação a essa pretensão?

Com o afastamento consumado acabariam os fundos comunitários. E ficariam satisfeitos os naturais utilizadores? O que diriam os empresários acerca desta real possibilidade? E os que eventualmente garantiriam trabalho à conta de novos investimentos por esta via? Que danos causaria à economia da Catalunha independente?

Se esta situação fosse avante, e o Estado mostrasse disponibilidade para negociar a secessão, defenderia naturalmente e também os seus interesses. Como ficaria a dívida? Alguma parcela teria que seguir para aqueles que agora tentam sublevar-se. Em função de que critério? Do número de habitantes? Do PIB? Ou outro? O segundo não seria benéfico para a região. Mas provavelmente seria esse a ser colocado em cima da mesa.

E no desporto, o que aconteceria, por exemplo, ao Barcelona? Ia disputar que campeonato? Se o abandono fosse pacifico, o actual, com certeza. Mas não o sendo (como se está vendo) para onde iria jogar o clube catalão? Um torneio interno? Com quem? Com o Espanhol (que teria de mudar de nome) e com o Girona? E como seguravam Messi e outros tantos futebolistas de renome mundial com a previsível queda abrupta de receitas, de competitividade e de visibilidade dos clubes locais? Receio uma provável debandada geral.

Podem entender que são pequenas coisas face ao objectivo pátrio principal. Mas todas juntas (estas e outras) não serão despiciendas.

Admiro a luta que se trava contra o macrocéfalo poder central seja onde for. Mas no mundo em que vivemos, enfrentando tantas dificuldades, temos que ser pragmáticos e realistas quando toca à defesa do povo que estamos de modo temporário a zelar pelos seus interesses. Uma coisa é a luta política, outra os passos que em cada momento e em cada circunstância se devem dar, tendo em conta a conveniência, em prol dos que estão à nossa guarda. Por isso sempre fui apologista da diplomacia. Que resolva e não a de fachada. O que não obsta às legitimas reivindicações. Antes pelo contrário. Para aumentar a autonomia. Que, ao fim, é como tudo vai acabar em Espanha.

Ps: Este texto foi escrito antes dos lamentáveis acontecimentos do dia 1. A violência nunca foi boa solução. De tal forma que desdigo o que antes afirmei. Presumo que hoje os catalães já votariam pela independência. Nem que fosse para responder à impetuosidade desajustada. Para esse desastrado modo de tentar resolver as coisas reservarei outra crónica porque a evolução da conjuntura com certeza vai tornar oportuno.

João Cunha e Silva